Repressão

1964 – Repressão

Correio da Manhã foi decisivo no caso ParaSar

GRITOS NO PORÃO - Por meio de tortura e assassinatos, a Oban ganhou a guerra contra a esquerda armada
Repressão começou antes da luta armada, reforça Comissão da Verdade
Comissões visitarão ex-centro de tortura
Comando veta visita a DOI-Codi e comissão recorrerá a ministro
Entrevista - José Carlos Tórtima, ex-preso político e advogado:                                "Nada foi pior do que o período no DOI-Codi
Os arquivos secretos da Marinha
Os infiltrados da ditadura
Estádio do Botafogo foi campo de concentração, diz advogado

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 Terça-feira, 03 de Setembro de 2013   |   ISSN 1519-7670 - Ano 17 - nº 762
Caderno da Cidadania                                                 

ENTREVISTA / MAURÍLIO FERREIRA LIMA

Correio da Manhã foi decisivo no caso Para-Sar

Por Mauro Malin em 19/06/2012 na edição 699
O caso Para-Sar, denunciado no ano-dobradiça de 1968, condensou alguns dos aspectos mais torpes do regime militar. Em resumo, o brigadeiro João Paulo Burnier queria empregar o Para-Sar, unidade da Aeronáutica especializada em busca e salvamento, para provocar na cidade do Rio de Janeiro um morticínio que servisse de pretexto ao massacre de comunistas e outros opositores e dissidentes da ditadura. Oficiais e sargentos – entre eles o capitão Sérgio Miranda de Carvalho (Sérgio Macaco, 1930-1994) − discordaram de Burnier e o denunciaram a outras autoridades da Força Aérea.
O plano foi abortado depois que o deputado federal Maurílio Ferreira Lima (MDB-PE) o denunciou da tribuna da Câmara e o jornal carioca Correio da Manhã publicou uma carta da nora do brigadeiro Itamar Rocha, solidário com os denunciantes. Nos muitos relatos existentes sobre o episódio, vários deles bem documentados [ver nota no final], não se esclarece como o deputado soube de uma história que circulava apenas entre oficiais e sargentos da Aeronáutica e o que o levou a fazer a denúncia.
Nesta entrevista ao Observatório da Imprensa, Ferreira Lima conta a movimentação oposicionista por trás de seu pronunciamento e afirma que sem a insistência do Correio da Manhã no assunto a cúpula da Aeronáutica teria conseguido desacreditar os denunciantes.
A investigação e a denúncia de crimes cometidos com pretexto político durante o regime militar foi desde o primeiro momento iniciativa da imprensa, como se procurou mostrar no tópico “Mídia e cidadãos não têm prazo para apurar“, escrito a propósito do trabalho de que está incumbida a Comissão da Verdade.
Entre salvamento e extermínio
Para-Sar (“para” de paraquedista e “sar” de search and rescue, busca e salvamento) era o nome pelo qual se tornara conhecida a 1ª Esquadrilha Aeroterrestre de Salvamento, destacamento especializado em missões de resgate a acidentados, informa o verbete Eduardo Gomes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro.
Em abril de 1968, seguindo orientação do brigadeiro Burnier, lê-se na publicação Nosso Século (seis volumes, 1980), da extinta Abril Cultural, que...
“...um grupo de homens do Para-Sar, à paisana e armado com pistolas, é destacado para acompanhar uma manifestação estudantil no Rio de Janeiro. Os oficiais deviam ajudar na prisão de estudantes, vigiar o alto dos edifícios e eliminar sumariamente os que de lá arremessassem objetos contra a polícia. A primeira parte da missão é cumprida, a segunda, não.”
Burnier foi um dos expoentes da extrema direita das Forças Armadas brasileiras no século 20. Chefiara a Revolta de Aragarças (Goiás), em 1959, contrária a Juscelino Kubitschek e favorável, segundo Burnier, à manutenção da candidatura de Jânio Quadros à presidência da República. O oficial da Aeronáutica esteve ao lado de Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara, durante o movimento que derrubou João Goulart.
Ele foi o criador do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (Cisa). Atribui-se à sua passagem por um curso de informações na Escola das Américas do Exército Americano, no Panamá, em 1968, uma exacerbação de conceitos calcados na Guerra Fria e a defesa de todo e qualquer método que pudesse ser útil à causa do anticomunismo.
Em junho de 1968, promovido a brigadeiro-do-ar, ocupava a chefia da seção de informações do gabinete do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Souza Melo. Antigo integralista, Souza Melo integraria a Junta Militar que tomou o poder em 31 de agosto de 1969 para evitar que o vice-presidente, Pedro Aleixo, um civil, substituísse o general Arthur da Costa e Silva, incapacitado por uma trombose.
Roteiro de atrocidades
Burnier fez várias preleções a integrantes do Para-Sar. Teriam agora novas tarefas, para as quais se requeria sua capacidade operacional, resultado de intenso treinamento e grande experiência. Elas incluíam explodir a loja de departamentos Sears, na Praia de Botafogo, a embaixada dos Estados Unidos e o Citibank, no centro da cidade; dinamitar a represa de Ribeirão da Lajes, deixando a antiga capital da República parcialmente sem água; explodir o gasômetro que ficava a 250 metros da Estação Rodoviária Novo Rio, em dia de semana, por volta das seis da tarde, para matar um grande número de pessoas; atribuir os atentados aos comunistas e promover uma matança que, nessas condições, poderia ser aplaudida pela população.
Em meio à confusão criada, seriam presos e assassinados 40 altos personagens da política, entre eles dois dos líderes da Frente Ampla, Juscelino e Lacerda. Seus corpos seriam jogados no mar, a 40 quilômetros da costa. A Frente Ampla, criada em outubro de 1966 e proibida pelo governo em abril de 1968, foi entre 1966 e 1968 o movimento mais importante pela redemocratização do país.
Em junho, Burnier mandou todos os homens do destacamento embarcarem num ônibus que os levou da Base Aérea de Santa Cruz ao gabinete do ministro, no centro do Rio. Durante tenso monólogo, disse que o soldado, para saber matar na guerra, tinha que ser capaz de matar na paz, com gosto de sangue na boca e sem que sua mão tremesse.
Resistência da oficialidade
A exposição do plano e a recusa do Para-Sar a levá-lo à prática, encabeçada pelo capitão Sérgio, provocaram grave crise na Força Aérea. Havia também uma questão de comando: o Para-Sar não era subordinado ao gabinete do ministro, e sim ao Departamento de Rotas Aéreas, dirigido pelo brigadeiro Itamar Rocha. Ele abriu inquérito que confirmou os fatos, negados por Burnier. Rocha levou o assunto ao ministro e foi punido. Também foram punidos, com penas de prisão menos simbólicas, oficiais e sargentos do Para-Sar.
Cerca de trezentos oficiais da Aeronáutica assinaram manifesto contra a utilização do Para-Sar preconizada por Burnier. Um deles foi o brigadeiro Délio Jardim de Matos (futuro ministro da Aeronáutica), que levou o assunto ao brigadeiro da reserva Eduardo Gomes, figura mais reverenciada da Aeronáutica e ministro no governo Castelo Branco (1964-1967). Gomes preferiu abafar o caso e tentar resolvê-lo dentro da hierarquia do regime.
O assunto circulou entre oficiais-generais da reserva, entre eles os brigadeiros Adamastor Cantalice, que contou a história a Juscelino, e Francisco Teixeira, ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e cassado em 1964.
Obrigação de democrata
E aqui entra na história Maurílio Ferreira Lima. Antes do golpe, ele fora oficial de gabinete do então prefeito do Recife, Miguel Arraes, eleito em 1959. Em 1963, se tornara assessor do ministro da Agricultura Osvaldo Lima Filho, deputado eleito pelo PTB e um dos criadores da Frente Parlamentar Nacionalista. Ferreira Lima havia sido eleito suplente pelo MDB de Pernambuco em 1966 e assumira o mandato em 1968.
O deputado frequentava na Cinelândia, centro do Rio, o escritório do advogado Marcelo Alencar (futuro prefeito do Rio e governador do estado), “ponto de encontro de tudo quanto era gente de esquerda e de oposição ao regime”, descreve. Em setembro de 1968, Alencar levou Ferreira Lima ao encontro do brigadeiro Teixeira. Este lhe perguntou se poderia fazer na Câmara a denúncia da maquinação de Burnier e o relato do conflito na Aeronáutica.
“Ele me disse que um texto já havia sido preparado e que era minha obrigação denunciar o plano assassino”, narra Ferreira Lima. “No dia combinado, emissários levariam uma cópia ao Correio da Manhã, onde jornalistas democratas já estavam avisados e providenciariam sua publicação. Eu não deveria revelar o assunto a ninguém, nem mesmo ao líder do MDB, deputado Mario Covas.”
Aeronáutica “invade” o Congresso
Ferreira Lima foi para Brasília e em 1º de outubro falou no pequeno expediente da Câmara dos Deputados. O presidente da Casa, Zezinho Bonifácio (José Bonifácio Lafayette de Andrada, da Arena de Minas Gerais), imediatamente suspendeu a sessão. O ex-deputado relata: “Ao voltar ao plenário, fui abordado por dois colegas e amigos. O general Amaury Kruel [do MDB do então estado da Guanabara] e Aureliano Chaves [Arena-MG, futuro vice-presidente da República]. Kruel me disse: ‘Acho que você se meteu numa fria’. Aureliano me perguntou se eu tinha emprego fora da Câmara, ou patrimônio. Como eu lhe respondesse que não, externou sua preocupação: ‘Você vai ser cassado. Vai viver de quê?’”
“Logo depois, houve uma coincidência cômica”, relata Ferreira Lima. “Integrantes da Força Aérea dos Estados Unidos em viagem ao Brasil foram visitar o Congresso Nacional, acompanhados por oficiais da Aeronáutica. Fardados, todos. O deputado Raul Brunini [radialista muito conhecido e lacerdista eleito pelo MDB-GB] entrou esbaforido no plenário e me disse que eu precisava imediatamente me esconder, porque a Aeronáutica acabara de invadir o Congresso. Tomado de ímpeto cívico, respondi que se tratava de um atentado às instituições democráticas e que iria permanecer sentado no plenário. Até que o equívoco se desfez.”
Trincheira no Correio da Manhã
Saindo do plenário, Ferreira Lima telefonou para Marcelo Alencar e lhe comunicou que a missão fora cumprida e que se tinha criado em Brasília um clima de grande confusão. Alencar informou ao deputado que as pessoas encarregadas de levar o texto ao Correio da Manhã haviam sido presas naquela manhã.
A notícia da denúncia de Ferreira Lima seria publicada no dia 4 de outubro em diversos jornais – entre os quais o próprio Correio da Manhã, a Última Hora, o Jornal do Brasil e o Estado de S.Paulo.
“Mas o que mudou os dados da questão foi a publicação, no Correio da Manhã, de uma carta da nora do brigadeiro Itamar Rocha. Dias antes, ele havia sido afastado da Diretoria de Rotas Aéreas e punido com dois dias de prisão domiciliar”, conta Ferreira Lima. “Nesse período, o carro do brigadeiro Eduardo Gomes foi abalroado no Aterro do Flamengo e ele quebrou uma perna. O Correio da Manhã, por orientação expressa de dona Niomar Muniz Sodré Bittencourt [proprietária do jornal], mandou dar na primeira página: ‘Atentado contra o brigadeiro Eduardo Gomes’.”
Depois de receber na Câmara quatro salários de deputado a que, segundo o diretor-geral da Casa, tinha direito, Ferreira Lima passou alguns dias abrigado na casa do senador Pedro Ludovico, do MDB de Goiás, pai do governador cassado Mauro Borges. Ele se lembra de um diálogo com o senador:
− É bronca grande, senador.
− Mas eu estou habituado. Vamos enfrentar juntos.
Segundo Ferreira Lima, Ludovico, quando governador de Goiás pela primeira vez, abrigara esquerdistas de Pernambuco envolvidos na tentativa insurrecional comunista de 1935, evitando que fossem presos.
Fora de circulação
De volta ao Rio, Ferreira Lima encontrou no escritório de Marcelo Alencar expoentes do antigo PTB. Eduardo Chuai, José Gomes Talarico, Doutel de Andrade e Wilson Fadul lhe recomendaram sair de circulação.
Ele resolveu então procurar o deputado Etelvino Lins, da Arena, ex-governador de Pernambuco, onde eram adversários políticos. “Etelvino era um homem muito bem informado”, explica Ferreira Lima. “Ele me avisou que eu seria cassado e me perguntou o que eu ia fazer da vida. Eu disse que iria para a Argélia, onde estava Miguel Arraes. De fato, na primeira lista de cassações publicada depois da edição do AI-5, eu apareci em quinto lugar. O primeiro era Carlos Lacerda.”
Rede de ajuda do PTB
Em sua fuga do Brasil, Ferreira Lima foi ajudado pelo ex-presidente João Goulart, exilado no Uruguai, por intermédio de correligionários do antigo PTB. Antes, porém, recebeu apoio de Márcio Alves, pai do jornalista e deputado federal Mário Moreira Alves, autor de discurso usado como pretexto usado pelos militares para dar o “golpe dentro do golpe” – a edição do AI-5, o fechamento do Congresso, o fim das garantias constitucionais.
Depois de ser recebido por Goulart em sua fazenda no Uruguai, Ferreira Lima foi para o Chile, onde se havia refugiado Moreira Alves. De Santiago, Ferreira Lima viajou para Paris. Aí permaneceu alguns meses antes de ir para a Argélia.
O fim do Correio da Manhã
O Ato Institucional número 5 (AI-5), editado em 13 de dezembro de 1968, transformou o regime de exceção em regime de puro arbítrio. Mediante a censura prévia, suprimiu a liberdade de imprensa. Esmagado pelo poder, o Correio da Manhã, um dos mais importantes jornais do país no século 20, publicaria sua última edição em 1974.
Burnier continuou chefe da seção de informações do gabinete de Souza Melo até abril de 1970, quando assumiu o comando da III Zona Aérea, onde o estudante Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, foi torturado e assassinado em junho de 1971 (informação do livro Direito à Memória e à Verdade, publicado sob a responsabilidade da Presidência da República em 2007). O ministro da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Souza Melo, que sempre deu cobertura a Burnier, ficou no cargo até novembro de 1971.
Em 1968, o plano de assassinato em massa foi barrado ainda na origem, mas 13 anos depois, em show dedicado ao Primeiro de Maio de 1981, no Riocentro, ele foi seguido e só não se consumou porque uma das bombas levadas ao local explodiu no colo do sargento do Exército que a carregava.
Anistiado em 1979, Ferreira Lima voltou ao Brasil e foi eleito deputado federal constituinte em 1986, pelo PMDB de Pernambuco. Reeleito em 1990, em 1994 transferiu-se para o PSDB e perdeu eleição de senador para Roberto Freire, do PPS. Foi nomeado em 1995, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente da Radiobrás. Em 1998, de volta ao PMDB, foi eleito suplente de deputado federal. Em 1999 e 2000, representou em Brasília o governo de Pernambuco, com o status de secretário de Estado, concedido por Jarbas Vasconcelos. Exerceu mandato em 2001-2002. Mantém um blogue e participa regularmente de programas de rádio.
***
Entre as fontes que podem ser consultadas sobre o assunto estão:
** Arquivo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas), disponível aqui (inclui todos os verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro);
** Coleção da extinta Última Hora (disponível no Arquivo Público do Estado de São Paulo);
** Coluna do Castello no extinto Jornal do Brasil; informações e comentários sobre política entre 1963 e 1993 estão disponíveis aqui;
** Acervo digital do Estado de S. Paulo;
** Acervo digital da Veja (ver edições de 1/3/1978 e de 26/6/1985);
** Arquivo da jornalista Ana Lagoa, digitalizado pela Universidade Federal de São Carlos (leia aqui reportagem da revista Fatos 1/7/1985), da Editora Bloch, datada de 1/7/1985);
** Elio Gaspari, A Ditadura Envergonhada, 2002, primeiro volume da tetralogia As ilusões armadas.











