1964 – Repressão
Correio da Manhã foi decisivo no caso ParaSar
GRITOS NO PORÃO - Por meio de tortura e assassinatos, a
Oban ganhou a guerra contra a esquerda armada
Repressão começou antes da luta
armada, reforça Comissão da Verdade
Comissões
visitarão ex-centro de tortura
Comando
veta visita a DOI-Codi e comissão recorrerá a ministro
Entrevista - José Carlos Tórtima, ex-preso político e advogado: "Nada foi pior do que o período no DOI-Codi
Os arquivos secretos da Marinha
Os infiltrados da ditadura
Estádio do
Botafogo foi campo de concentração, diz advogado
Repressão
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Terça-feira, 03 de Setembro de 2013 | ISSN 1519-7670 - Ano 17 - nº 762
ENTREVISTA / MAURÍLIO FERREIRA LIMA
Correio da
Manhã foi
decisivo no caso Para-Sar
Por Mauro Malin em
19/06/2012 na edição 699
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O caso
Para-Sar, denunciado no ano-dobradiça de 1968, condensou alguns dos aspectos
mais torpes do regime militar. Em resumo, o brigadeiro João Paulo Burnier
queria empregar o Para-Sar, unidade da Aeronáutica especializada em busca e
salvamento, para provocar na cidade do Rio de Janeiro um morticínio que
servisse de pretexto ao massacre de comunistas e outros opositores e
dissidentes da ditadura. Oficiais e sargentos – entre eles o capitão Sérgio
Miranda de Carvalho (Sérgio Macaco, 1930-1994) − discordaram de Burnier e o
denunciaram a outras autoridades da Força Aérea.
O
plano foi abortado depois que o deputado federal Maurílio Ferreira Lima
(MDB-PE) o denunciou da tribuna da Câmara e o jornal carioca Correio da
Manhã publicou uma carta da nora do brigadeiro Itamar Rocha, solidário com
os denunciantes. Nos muitos relatos existentes sobre o episódio, vários deles
bem documentados [ver nota no final], não se esclarece como o deputado
soube de uma história que circulava apenas entre oficiais e sargentos da
Aeronáutica e o que o levou a fazer a denúncia.
Nesta
entrevista ao Observatório da Imprensa, Ferreira Lima conta a
movimentação oposicionista por trás de seu pronunciamento e afirma que sem a
insistência do Correio da Manhã no assunto