         Gritos no porão
memória da ditadura
- Por meio de tortura e assassinatos, a Oban ganhou a guerra contra a esquerda armada – 14.8.2013
Mariana Joffily




No dia 1° de julho de 1969, em agradável coquetel de drinques e salgadinhos, com a presença de autoridades civis e militares, foi inaugurada em São Paulo a Operação Bandeirante (Oban). Seu objetivo: destruir os grupos de esquerda que atuavam no país. Financiada por empresários ligados à FIESP e banqueiros que sentiam seus interesses ameaçados, a Oban agregou militares e membros de todas as forças policiais em um passo decisivo para o endurecimento do regime militar.
Encerrada a fase das grandes passeatas estudantis e das greves operárias anteriores ao Ato Institucional nº 5 (13 de dezembro de 1968), surgiam novas formas de luta contra o regime, promovidas por organizações clandestinas de esquerda. Algumas delas defendiam as ações armadas; outras não, mas todas tinham em comum a oposição ao governo e a defesa do socialismo como sistema político. Embora o novo órgão repressivo fosse composto por efetivos de origem policial e contasse, em seus quadros, com membros das três forças armadas, eram os oficiais do Exército que o comandavam. A convivência entre essas duas categorias – militares e policiais civis –, dentro da mesma Oban, nem sempre era fácil. Os policiais achavam que os militares eram brutos e inexperientes em investigações. Estes, por sua vez, consideravam os policiais corruptos e incapazes. Por que então reunir em um só órgão indivíduos com estilos de trabalho tão conflitantes? A explicação encontra-se na maneira pela qual o governo militar encarava a oposição naquela época.
O poder constituído lutava, então, contra um novo tipo de adversário: o “inimigo interno”, entidade nascida no âmbito da Guerra Fria, quando o bloco capitalista (liderado pelos EUA) opunha-se ao bloco socialista (liderado pela União Soviética) e uma nova modalidade de guerra, a “guerra revolucionária”, colocava em campos opostos cidadãos de um mesmo país. O "subversivo", ou "terrorista”, era considerado um elemento extremamente perigoso. Na visão do Exército, agia de “forma insidiosa” com o objetivo de desestabilizar, com suas “táticas traiçoeiras”, o regime militar. Tal perspectiva justificava a utilização de variados métodos de tortura nos interrogatórios. Ao capturar um suspeito, era preciso obter dele, o mais rápido possível, informações que levassem a outros militantes, estabelecendo-se a partir daí uma cadeia de prisões sucessivas.
A Oban especializou-se na captura e no interrogatório de suspeitos de subversão. Os agentes que lá trabalhavam seguiam uma orientação muito distinta da estabelecida em suas unidades de origem. Não podiam usar corte de cabelo militar e nem circular fardados. Utilizavam codinomes, para confundir as pessoas e impedir que fossem identificados. Deixavam seus cabelos e barbas crescerem e vestiam-se à paisana para que pudessem infiltrar-se em ambientes freqüentados por militantes de esquerda. Suas atividades eram sigilosas até para os familiares. Circulavam pela cidade em carros de “chapa fria”, isto é, com registro falso, razão pela qual muitas vezes eram detidos pelos próprios colegas, que os confundiam com os suspeitos. Justificava essas medidas o fato de estar diante de um inimigo incomum e, por isso, ter de agir como ele, de forma não convencional.

Ainda que lançando mão de meios irregulares, ilegais e quase sempre brutais, a Oban obteve êxito na sua missão. Em pouco tempo, as organizações de esquerda foram sendo desarticuladas e destruídas uma a uma. Com base na experiência paulista, o Exército decidiu não apenas consolidar sua presença e atuação, mas também, mudando o nome da organização, expandir suas atividades a outras capitais do país. Entre 1970 e 1974, foram instituídos os Destacamentos de Operações de Informação – Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), (que substituíram a Oban), em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Belém, Fortaleza e Porto Alegre. Ao DOI cabia investigar, prender, interrogar e analisar as informações. O CODI, dirigido pelo chefe do Estado-maior do Exército, era incumbido de planejar, controlar e assessorar as medidas de defesa interna, incluindo a "propaganda psicológica" – considerada também como importante arma de combate à guerra revolucionária. Sua principal função consistia em evitar que houvesse duplicidade de esforços, coordenando as ações dos diversos órgãos repressivos.
Os interrogatórios do DOI duravam noite e dia. Três turmas, compostas por seis agentes sob o comando de um oficial, revezavam-se em turnos de 24 horas, com 48 horas de folga. O ritmo de trabalho era intenso, conforme o relato de um ex-agente: "Eu ficava lá todo o tempo, não tinha vida pessoal, tudo o que fazia se relacionava à minha atuação no DOI”. O turno começava às oito horas da manhã, quando se dava a troca das equipes, e só terminava às sete horas do dia seguinte. Quem orientava os interrogatórios era a Sub-seção de Análise de Informações. Seus agentes tinham por missão ler atentamente os depoimentos e cotejá-los com informações recebidas de vários órgãos.
Um general chegou ao cinismo de afirmar, numa entrevista, que o nome do órgão era muito apropriado, porque "DOI" evoca dor. Embora não admitida oficialmente, a tortura era uma prática rotineira dentro do DOI. Os agentes aplicavam os castigos de forma profissional e “científica”. Médicos e enfermeiros avaliavam as condições físicas do interrogado, para saber se podiam sofrer novas sevícias. Os torturadores, por sua vez, tinham de se enquadrar a determinado um determinado perfil psicológico. Tinham de ser necessariamente violentos, mas sempre mantendo certa dose de calma e frieza, pois ao contrário perderiam a "superioridade" em relação ao interrogado. Enquanto os torturadores procuravam arrancar a "verdade" dos presos políticos, os agentes de análise iam avaliando, como se juntassem as peças de um quebra-cabeças, o teor das informações obtidas, para prender outro suspeito ou “estourar” um novo “aparelho”, como eram chamados os locais de moradia ou de encontros utilizados pelos ativistas de esquerda.
Às vezes, um e outro interrogado não resistia aos excessos do torturador e morria. Não podendo admitir que presos políticos perdessem a vida em dependências do Exército, os agentes do DOI apelavam para falsas versões: "morte em tiroteio", "morte por atropelamento", "suicídio" ou "tentativa de fuga" eram as mais comuns. Como esses argumentos foram ficando desgastados e pouco críveis, recorreu-se ao expediente do “desaparecimento”. A passagem do preso pelo DOI era oficialmente negada, e seu corpo enterrado como indigente, numa vala clandestina.
A Ação Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista Revolucionário Brasileiro (PCBR), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Vanguarda Armada Revolucionária (VAR Palmares), o Partido Operário Comunista (POC) e muitas outras entidades de esquerda tiveram militantes assassinados. Mas, à medida que essas organizações eram desmanteladas, outros alvos tinham de ser estabelecidos para justificar a necessidade permanente de um órgão dessa natureza. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) mantivera durante o regime militar uma postura pacífica. A perseguição aos seus integrantes deu-se dentro de uma conjuntura de disputa interna dos militares entre os setores da "linha dura" – defensores do endurecimento do regime – e o governo do general Ernesto Geisel, que defendia uma abertura política "lenta e gradual".
Alguns dirigentes do partido já tinham sido assassinados em centros clandestinos de tortura, mas a opinião pública pouco soube a respeito. Como a conjuntura política mudou, o mesmo não ocorreu com a morte do jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog, no dia 25 de outubro de 1975, na sede do DOI, em São Paulo. O episódio provocou grande comoção nos meios intelectuais do país, fazendo eclodir uma crise entre o governo Geisel e os órgãos de repressão. Pouco tempo depois, um operário chamado Manoel Filho foi assassinado nas mesmas circunstâncias, o que levou à deposição, pelo presidente Geisel, do comandante do II Exército, general Ednardo D'Ávila Mello. Tal medida não impediu a ocorrência da chamada "chacina da Lapa”, em dezembro de 1976, quando três dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) foram assassinados durante uma operação conjunta realizada pelo DOI e outros órgãos da repressão.
Após esse episódio, embora seus agentes continuassem interrogando e torturando presos políticos, não se registraram mais vítimas fatais na sede do DOI paulista. Aos poucos, com o processo de redemocratização, o órgão foi sendo esvaziado de suas funções, com seus agentes sendo transferidos para outras unidades policiais ou militares. As atribuições do órgão foram em certa medida incorporadas pela Sub-seção de Operações do II Exército. No final do governo do general João Batista Figueiredo, o DOI foi oficialmente extinto. Alguns dos agentes passaram a promover, a partir daí, de forma clandestina mas muitas vezes com apoio de setores militares, atentados terroristas contra a população civil e entidades afinadas com os princípios da liberdade e dos direitos humanos, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Era uma tentativa desesperada de frear a abertura política, mas não tiveram êxito. Embora tenham vencido a batalha contra as esquerdas, não conseguiram impedir a retomada do projeto democrático, entrando para a história como personagens macabros de um tempo obscuro, cujas feridas ainda hoje não cicatrizaram inteiramente.
Mariana Joffily é doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) com a tese No centro da engrenagem: os interrogatórios da Oban e do DOI de São Paulo (1969-1975).
Os arquivos da repressão
Não se conhece a existência de arquivos específicos da Operação Bandeirante ou do DOI-CODI, embora esses órgãos tenham produzido farta documentação. Porém, é possível ter acesso aos documentos enviados pela Oban e pelo DOI ao DOPS (Departamento de Ordem Política e 7Social) paulista. A esse organismo, que existia desde 1924, cabia a realização do interrogatório oficial – a partir dos dados já fornecidos pela Oban – e a montagem do inquérito a ser enviado à Justiça Militar. A série Dossiês (1940-1983), que compõe o acervo do DOPS São Paulo, contém, entre outros, o Dossiê 50-Z-9, constituído de 236 pastas. Nestas, encontra-se uma variedade muito grande de documentos, oriundos dos mais diversos órgãos de informação e repressão, arquivados dentro de uma lógica difícil de reconstituir. Essa miscelânea de documentos de toda ordem – "pedidos de busca", "fichas de antecedentes políticos", "boletins do SNI", "informes" (informação bruta), "informações" (informação confirmada), "fichas individuais de identificação de presos", relatórios, interrogatórios preliminares, recortes de jornal e outros – comprova a intensa troca de notícias e dados entre as mais diversas esferas do sistema repressivo.
Saiba mais - Bibliografia:
AQUINO, Maria Aparecida de; MATTOS, Marco Aurélio Vannucchi Lemes de; SWENSSON JR., Walter Cruz (orgs.). A alimentação do Leviatã nos planos regional e nacional: mudanças no DEOPS/SP no pós 1964. São Paulo: Arquivo do Estado de São Paulo/ Imprensa Oficial, 2002.
D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon; CASTRO, Celso (orgs.). Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.
FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da ditadura militar. Espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
Saiba mais - Filmes:
Pra Frente, Brasil – Roberto Farias – 1983
Que bom te ver viva – Lucia Murat – 1989
Saiba Mais - Sites:
Desaparecidos políticos:
www.desaparecidospoliticos.org.br
Ditadura militar:
www.gedm.ifcs.ufrj.br
Grupo Tortura Nunca Mais RJ:
www.torturanuncamais-rj.org.br
Terrorismo Nunca Mais (site de ex-agentes de repressão):
www.ternuma.com.br





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Direitos Humanos| 22/05/2013  

Repressão começou antes da luta armada, reforça Comissão da Verdade
Em evento de balanço, CNV revelou documentos que comprovariam que a tortura era praticada pelo regime militar desde seu início, antes de existirem as organizações armadas de oposição; que ministros tinham o comando direto do aparato de repressão; e que a Marinha ocultou da presidência da República, já no período democrático, as informações que tinha sobre mortos pela repressão.
Vinicius Mansur
Brasília – Para o balanço de um ano de seu trabalho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) reservou a revelação de provas contundentes sobre a brutalidade da ditadura militar brasileira. O material foi apresentado terça-feira (21), em Brasília, junto com um resumo [http://www.cnv.gov.br/images/pdf/balanco_1ano.pdf] repleto de dados sobre as atividades – sobretudo pesquisas documentais - realizadas pela CNV até o momento.

As revelações mais impactantes vieram da historiadora e pesquisadora vinculada à CNV, Heloísa Starling. O
estudo [http://www.cnv.gov.br/images/pdf/cnv_parcial.pdf]  liderado por ela, que segue em desenvolvimento, revelou documentos que comprovariam que: a tortura era praticada pelo regime militar desde seu início, antes de existir as organizações armadas de oposição; que os ministros militares participavam da linha de comando do enorme e capilarizado aparato de repressão montado; e que a Marinha ocultou da presidência da República, já no período democrático, as informações que tinha sobre mortos pela repressão.
Tortura antes da luta armada
Starling apresentou um mapa dos centros de detenção e tortura já existentes em 1964 e 1965. “Isso é suficiente para mostrar como a tortura se torna em padrão de repressão antes do início da luta armada no país”, afirmou.

Até o momento, são 36 centros destes já identificados pela CNV, localizados em sete estados do país: Bahia, Pernambuco, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Os demais estados ainda precisam ser pesquisados.
A maior parte destes centros funcionavam em quartéis, porém eles também existiam dentro do Comando Militar da refinaria da Petrobrás de Mataripe (BA); da Secretaria de Segurança e da Cidade Universitária de Recife (PE); e, em São Paulo, da base aérea de Cumbica, Guarulhos, e do navio prisão Raul Soares, em Santos.

No Rio de Janeiro, estado com maior números de centros de tortura já identificados nesse período – são 16 no total - , um funcionava dentro da Universidade Federal Rural, em Seropédica, outro no navio prisão Princesa Leopoldina e outro no Centro de Informações da Marinha (Cenimar), que à época se localizava dentro do Ministério da Marinha.
Starling também afirmou que, apesar das leis de exceção que recrudesceram a repressão terem sido ditadas em 1968, já em 1967 o general Geisel foi chamado a se explicar no Supremo Tribunal Militar por contas das denúncias de tortura. “O Jornal do Brasil traz uma série de reportagens importantes sobre essa explicação”, informou.

A consciência do terror
 A historiadora também apresentou o documento ultra-secreto de 1970 que criava o Centro de Operações de Defesa Interna (Codi) do I Exército, cuja jurisdição compreendia os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.
Dentro desse documento, havia o organograma ao qual o Codi - o órgão encarregado do planejamento, controle e coordenação das ações de repressão política - estava submetido e nele estavam incluídos os ministros militares em sua linha de comando. O documento é assinado pelo então Chefe do Estado-Maior do I Exército Carlos Alberto Cabral Ribeiro. “Isso evidencia a responsabilidade do Estado brasileiro”, disse Starling.

Segundo a historiadora, trata-se de uma inovação para a bibliografia sobre a estrutura de repressão da ditadura, que até então só havia comprovado que o comando chegava até o segundo nível. “Nós temos muitos depoimentos que dizem que chegava [a linha de comando] até os ministros militares, mas não tínhamos ainda nenhum documento rubricado pelo Chefe do Estado-Maior que mostrasse [isso]”, explicou.

Outra novidade a bibliografia, segundo a pesquisadora, é que o comandante do Codi sempre é o comandante do Exército.

Ocultação pela Marinha
A partir da análise de um extenso prontuário de pessoas mortas produzido em dezembro de 1972 pelo Cenimar, a CNV descobriu que a Marinha ocultou informações dos poderes legislativo e executivo, em 1993.

Durante o governo Itamar Franco, o então ministro da Justiça, Maurício Correa, solicitou aos comandantes militares informações requisitadas pelo Congresso Nacional sobre a ditadura. A resposta dada pela Marinha, entretanto, oculta as mortes - que já haviam sido registradas por eles em 1972 - de 11 pessoas, entre elas o deputado federal Rubens Paiva.
Segundo Heloísa Starling, a Marinha havia produzido 12.072 páginas de prontuários referentes a estas 11 pessoas. “A Marinha brasileira ocultou deliberadamente informações e documentação do estado brasileiro já no período democrático. Ela ocultou essas informações da Presidência da República, do Ministério da Justiça e da Câmara dos Deputados”, sentenciou.
O ministro da Marinha de Itamar franco era Ivan Serpa.

Um ano de CNV
 O relatório de atividades apresentados pela CNV resgata que a comissão instalada em 16 de maio de 2012 tem como missão descobrir e resgatar os fatos relacionados às graves violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988, com especial atenção aos fatos decorrentes do regime instalado pelo golpe de 1964.

Para isso, uma das linhas de atuação da CNV é a pesquisa atualmente desenvolvida por 13 grupos de trabalho que contam 60 pessoas, entre assessores, consultores e pesquisadores ad-hoc. Outras 60 deverão ser incorporadas.
Outra linha de atuação são as coletas de depoimentos de testemunhas, vítimas e agentes institucionais. Para isto Já foram realizadas 15 audiências públicas em oito estados (Goiás, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, Minas Gerais, Paraná, Rio Grand do Sul e São Paulo) e no Distrito Federal . Já foram coletados 268 depoimentos e foram levantados 337 novos nomes para depoimentos, dos quais 240 já se sabe que estão vivos e já foram localizados.

A CNV também já assinou 18 Acordos de Cooperação Técnica com Comissões da Verdade Estaduais.

Segundo o integrante da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro, a comissão irá focar o trabalho de investigação é na reconstituição da estrutura dos órgãos de repressão do regime implantado em 1964 e no levantamento das mortes. “A comissão não tem vítimas VIP”, disse, rebatendo críticas e garantindo que a CNV se esforçará para abranger o maior número possível de pessoas afetadas pela ditadura.

Dados apresentados no relatório

- Já foram identificadas a existência, à época do regime militar, de 250 estruturas de informação instaladas em ministérios, autarquias, fundações, universidades e empresas públicas. Eram essas estruturas, chamadas de Divisões de Segurança e Informações e Assessorias de Segurança e Informações, que davam capilaridade ao Sistema Nacional de Informações (SISNI), cujo núcleo era o Serviço Nacional de Informações (SNI).

- Só na Divisão de Informações da Petrobras Foram localizados mais de 400 rolos de microfilme. Havia órgãos do tipo nos ministérios da Educação, Saúde, Comunicação, Minas e Energia, Agricultura, Justiça, Relações Exteriores, entre outros.

- O acervo de documentos disponíveis a CNV somam atualmente 19 milhões de página, que devem estar totalmente digitalizadas em julho.

- Há 202 documentos produzidos pela Aeronáutica no Arquivo Nacionalse que se referem à Guerrilha do Araguaia. Já o acervo do SNI teve 695 dossiês selecionados sobre o tema, ultrapassando as 21 mil páginas.

- Os primeiros levantamentos sugerem que cerca de 50 mil pessoas foram presas só em 1964 em operações que visavam localizar pessoas cujos nomes estavam em listas previamente preparadas. Só nos navios presídio “Raul Soares” e “Almirante Alexandrino” estiveram presas cerca de 600 pessoas.
- Cerca de 3,3 mil latino-americanos chegaram ai Brasil entre 1977 e 1982 em busca de asilo político. Porém, apenas 1380 teriam conseguido o status de refugiados e todos eles teriam sido transferidos pelo Acnur a locais “seguros” a pedido do governo brasileiro, a grande maioria na Europa. 90% deles seriam argentinos e uruguaios.

- O serviço secreto do Uruguai conseguiu, com ajuda do Brasil e da Argentina, levar de volta para as prisões de Montevidéu 110 refugiados políticos entre 1976 e 1979.

- Um levantamento inicial identificou 97 padres católicos e 3 pastores deportados pelo regime.
- Há 223 casos já identificados de violação dos direitos humanos contra camponeses com participação direta ou indireta de agentes da ditadura. Centenas de outras violações contra camponeses cometidos por fazendeiros, grileiros e jagunços, sem necessária participação de agentes da ditadura, estão em análise.
- O Relatório Figueiredo, produzido por uma Comissão de Inquérito Administrativo do Ministério do Interior, instalada em julho de 1967, é uma das principais referências sobre violação de direitos e até assassinato de índios durante a ditadura. O documento tem 7 mil páginas, foi dado por desaparecido por décadas e foi descoberto por parceiros da CNV, não revelados.

- A CNV está desenvolvendo um sistema próprio de softwares de mineração de textos, destinados a vasculhar as milhões de páginas. Também faz parte do projeto da comissão a construção de um Sistema de Informação, que reunirá, no futuro, o conjunto de informações produzidas, recebidas e pesquisadas pela CNV, tornando-se fonte pública de pesquisa.
Confira aqui o relatório completo da CNV
[http://www.cnv.gov.br/images/pdf/balanco_1ano.pdf]

Comissões visitarão ex-centro de tortura O Estado de S. Paulo – 16.8.2013
 O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio, Wadih Damous, enviou ao comando do 1ª Batalhão da Polícia do Exército ofício comunicando que o grupo, a Comissão Nacional da Verdade e organizações de direitos humanos farão uma visita à unidade militar no próximo dia 21. No local funcionou, nos anos 1970, o Destacamento de Operações de Informações do Exército, um dos principais centros de tortura de presos políticos no regime militar. O objetivo é que, futuramente, seja instituído um centro de memória no local.
Comando veta visita a DOI-Codi e comissão recorrerá a ministro
 Wilson Tosta – O Estado de S.Paulo – 22.8.2013
Informados de que estão proibi­dos de visitar o quartel onde fun­cionou o Destacamento de Ope­rações de Informações (DOI) do I Exército - centro de repressão da ditadura, localizado na Tijuca - os integrantes da Co­missão da Verdade do Rio decidiram ontem pedir ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que libere o acesso. Em caso de outra negativa, irão à Justiça.
A estratégia foi anunciada pelo presidente da comissão, Wadih Damous, depois de saber do j general Francisco Carlos Mo­desto, chefe do Comando Mili­tar do Leste, que somente o co­mandante da Força, general Enzo Peri, pode permitir a entrada no imóvel, onde hoje funciona o Io Batalhão de Polícia do Exército (BPE). A comissão quer co­nhecer o local e pedir seu tombamento e transformação em centro de memória.
"Esperamos que o ministro, que é um democrata, nos dê essa autorização. Caso isso não aconteça, seremos obrigados a recorrer ao Judiciário", afir­mou Damous, recebido à tarde, pelo general, no Palácio Duque de Caxias - o antigo Ministério da Guerra. "O Exército mostra uma resistência muito grande a passar a limpo o seu passado", afirmou.
O presidente da comissão lembrou que no DOI do Rio hou­ve prisões, torturas, assassina­tos e desaparecimentos políticos, nos anos 70. Entre os desa­parecidos na unidade figuram o ex-deputado Rubens Paiva e o jornalista Mário Alves.
O Estado apurou que, no en­contro, o general Modesto indi­cou que o ministro Celso Amo­rim não cuida de questões internas do Exército. De manhã, a co­missão havia ido direto para o prédio da Tijuca mas só conse­guiu ser recebida por vinte minutos pelo comandante do I° BPE, tenente-coronel Luciano Simões. Com Damous estavam o deputado federal Ivan Valen­te (PSOL-SP), os deputados es­taduais Gilberto Palmares e Robson Leite, do PT, e os ex-pre­sos políticos Álvaro Caldas e Ce­cília Coimbra.
Embora cordial, o militar ex­plicou que estava cumprindo or­dens ao não autorizar a entrada nas instalações do antigo DOI- CodL Na véspera, o comando já havia informado que não permi­tiria a visita. Alegava que, por ser estadual, a comissão do Rio não tem jurisdição na unidade, que é federal.
Na conversa, Álvaro e Cecília descreveram as torturas que so­freram ali. "Eu lamento profun­damente", afirmou o oficial, se­gundo relato de Cecília. 



                                                                                                                                    
memória da ditadura
Jorge Antonio Barros
Quando ele chegou ali há 40 anos, fora sequestrado por um grupo armado. Estava encapuzado, jogado no fundo de um carro, sem saber para onde estava sendo levado. Hoje de manhã, o jornalista Álvaro Caldas, ex-preso político, desembarcou do táxi na porta lateral do quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, que abrigou na Tijuca, Rio, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações-Coordenação de Defesa Interna), um dos mais famigerados centros de tortura da ditadura pós-64. Como não sabia chegar lá, Caldas pegou o táxi na Praça Saens Pena.
O DOI foi criado para unificar o combate àqueles que ousaram entrar para a luta armada contra a ditadura. Pelo DOI, passaram centenas de prisioneiros -- a maioria clandestinamente --, onde eram torturados. Entre os mortos ali estão pelo menos dois nomes da lista de 125 desaparecidos políticos -- Rubens Paiva e Mário Alves, que foi empalado com um cabo de vassoura.
Então militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), uma dissidência do PCB, Álvaro Caldas era repórter especial do "Jornal do Brasil" foi um dos primeiros a dar nomes de seus torturadores num livro, "Tirando o capuz", publicado pela primeira vez em 1981.
-- Sofri todo tipo de tortura no DOI-Codi, onde fui preso duas vezes. Na primeira vez fiquei 70 dias totalmente incomunicável e preso clandestinamente. Os cariocas não têm ideia do que passou aí dentro. Toda vez que passo aqui ainda dá medo -- contou Álvaro Caldas, em entrevista ao nosso blog.
Se hoje Álvaro Caldas pode desembarcar de táxi na porta do que foi uma das mais violentas masmorras da ditadura, em 40 anos as coisas parecem ter mudado pouco para o Exército, no que se refere à memória política do país. Integrantes da Comissão estadual da Verdade foram recebidos pelo comandante do 1º BPE, tenente-coronel Luciano, que explicou que cumpre ordens de não abrir o quartel para visitação. As ordens são do Comando Militar do Leste, subordinado ao Exército.O presidente da Comissão, Wadih Damous, disse que está disposto a ir ao ministro da Defesa, Celso Amorim, convidá-lo para fazer uma visita à PE. A Comissão quer transformar o local num centro de memória da ditadura de 64.
-- Essa proibição é ilegal e antidemocrática -- protestou Damous.
O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que esteve preso  no DOI-Codi do Rio de 19 a 29 de julho de 1977, foi se unir ao grupo que queria entrar no quartel, dessa vez pela porta da frente. 
-- Este foi o centro de tortura mais sofisticado do país na década de 70 -- afirmou Ivan, que tomou conhecimento da visita por meio de nota publicada na coluna de Ancelmo Gois anteontem.
-- Eu me emocionei ao ler a nota e fiz questão de vir -- lembra Ivan.
Estiveram lá também grupos como Tortura Nunca Mais -- que desde 1985 luta pelo esclarecimento de crimes praticados por agentes da ditadura, que resultaram em 500 mortos e desaparecidos em todo o país. Também participaram do ato ex-presos políticos como Paulo Sérgio Paranhos, de 70 anos -- que esteve no DOI por três meses, em dezembro de 1969 -- e o ex-fuzileiro naval Emílio Cavalcanti, de 80 anos, que militou na Aliança Libertadora Nacional (ALN). Cavalcanti contou que bem antes de 64 o quartel da PE já era conhecido como um local de torturas. Ele lembra que em 1952 um amigo dele foi preso ali por participar de manifestações da campanha O Petróleo é Nosso, no governo Vargas.
A pracinha que fica em frente à porta lateral do quartel da PE, na Rua Pinto de Figueiredo, parecia uma daquelas reuniões das mães da Praça de Maio, que lutam pelo esclarecimento dos desaparecimentos políticos na Argentina. Participaram jovens do Coletivo Memória, Verdade e Justiça -- entre os quais há grupos que se dedicam a caçar torturadores do regime militar -- fizeram um varal cujas bandeirinhas eram fotos e resumo da história de desaparecidos políticos, muitos deles presos pelo Exército. Ao final do ato, gritaram três vezes o nome do "camarada Mário Alves", seguido de "presente". 
Foram até a PE advogados de ex-presos políticos como Marcelo Cerqueira e Modesto da Silveira, baluartes da democracia quando era praticamente impossível denunciar as atrocidades do regime militar.
Tanto Cerqueira como Modesto passaram pelo DOI-Codi como presos políticos. Cerqueira foi levado para lá em 1965. Modesto conta que ali foi "psicologicamente torturado", depois de ter sido sequestrado em 1968, logo depois do AI-5, o golpe dentro do golpe. Irônico, Cerqueira chegou a pedir "dá um choque elétrico aí", ao soldado que montava guarda na porta principal. A grande dificuldade daqueles advogados à época era conseguir comprovar que seus clientes estavam presos no DOI-Codi, onde o filho chorava e ninguém ouvia. Nem mesmo os vizinhos do prédio Esther e Elias, que fica em frente à Barão de Mesquita 425. No térreo funciona um cabeleireiro, onde a movimentação no quartel virou a conversa da hora.
-- Moradores mais antigos do prédio contam que o quartel é assombrado pois bem depois do fim da ditadura ainda se ouvia gritos por lá à noite -- contou uma das cabeleireiras que, "por via das dúvidas" achou melhor não se identificar.
Integrantes da Comissão estadual da Verdade entram no quartel, onde foram recebidos pelo comandante por dez minutos


 O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio, Wadih Damous, enviou ao comando do 1ª Batalhão da Polícia do Exército ofício comunicando que o grupo, a Comissão Nacional da Verdade e organizações de direitos humanos farão uma visita à unidade militar no próximo dia 21. No local funcionou, nos anos 1970, o Destacamento de Operações de Informações do Exército, um dos principais centros de tortura de presos políticos no regime militar. O objetivo é que, futuramente, seja instituído um centro de memória no local.
Comando veta visita a DOI-Codi e comissão recorrerá a ministro
 Wilson Tosta – O Estado de S.Paulo – 22.8.2013
Informados de que estão proibi­dos de visitar o quartel onde fun­cionou o Destacamento de Ope­rações de Informações (DOI) do I Exército - centro de repressão da ditadura, localizado na Tijuca - os integrantes da Co­missão da Verdade do Rio decidiram ontem pedir ao ministro da Defesa, Celso Amorim, que libere o acesso. Em caso de outra negativa, irão à Justiça.
A estratégia foi anunciada pelo presidente da comissão, Wadih Damous, depois de saber do j general Francisco Carlos Mo­desto, chefe do Comando Mili­tar do Leste, que somente o co­mandante da Força, general Enzo Peri, pode permitir a entrada no imóvel, onde hoje funciona o Io Batalhão de Polícia do Exército (BPE). A comissão quer co­nhecer o local e pedir seu tombamento e transformação em centro de memória.
"Esperamos que o ministro, que é um democrata, nos dê essa autorização. Caso isso não aconteça, seremos obrigados a recorrer ao Judiciário", afir­mou Damous, recebido à tarde, pelo general, no Palácio Duque de Caxias - o antigo Ministério da Guerra. "O Exército mostra uma resistência muito grande a passar a limpo o seu passado", afirmou.
O presidente da comissão lembrou que no DOI do Rio hou­ve prisões, torturas, assassina­tos e desaparecimentos políticos, nos anos 70. Entre os desa­parecidos na unidade figuram o ex-deputado Rubens Paiva e o jornalista Mário Alves.
O Estado apurou que, no en­contro, o general Modesto indi­cou que o ministro Celso Amo­rim não cuida de questões internas do Exército. De manhã, a co­missão havia ido direto para o prédio da Tijuca mas só conse­guiu ser recebida por vinte minutos pelo comandante do I° BPE, tenente-coronel Luciano Simões. Com Damous estavam o deputado federal Ivan Valen­te (PSOL-SP), os deputados es­taduais Gilberto Palmares e Robson Leite, do PT, e os ex-pre­sos políticos Álvaro Caldas e Ce­cília Coimbra.
Embora cordial, o militar ex­plicou que estava cumprindo or­dens ao não autorizar a entrada nas instalações do antigo DOI- CodL Na véspera, o comando já havia informado que não permi­tiria a visita. Alegava que, por ser estadual, a comissão do Rio não tem jurisdição na unidade, que é federal.
Na conversa, Álvaro e Cecília descreveram as torturas que so­freram ali. "Eu lamento profun­damente", afirmou o oficial, se­gundo relato de Cecília. 



                                                                                                                                    
memória da ditadura
Jorge Antonio Barros
Quando ele chegou ali há 40 anos, fora sequestrado por um grupo armado. Estava encapuzado, jogado no fundo de um carro, sem saber para onde estava sendo levado. Hoje de manhã, o jornalista Álvaro Caldas, ex-preso político, desembarcou do táxi na porta lateral do quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, que abrigou na Tijuca, Rio, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações-Coordenação de Defesa Interna), um dos mais famigerados centros de tortura da ditadura pós-64. Como não sabia chegar lá, Caldas pegou o táxi na Praça Saens Pena.
O DOI foi criado para unificar o combate àqueles que ousaram entrar para a luta armada contra a ditadura. Pelo DOI, passaram centenas de prisioneiros -- a maioria clandestinamente --, onde eram torturados. Entre os mortos ali estão pelo menos dois nomes da lista de 125 desaparecidos políticos -- Rubens Paiva e Mário Alves, que foi empalado com um cabo de vassoura.
Então militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), uma dissidência do PCB, Álvaro Caldas era repórter especial do "Jornal do Brasil" foi um dos primeiros a dar nomes de seus torturadores num livro, "Tirando o capuz", publicado pela primeira vez em 1981.
-- Sofri todo tipo de tortura no DOI-Codi, onde fui preso duas vezes. Na primeira vez fiquei 70 dias totalmente incomunicável e preso clandestinamente. Os cariocas não têm ideia do que passou aí dentro. Toda vez que passo aqui ainda dá medo -- contou Álvaro Caldas, em entrevista ao nosso blog.
Se hoje Álvaro Caldas pode desembarcar de táxi na porta do que foi uma das mais violentas masmorras da ditadura, em 40 anos as coisas parecem ter mudado pouco para o Exército, no que se refere à memória política do país. Integrantes da Comissão estadual da Verdade foram recebidos pelo comandante do 1º BPE, tenente-coronel Luciano, que explicou que cumpre ordens de não abrir o quartel para visitação. As ordens são do Comando Militar do Leste, subordinado ao Exército.O presidente da Comissão, Wadih Damous, disse que está disposto a ir ao ministro da Defesa, Celso Amorim, convidá-lo para fazer uma visita à PE. A Comissão quer transformar o local num centro de memória da ditadura de 64.
-- Essa proibição é ilegal e antidemocrática -- protestou Damous.
O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que esteve preso  no DOI-Codi do Rio de 19 a 29 de julho de 1977, foi se unir ao grupo que queria entrar no quartel, dessa vez pela porta da frente. 
-- Este foi o centro de tortura mais sofisticado do país na década de 70 -- afirmou Ivan, que tomou conhecimento da visita por meio de nota publicada na coluna de Ancelmo Gois anteontem.
-- Eu me emocionei ao ler a nota e fiz questão de vir -- lembra Ivan.
Estiveram lá também grupos como Tortura Nunca Mais -- que desde 1985 luta pelo esclarecimento de crimes praticados por agentes da ditadura, que resultaram em 500 mortos e desaparecidos em todo o país. Também participaram do ato ex-presos políticos como Paulo Sérgio Paranhos, de 70 anos -- que esteve no DOI por três meses, em dezembro de 1969 -- e o ex-fuzileiro naval Emílio Cavalcanti, de 80 anos, que militou na Aliança Libertadora Nacional (ALN). Cavalcanti contou que bem antes de 64 o quartel da PE já era conhecido como um local de torturas. Ele lembra que em 1952 um amigo dele foi preso ali por participar de manifestações da campanha O Petróleo é Nosso, no governo Vargas.
A pracinha que fica em frente à porta lateral do quartel da PE, na Rua Pinto de Figueiredo, parecia uma daquelas reuniões das mães da Praça de Maio, que lutam pelo esclarecimento dos desaparecimentos políticos na Argentina. Participaram jovens do Coletivo Memória, Verdade e Justiça -- entre os quais há grupos que se dedicam a caçar torturadores do regime militar -- fizeram um varal cujas bandeirinhas eram fotos e resumo da história de desaparecidos políticos, muitos deles presos pelo Exército. Ao final do ato, gritaram três vezes o nome do "camarada Mário Alves", seguido de "presente". 
Foram até a PE advogados de ex-presos políticos como Marcelo Cerqueira e Modesto da Silveira, baluartes da democracia quando era praticamente impossível denunciar as atrocidades do regime militar.
Tanto Cerqueira como Modesto passaram pelo DOI-Codi como presos políticos. Cerqueira foi levado para lá em 1965. Modesto conta que ali foi "psicologicamente torturado", depois de ter sido sequestrado em 1968, logo depois do AI-5, o golpe dentro do golpe. Irônico, Cerqueira chegou a pedir "dá um choque elétrico aí", ao soldado que montava guarda na porta principal. A grande dificuldade daqueles advogados à época era conseguir comprovar que seus clientes estavam presos no DOI-Codi, onde o filho chorava e ninguém ouvia. Nem mesmo os vizinhos do prédio Esther e Elias, que fica em frente à Barão de Mesquita 425. No térreo funciona um cabeleireiro, onde a movimentação no quartel virou a conversa da hora.
-- Moradores mais antigos do prédio contam que o quartel é assombrado pois bem depois do fim da ditadura ainda se ouvia gritos por lá à noite -- contou uma das cabeleireiras que, "por via das dúvidas" achou melhor não se identificar.
Integrantes da Comissão estadual da Verdade entram no quartel, onde foram recebidos pelo comandante por dez minutos

[https://conteudoclippingmp.planejamento.gov.br/cadastros/noticias/2013/8/22/comando-veta-visita-a-doi-codi-e-comissao-recorrera-a-ministro]

Entrevista - José Carlos Tórtima, ex-preso político e advogado:
"Nada foi pior do que o período no DOI-Codi”
Wilson Tosta – O Estado de S. Paulo – 16.8.2013



O advogado José Carlos Tórtima encara o seu torturador, o coronel Walter Jacarandá, durante sessão da Comissão Nacional da Verdade 

Ex-preso político nos anos 1970, advogado diz que depoimento de coronel derruba versão militar de que não houve tortura
 Um dia após exortar, cara a cara, o ex-integrante da repressão política Valter da Costa Jacarandá a contar o que sabia sobre as torturas na ditadura, o advogado e ex-preso político José Carlos Tórtima disse que "nada foi pior" do que o tempo que passou no DOI-Codi do Exército, em 1970. Foram 45 dias marcados por choques elétricos, pau de arara e outras sevícias, recordou ontem - ainda celebrando a confissão, na véspera, do coronel-bombeiro da reserva, em sessão conjunta das Comissões Nacional e Estadual da Verdade, de que torturara e vira torturas quando serviu na unidade. Aos 67 anos, Tórtima reconheceu que Jacarandá não o torturou.
 O que o senhor achou do depoimento de Jacarandá?
O grande avanço da audiência é que, pela primeira vez, um oficial envolvido nas torturas reconheceu que elas existiram. E confirmou nomes dos torturadores. Já não pode mais prevalecer aquela versão que eles propalavam, que nunca tinha havido tortura.  
Como foi sua prisão?
Foi em 1970, na casa dos meus pais, em Ipanema. Eu tinha concluído o 4º ano de direito na UEG (hoje UERJ), mas já estava clandestino, no PCBR. Fui visitar meu pai, achando que não era procurado. Mas um cara já tinha caído e falado. Foi em 24 de fevereiro de 1970. Eu tinha me sentado para almoçar, quando tocou a campainha. Estavam armados e foram educados.
Não o agrediram?
Não. Foi uma coisa curiosa. O comandante segredou para minha mãe: "Se a senhora tiver algum amigo com força nos quartéis, procure, porque lá vai ser muito duro para seu filho".
O senhor estava armado?
Estava, mas não reagi, botei a pistola sob o sofá, senão matariam a família toda. Se fosse na rua, reagiria. E ia matar um cara bom. Mas não me arrependo de nada. Faria tudo outra vez. Era uma ditadura. Eles começaram a violência. 
Quem o torturou?
Os inspetores Boneschi e Timóteo, da Polícia Civil, o capitão Timóteo, da PM, o capitão Gomes Carneiro, que me arrebentou um tímpano. 
E o major Jacarandá?
Não me torturou. Acho que estava no DOI. Ontem, vendo-o na audiência, acho que lembrei. Ele já tinha cabelos brancos, mas não estava careca. Foram 45 dias no DOI, depois Dops duas semanas e um ano e meio na Ilha Grande. Mas nada foi pior que o DOI.
 Como eram os torturadores?
O mais ideológico era o Boneschi, anticomunista. Ironicamente, acabou morrendo por causa disso. Foi como mercenário para Angola, para lutar contra o governo do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e pegou uma doença grave, nos rins, que o matou.
 O que perguntavam?
Nomes e aparelhos. De mim não arrancaram nada.
 Como foi a volta?
Difícil. Não deixaram voltar à faculdade. Terminei no interior de São Paulo. Estudava à noite. Formei-me pela Faculdade de Direito de Itu, em 1973. Em 1974, voltei ao Rio. 
Correção
Por um erro de edição, na legenda da foto na reportagem "Militar da reserva admite tortura em preso da ditadura", publicada na página A9 de ontem, o advogado e ex-preso político José Carlos Tórtima foi identificado equivocadamente como defensor do coronel da reserva Valter da Costa Jacarandá. Também por erro de edição, o subtítulo da mesma reportagem afirma que Jacarandá serviu no Dops, quando, na verdade, serviu no DOI-Codi do Rio
 
Os arquivos secretos da Marinha
LEONEL ROCHA – 25.11.2013

ÉPOCA teve acesso a documentos inéditos produzidos pelo Cenimar, o serviço de informações da força naval. Eles revelam o submundo da repressão às organizações de esquerda durante a ditadura militar



Uma caixinha de papelão do tamanho de um livro guardou por mais de três décadas uma valiosa coleção de segredos do regime militar implantado no Brasil em 1964. Escondidas por um militar anônimo, 2.326 páginas de documentos microfilmados daquele período foram preservadas intactas da destruição da memória ordenada pelos comandantes fardados. Os papéis copiados em minúsculos fotogramas fazem parte dos arquivos produzidos pelo Centro de Informações da Marinha (Cenimar), o serviço secreto da força naval. Ostentam as tarjas de “secretos” e “ultrassecretos”, níveis máximos para a classificação dos segredos de Estado e considerados de segurança nacional. Obtido com exclusividade por ÉPOCA, o material inédito possui grande importância histórica por manter intactos registros oficiais feitos pelos militares na época em que os fatos ocorreram. Para os brasileiros, trata-se de uma oportunidade rara de conhecer o que se passou no submundo do aparato repressivo estruturado pelas Forças Armadas depois da tomada do poder em 1964. Muitos dos mistérios desvendados pelos documentos se referem a alguns dos maiores tabus cultivados pelos envolvidos no enfrentamento entre o governo militar e as organizações de esquerda.



                        FIM DO SEGREDO
A caixa de papelão com os microfilmes de documentos do Cenimar. Ela foi guardada por um militar anônimo por mais de três décadas (Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)
 As revelações mais surpreendentes estão nas pastas rotuladas de “Secretinho”, uma espécie de cadastro dos espiões nas organizações de esquerda. Fichas e relatórios do Cenimar identificam colaboradores da ditadura, homens e mulheres, que atuavam infiltrados nas organizações que faziam oposição, armada ou não, ao regime militar. Agiam dentro dos partidos, dos grupos armados e dos movimentos estudantil e sindical. O trabalho dos informantes e agentes secretos era pago com dinheiro público e exigia prestação de contas. Muitos infiltrados eram militares treinados pelos serviços secretos das Forças Armadas que atuavam profissionalmente. Outros foram recrutados pelos serviços secretos entre os esquerdistas, por pressão ou tortura. Havia ainda dezenas de colaboradores eventuais, simpatizantes do regime, que trabalhavam em setores estratégicos, como faculdades, sindicatos e no setor público. A metódica organização da Marinha juntou relatórios, fotografias, cartas e anotações de agentes e militantes.
Reveladores, os papéis microfilmados divulgados por ÉPOCA antecipam alguns dos debates mais importantes previstos para a Comissão da Verdade, cuja lei de criação foi sancionada recentemente pela presidente Dilma Rousseff. Aprovada pelo Congresso, a comissão foi criada com o objetivo de esclarecer os abusos contra os direitos humanos cometidos, principalmente, durante a ditadura militar. Se investigar a fundo o que se passou nas entranhas do aparato repressivo, chegará à participação de militantes de esquerda nas ações que levaram à prisão, à morte e ao desaparecimento de antigos companheiros.


                                O PRECURSOR
José Anselmo dos Santos (ao centro, de bigode), o “Cabo Anselmo”, o mais famoso dos agentes duplos da ditadura, numa foto de 1964. Acima, uma reprodução de um documento do Cenimar, em que seu nome aparece numa lista de civis e militares investigados (Foto: Arquivo O Dia)
 Durante a luta armada, as acusações de traição muitas vezes determinaram justiçamentos, com a execução dos suspeitos pelos próprios integrantes das organizações comunistas. Isso aconteceu com Salathiel Teixeira, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) que integrou o revolucionário Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), dissidência do “Partidão” que migrou para a luta armada. Salathiel terminou morto por companheiros por suspeita de ter fornecido, sob tortura, informações aos órgãos de repressão. Os documentos da Marinha mostram como Maria Thereza, funcionária do antigo INPS do Rio de Janeiro e amiga de Salathiel, foi recrutada e paga para ajudar a prendê-lo em 1970. A prisão de Salathiel foi chave para a prisão de dirigentes do partido.
O Cenimar representava a Marinha na poderosa comunidade de informações do governo militar, que incluía também os serviços secretos do Exército, da Aeronáutica, da Polícia Federal e das polícias Civil e Militar. O marco inicial da estruturação dessa rede que investigava e caçava inimigos dos militares foi a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI), em 1964, pelo então coronel Golbery do Couto e Silva, um dos homens fortes dos governos dos presidentes Humberto de Alencar Castelo Branco, Ernesto Geisel e João Figueiredo.
Para compreender bem o confronto sangrento entre as Forças Armadas e as organizações de inspiração comunista, é necessário lembrar o contexto da época. O mundo vivia a Guerra Fria, período de polarização ideológica em que Estados Unidos e União Soviética disputavam o controle de regiões inteiras do planeta. O Brasil importou o conflito internacional. O governo militar tinha o apoio dos Estados Unidos, e parte da oposição aderiu aos regimes comunistas, com forte influência de Cuba e China. O PCB se dividiu em dezenas de siglas adotadas por grupos radicais que adotaram a luta armada como instrumento para a derrubada dos militares. O PCB defendia a via pacífica para a chegada ao poder. Nem assim escapou da perseguição do aparato repressivo e muitos de seus seguidores foram mortos e desapareceram com a participação direta da comunidade de informações. Dentro do PCB sempre se soube que a ação de agentes infiltrados teve grande responsabilidade nas prisões dos comunistas. Os documentos do Cenimar revelam que um discreto dirigente do PCB em São Paulo, Álvaro Bandarra, fez um acordo com os militares em 1968 para colaborar com a caçada aos integrantes do partido.
Os documentos do Cenimar mostram ainda como agiram os espiões para ajudar no desmantelamento de algumas das dissidências do PCB. Os agentes infiltrados pela Marinha tiveram importante participação na derrocada do PCBR, da Ação Libertadora Nacional (ALN), da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Frente de Libertação Nacional (FLN). Os militantes viviam escondidos em casas e apartamentos, chamados por eles mesmos de “aparelhos”. Num tempo em que não havia telefone celular nem internet, marcavam locais de encontro, conhecidos como “pontos”, com semanas ou meses de antecedência para garantir o funcionamento das organizações. Num desses “pontos”, descoberto por um agente secreto de codinome “Luciano”, morreu Juarez Guimarães de Brito, um dos líderes da VPR, procurado pelo governo por ter comandado o lendário assalto ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros.
Os arquivos da Marinha revelam também como os comunistas subestimaram a força da ditadura e cometeram erros infantis que facilitaram o trabalho da repressão. Num tempo em que os grampos telefônicos já eram comuns, guerrilheiros tramavam ações armadas e falavam despreocupadamente ao telefone. Também convidavam para participar de grupos de ação armada pessoas que mal conheciam, o que facilitou a infiltração dos agentes secretos. A fragilidade das organizações de esquerda permitiu a infiltração do fuzileiro naval Gilberto Melo em entidades do movimento estudantil no Rio de Janeiro.



A história de Gilberto guarda grande semelhança com a do mais conhecido dos agentes duplos da ditadura, José Anselmo dos Santos, conhecido por “Cabo Anselmo”. Anselmo se tornou conhecido ainda antes do golpe como presidente da Associação dos Marinheiros, um dos focos de agitação durante o governo de João Goulart, e depois se infiltrou em organizações da luta armada como informante da repressão. Gilberto passava os dias perambulando pelo restaurante Calabouço, local de encontro dos estudantes e de organização das manifestações contra o regime militar. Ele viu quando o secundarista Edson Luiz Lima Souto foi morto durante uma manifestação por policiais no Calabouço, com um tiro no peito, no dia 28 de março de 1968.
Nos dias seguintes à morte de Edson Luiz, Gilberto, conhecido no Cenimar como Soriano, participou das manifestações desencadeadas pelo assassinato, que culminaram na famosa passeata dos 100 mil, em junho de 1968, no Rio de Janeiro. Gilberto incorporou tanto o disfarce que terminou preso duas vezes. Foi espancado e torturado como se fosse um esquerdista. Nunca revelou que era agente secreto. A morte de Edson foi um dos fatos mais marcantes daquele período, que culminou com o recrudescimento da repressão pelo regime militar e a implantação do Ato Institucional Número 5 (AI-5) no final de 1968.
Os papéis microfilmados constituem um valioso acervo para a compreensão dos métodos empregados pelos órgãos de repressão. Por razões óbvias, nos registros não constam as práticas mais hediondas, como tortura, prisões ilegais, assassinatos ou desaparecimento de pessoas. Mas eles têm o mérito de expor personagens e mostrar o roteiro das perseguições aos inimigos do regime. Os relatórios do Cenimar também registram o envolvimento de oficiais da Marinha. Eles controlavam a rede de espiões espalhados pelo país, chefiavam as equipes de busca e coordenavam os interrogatórios. “Documentos que mostram relatórios de informantes, contratações e atuação direta são raros”, afirma Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, um dos principais historiadores do período militar. “Provavelmente (esses documentos) deveriam ter sido expurgados. Por algum motivo, alguém os salvou.”
O expurgo mencionado por Fico foi concretizado no acervo do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa). O Cisa fazia o mesmo trabalho do Cenimar. Também tinha agentes e controlava elementos infiltrados em organizações de esquerda. No início do ano, o Arquivo Nacional abriu a consulta aos documentos acumulados pelo Cisa e entregues um ano antes pela Aeronáutica. Mas quem for até lá em busca de documentos como os do Cenimar vai se decepcionar. Não há nada que leve à identidade de agentes e informantes, seus relatórios, comprovantes de pagamentos, material que existe fartamente nos arquivos obtidos por ÉPOCA. Procurada, a Marinha afirmou desconhecer os documentos do arquivo secreto. “Não foram encontrados, no Centro de Inteligência da Marinha, registros pertinentes aos questionamentos apresentados”, afirmou o contra-almirante Paulo Maurício Farias Alves, diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha.
Até hoje, a história da ditadura militar no Brasil se revelou aos poucos, em imprevisíveis divulgações de documentos, relatos contraditórios de militares e incompletas declarações dos perseguidos pelo regime militar. Menos de três décadas depois de restaurada a democracia, ainda existem importantes segredos. Nas próximas semanas, ÉPOCA publicará novos capítulos dessa história ainda desconhecida.






http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2011/11/os-infiltrados-da-ditadura.html

Os infiltrados da ditadura

LEONEL ROCHA – Época – 25.11.2013

Há 40 anos eles guardam segredos. Eles fingiram ser militantes de esquerda. Agora, os documentos do Cenimar revelam quem eram os informantes da ditadura militar


As organizações de esquerda passavam por grandes dificuldades no segundo semestre de 1969. Com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5) no final do ano anterior, o governo militar ampliou os instrumentos legais de perseguição às organizações que combatiam a ditadura. As prisões de militantes levavam os grupos armados a tentar recrutar mais gente. Em outubro de 1969, um homem ofereceu serviços de bombeiro hidráulico na Administradora Bolívar, uma imobiliária de Copacabana. Disse chamar-se Luciano e conseguiu trabalho com a responsável pela empresa, Maria Nazareth Cunha da Rocha. Bom de conversa, falava de política enquanto fazia os consertos nos encanamentos. Nazareth gostou do sujeito. Mais ainda quando ele disse que estivera preso por ter participado de atividades contra o golpe militar.
Poucos dias depois, em tom confidencial, Nazareth perguntou se Luciano gostaria de fazer parte de uma organização de luta armada. A imobiliária Bolívar era, na verdade, uma espécie de condomínio de várias organizações da luta armada. Reunia a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Frente de Libertação Nacional (FLN). No topo, de acordo com Nazareth, estava Carlos Marighella, líder máximo da Ação Libertadora Nacional (ALN), que seria morto em São Paulo poucos dias depois, em novembro de 1969. Ela convidou Luciano a integrar um grupo de homens “dispostos a tudo”, para realizar operações de assalto e sabotagem. Sem titubear, Luciano respondeu que sim. Militante experiente, na faixa de 40 anos de idade, Maria Nazareth não sabia, ao fazer o convite, que era enganada. Luciano, o homem que se apresentou como bombeiro hidráulico, era um agente do Centro de Informações da Marinha, o Cenimar.
Na vida real, Luciano se chama Manoel Antonio Mendes Rodrigues. Uma ficha dos arquivos do Cenimar descreve Manoel Antonio, ou “Luciano”, como um agente remunerado que teve conexões com assaltos a banco e contatos em várias organizações da luta armada, como FLN, VPR e MR-8. No serviço secreto da Marinha, consta que ele mantinha contato com vários oficiais.
O Cenimar grampeou os telefones da Administradora Bolívar. Os informes da imobiliária eram transcritos à mão em “folhas de trabalho” do serviço secreto. A infiltração de Luciano nos grupos que operavam na Administradora Bolívar coincide com a prisão de vários militantes. Dos arquivos do Cenimar, é possível inferir que ela foi fundamental para a obtenção de informações que levaram a essas prisões.
Um exemplo: em 26 de novembro de 1969, os espiões descobriram que o militante Salathiel Teixeira Rolim viajara do Rio para São Paulo e Curitiba num carro modelo JK, verde, placas GB Z0 5575. Ex-integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Salathiel entrou para o radical PCBR no fim da década de 1960. Depois de rastreado pelo Cenimar, foi preso em janeiro de 1970. Torturado, deu informações que, na avaliação de antigos aliados, contribuíram para a captura de dirigentes do PCBR. Em 1973, depois de sair da cadeia, Salathiel foi morto por militantes do PCBR, sob a acusação de que traíra o partido na prisão.
A infiltração de Luciano resultou também na espionagem contra um dos mais importantes dirigentes da VPR, Juarez Guimarães de Brito. Juarez entrara em 1968 para o Comando de Libertação Nacional (Colina), organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Em julho de 1969, integrava a VAR-Palmares, organização oriunda da fusão entre Colina e VPR. Foi Juarez quem comandou no Rio de Janeiro o assalto ao cofre de Ana Capriglione, amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Trata-se do assalto mais bem-sucedido realizado por um grupo de esquerda durante a ditadura. Ele rendeu US$ 2,6 milhões aos assaltantes.
No dia 13 de abril de 1970, Luciano relatou aos chefes do Cenimar que estivera com Juarez num encontro com Maria Nazareth. Ele telefonou outra vez ao Cenimar no dia 16, para informar que Juarez tinha um encontro no dia 18 com outro militante da VPR, Wellington Moreira Diniz, na Rua Jardim Botânico, numa esquina com a rua que “tem a seta indicando Ipanema."



Foto: Arquivo Ag. O Globo)
Manoel Antonio Rodrigues
Bombeiro informante do Cenimar
Infiltrado num esconderijo da esquerda como encanador, ajudou a desmantelar organizações de esquerda como PCBR, MR-8, FLN e VPR


"Sempre fui ligado à esquerda e estive entre os militares que defenderam a posse de João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros. Eu era do Corpo de Bombeiros de Nilópolis. Fui preso e solto algumas vezes. Na última delas, em 1969, fiquei na Ilha das Flores, no Rio, onde fui barbaramente torturado durante dois meses. Fui espancado, enfiaram agulhas embaixo das minhas unhas e arrancaram unhas dos meus pés. Chegaram a ameaçar abrir meu crânio com talhadeira e marreta. Até um punhal enfiaram no meu ânus. Aceitei colaborar porque não suportava mais tanto sofrimento. Passei informações, revelei dados sem muita importância. Mantive contato com Carlos Lamarca e Carlos Marighella. Eu era da FLN quando fui torturado. Algumas vezes fui acusado de ser infiltrado, mas tinha avisado o (Joaquim) Cerveira (chefe dele na FLN) sobre minha situação, e ele me defendeu de ser justiçado." 

A direção da VPR não sabia, mas Wellington estava preso desde o dia 11 de abril. No dia 18, os militares o levaram ao encontro com Juarez. No horário previsto, Juarez e sua mulher, Maria do Carmo, chegaram. De imediato, foram cercados por homens armados. Houve tiroteio – e Juarez se suicidou com uma bala no ouvido. Maria do Carmo foi apanhada viva.
“Não pesa na minha consciência a morte de companheiros”, diz um infiltrado 
ÉPOCA encontrou Manoel Antonio Mendes Rodrigues, o Luciano, no bairro de Guaratiba, no Rio de Janeiro. Coronel reformado da Polícia Militar, ele confirmou todas as informações que constam dos documentos do Cenimar. Disse que passou a colaborar com a Marinha depois de preso e torturado. Afirmou também que teve três filhos com uma militante de esquerda, professora da Escola de Belas-Artes, no Rio. Entrou com um processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e foi considerado perseguido político. Não pediu reparação financeira. “Não pesa na minha consciência que algum companheiro tenha sido morto por minha causa”, afirma Manoel Antonio.
Esse tipo de atitude fria e desapaixonada não deve gerar espanto quando se leva em conta o treinamento rigoroso que recebiam os agentes do Cenimar. Para preservar suas fontes de informação, era preciso que os agentes mantivessem a discrição e o silêncio perante os demais organismos do governo e da repressão. Um caso que ilustra bem essa característica foi vivido em 1968 pelo agente Gilberto de Oliveira Melo, na época com 26 anos.
Gilberto havia sido infiltrado pelo Cenimar em um dos principais pontos das agitações políticas do Rio de Janeiro nos anos 1960, o restaurante estudantil Calabouço, um ponto de concentração dos secundaristas cariocas. Ele participava de protestos e foi preso pela Polícia Militar numa passeata. Na cadeia, recebeu murros na cabeça e no abdome.Fiel às normas de segurança dos militares, nada disse sobre sua relação com a Marinha. Depois de solto, ele começou a sentir tonteiras e lapsos de memória. Esses problemas foram descritos num documento assinado pelo diretor do Cenimar, capitão de mar e guerra Fernando Pessoa da Rocha Paranhos, endereçado ao ministro da Marinha (leia a reprodução abaixo).



(Foto: Arquivo Ag. O Globo)
Gilberto de Oliveira Melo
O marinheiro e agente duplo
Falso estudante, ajudou a monitorar manifestações no Rio de Janeiro em 1968. Ele afirma que não se arrepende de nada do que fez e faria tudo de novo
Entrei na Marinha para fazer o serviço militar em 1961 e me transformei em soldado profissional. Fui escolhido para o Cenimar porque tinha excelente disciplina e não questionava ordens. Eu era louco por realizar ações, principalmente as mais perigosas. Passava os dias entre os estudantes, jogava pingue-pongue, almoçava no restaurante e até frequentava algumas aulas. Cheguei a namorar uma colega que estudava farmácia. Vi o momento em que (o estudante) Édson Luis foi baleado e morto. Ele não atendeu a meus gritos para que se deitasse no chão e continuou jogando pedras na polícia. Simpático, não era comunista nem revolucionário. Na cadeia fui torturado e não podia dizer que era infiltrado. Fazia parte do disfarce resistir até que outro agente avisasse o Cenimar. Meus relatos eram feitos à mão todas as noites. Não me arrependo de nada. Cumpri meu dever como militar e, se fosse chamado hoje, faria tudo novamente, mesmo com quase 70 anos.


Paranhos relatou que Gilberto era fuzileiro naval e se tornara agente do Cenimar em outubro de 1967. Elogiou sua atuação na identificação de líderes do movimento estudantil. Examinado pela Marinha depois de apanhar da PM, Gilberto disse que se ferira numa briga, atitude classificada por Paranhos como “altamente elogiável quanto à segurança”. Os arquivos do Cenimar guardaram cópias de três fotos do momento em que Gilberto foi preso na manifestação. Têm também cópias de título de eleitor e carteiras de identidade, trabalho e de estudante do Instituto Cooperativo de Ensino. “Atua na área estudantil, é remunerado. Trabalhando na UFRJ como arquivista”, diz o documento.
O infiltrado Gilberto ficou incomodado com o vazamento dos documentos secretos 
ÉPOCA encontrou Gilberto de Oliveira Melo no Rio de Janeiro. Ele mora numa casa cheia de grades, parecida com um bunker, no bairro da Penha. Gilberto leu os documentos do Cenimar e confirmou todas as informações que constaram deles. Reclamou do vazamento dos arquivos secretos e se mostrou preocupado em dar entrevista sem autorização da Marinha. Aceitou conversar com a reportagem, mas não quis ser fotografado. Aos 69 anos, está na reserva como cabo dos Fuzileiros Navais. Ao longo da conversa, mostrou-se um abnegado agente secreto, disposto a qualquer sacrifício em nome do Cenimar. Gilberto brincou dizendo ser “meio doidinho” por causa das sequelas que precisou tratar. Vive desconfiado – e teme retaliação dos militantes de esquerda.
Uma atitude também frequente entre os ex-infiltrados é oposta à de Gilberto. Ele teme retaliação. Outros chegam a exigir reparação e a pedir indenização do governo por ter sido perseguidos durante a ditadura. Uma história surpreendente é de Vanderli Pinheiro dos Santos. Quem consulta os arquivos da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça descobre que Vanderli foi indenizado pelo Estado em cerca de R$ 234 mil e recebe um benefício mensal de pouco mais de R$ 3 mil. À comissão, ele afirmou ter entrado para o PCB em 1964, ter treinado guerrilha, mas ter desistido da militância em 1969. Segundo ele, quando tentava se engajar no Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, foi preso e torturado no Batalhão de Polícia do Exército em Brasília, acusado de subversão. Depois de solto, afirmou, não conseguiu emprego e decidiu mudar para o Rio de Janeiro, onde ficou detido por 30 dias para “averiguações”. 

(Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)
Clóvis Bezerra
Ex-militante da ALN
Ele afirma que sempre desconfiou de Vanderli. Na ocasião, propôs aos companheiros executá-lo, mas foi voto vencido na organização
vanderli foi o mais grave caso de infiltração policial de que tenho conhecimento. Desconfiávamos que ele tinha sido recrutado pela repressão desde antes do golpe militar. Na ALN (Ação Libertadora Nacional), ele atuou no Rio e no Paraná, onde ajudou a entregar militantes do MR-8. O (Carlos) Marighella pediu que indicássemos dois militantes para treinar guerrilha em Cuba. Vanderli foi um dos escolhidos. Semanas depois, ele desistiu e confirmei minha desconfiança. Propus ao nosso grupo que ele fosse executado, mas fui voto vencido. Vanderli viu as armas que guardávamos na casa do meu irmão e nos delatou. Corremos para retirar as armas, mas logo depois a polícia chegou ao local. Encontrei Vanderli novamente na cadeia e perguntei por que ele tinha virado informante. Ele me disse, com cinismo, que tinha sido sacaneado pelo grupo. Depois, encontrei-o como taxista em Brasília. Eu me recusei a conversar com um traidor. Ele sozinho entregou toda a ALN em Brasília. 


Quem consulta os arquivos do Cenimar, porém, descobre que Vanderli foi um infiltrado. Quando uma equipe da Marinha estourou no Rio quatro esconderijos do MR-8, em 2 de março de 1969, prendeu Vanderli e outros quatro militantes. Vanderli se apresentou como agente infiltrado do Serviço Nacional de Informações (SNI). O Cenimar registra que entrou em contato com o SNI e confirmou a informação. No depoimento à Marinha, Vanderli, então com 25 anos, dizia que, depois de solto, teria condições de se infiltrar num grupo esquerdista de Brasília.
O agente duplo Vanderli obteve indenização de R$ 234 mil como perseguido político 
ÉPOCA investigou a vida de Vanderli no Distrito Federal. Antigos militantes de esquerda afirmam tê-lo conhecido. Desde os tempos de clandestinidade, pesavam sobre Vanderli suspeitas de que ele trabalhava para a repressão. “Vanderli sozinho entregou toda a ALN de Brasília”, afirma Clóvis Bezerra, ex-militante da organização. ÉPOCA tentou entrevistar Vanderli nas últimas semanas, sem sucesso. Ele tem uma chácara na periferia de Brasília e, segundo um vizinho, trabalha com táxi. Quando a reportagem conseguiu contato com Vanderli pelo telefone e disse que pretendia conversar sobre os tempos da ditadura, ouviu a seguinte pergunta: “Como você conseguiu meu telefone?”. Vanderli disse então que voltaria a ligar em seguida. Nunca mais ligou nem atendeu os telefonemas.
Os documentos secretos do Cenimar revelam que a extensão da infiltração dos órgãos militares nas organizações de esquerda ia além do nível da militância e muitas vezes chegava à cúpula. A pasta número 7 dos arquivos, sob o título “Documentos de Pessoas Efetivamente Registradas no Cenimar” e o timbre do Ministério da Marinha, afirma que Alvaro Bandarra, integrante da alta cúpula do PCB em São Paulo, trabalhou para a ditadura. Ele aparece com o nome falso “Nicolau” e é identificado pelo código KT-67. A ficha de Bandarra o descreve como comunista ligado ao PCB desde 1947. Ele nasceu em Santos em 1926, candidatou-se a vereador em 1947 e, no mesmo período, participou da campanha O petróleo é nosso. No pé da página, uma observação manuscrita registra o dia 9 de outubro de 1968 como a data a partir da qual ele passou a colaborar com a repressão.
O filho considera “improvável” que Bandarra tenha ajudado a ditadura 
Bandarra ocupava um posto estratégico na estrutura do PCB. Usava o codinome “Machado” e era integrante do comitê municipal em Santos e do comitê estadual em São Paulo. Um relatório interno do partido diz que ele era dono de uma livraria em Santos. Mantinha contatos frequentes com Walter Ribeiro, integrante do comitê central do PCB que usava o codinome “Beto”, hoje desaparecido. O documento interno não faz nenhuma acusação direta a Bandarra, mas afirma que, pela quantidade de prisões ocorridas no Estado, parecia que a polícia tinha um informante específico para o comitê de São Paulo. O relatório diz ainda que Bandarra, depois de uma reunião do comitê central em novembro de 1973, foi chamado a prestar esclarecimentos à polícia de Santos. Indiciado como dirigente comunista, não foi condenado.
DUPLA MILITÂNCIA


O comunista Alvaro Bandarra, numa foto de 1984. Ele foi integrante da cúpula do PCB e, segundo os documentos, trabalhou para a repressão da ditadura (Foto: Arquivo Ag. O Globo)
ÉPOCA localizou um filho de Alvaro Bandarra. Ele tem o mesmo nome do pai, que já morreu. Alvaro Bandarra Filho diz que considera “improvável” que o pai tenha colaborado com a repressão durante a ditadura. “A família foi orientada pelo meu pai a não revelar as reuniões políticas que aconteciam na minha casa”, afirma.
A vida dos infiltrados era cheia de medo, dúvida e tensão. Todos esses ingredientes estão presentes na correspondência da militante Maria Thereza Ribeiro da Silva. Primeiro, suas cartas foram interceptadas pelo Cenimar. Depois, ela acabou aliciada como informante. “Estou desesperada. Acabo de me convencer, com os últimos acontecimentos lidos nos jornais, que dentro em breve serei presa”, escreveu ela em 1o de agosto de 1969, numa carta manuscrita a uma amiga, Odete. Maria Thereza disse ter sido iludida pela organização de esquerda em que militava (o PCBR) e que não tinha dinheiro para quitar uma nota promissória. “Entre outras coisas, cheguei a comprar dois carros em nome de um motorista conhecido meu, de nome Bispo, com dinheiro fornecido por Salathiel.” Três dias depois de escrever a carta, Maria Thereza foi presa por agentes do Cenimar. Um manuscrito do Cenimar com data de 4 de agosto de 1969 registra um acordo feito com ela (leia o texto abaixo). No primeiro dia, a militante aliciada pela Marinha recebeu 100 cruzeiros novos.


No Cenimar, ela ficou conhecida pelo código RK-33 e pelos nomes falsos “Renata” e “Lindolfo”. Os contatos com o serviço secreto eram feitos por meio do capitão de corveta “Alfredo”. Três anos e meio depois do acordo com o Cenimar, Maria Thereza enviou uma carta a “Alfredo”, datada de 26 de fevereiro de 1973 e assinada por “Renata”. Ela reclama das dificuldades que tem para sustentar a filha, “Dominique”, e ajudar os pais com o dinheiro que ganha com uma pensão alimentícia e com o pagamento do Cenimar. No total, recebe Cr$ 1.270 (leia no quadro abaixo). Para equilibrar o orçamento, pede que o Cenimar aumente seu salário.
Maria Thereza comprou dois carros para as ações armadas do PCBR 
ÉPOCA não conseguiu entrevistar Maria Thereza. O nome dela aparece em cadastros do governo federal, mas seu endereço na periferia do Rio não foi encontrado. Ex-militantes do PCBR procurados não se lembraram dela. A ex-colaboradora da Marinha permaneceu nas sombras mesmo depois do fim da ditadura. Como seria de esperar de um agente secreto.





Estádio do Botafogo foi campo de concentração, diz advogado
Por Redação da RBA – 12.12.2012
Em sessão na OAB do Rio de Janeiro, Comissão Nacional da Verdade ouviu 11 advogados ligados a presos políticos durante a ditadura

 Depoimento à Comissão da Verdade lembrou que   o Estádio Caio Martins, em Niterói, foi usado como prisão pelo regime militar (CC/TAdvisor)

São Paulo – Relatos da existência de uma espécie de campo de concentração do período da ditadura militar (1964-85) foram ouvidos na terça-feira (11) na sessão solene em que a Comissão Nacional da Verdade (CNV) tomou depoimentos de advogados de presos políticos do período. O advogado trabalhista Manoel Martins afirmou em seu depoimento que, em abril de 1964, os defensores das reformas de base do ex-presidente João Goulart foram presos num campo de concentração montado no estádio Caio Martins, em Niterói. O estádio pertence ao governo do Estado do Rio e é arrendado pelo Botafogo desde os anos 1980.
A sessão foi realizada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, sessão Rio de Janeiro (OAB-RJ), e contou com a presença dos membros da CNV Rosa Cardoso e Claudio Fonteles. Os depoimentos colhidos na sessão serão usados pelo grupo de trabalho que estuda o funcionamento da Justiça Militar, chamado Ditadura e Sistema de Justiça.
Segundo o advogado, cerca de 1.800 pessoas foram presas no estádio. “Durante 18 dias, o Caio Martins foi o terror implantado. Para ir ao banheiro, íamos acompanhados por um soldado com metralhadora", contou. "Éramos professores, operários e camponeses, muitos evangélicos e Testemunhas de Jeová. As pessoas chegavam em caminhões", relembrou.
Foram ouvidos 11 advogados, entre eles o ex-deputado federal Antônio Modesto da Silveira, conselheiro da Comissão de Ética Pública da Presidência da República, e Eny Moreira, uma das idealizadoras do projeto Brasil, Nunca Mais, pesquisa que estudou a repressão militar a partir de documentos e processos políticos da época.
Silveira lembrou das detenções que, muitas vezes, os advogados sofriam como forma de intimidação. “Uma forma de pressão, nos ameaçando, no sentido de que não defendêssemos mais presos políticos.” Eny se emocionou ao lembrar de ver o corpo de sua cliente Aurora Maria Nascimento Furtado, mutilado pelas torturas sofridas logo após a militante ter sido presa, em novembro de 1972.
O advogado Alcione Barreto contou sobre a dificuldade que enfrentava para conseguir obter exame de corpo de delito para um preso torturado. "Os advogados pareciam pingos d'água, que, de tanto bater na pedra, a furaram. A pedra era a ditadura", afirmou.
A membro da CNV Rosa Cardoso também deu seu depoimento, já que também advogou para presos políticos na ditadura. Ela lembrou do companheirismo na luta dos defensores da época. “Viva nosso passado, nosso companheirismo, nossa eterna solidariedade, nossa eterna amizade.”
Com informações do site da CNV






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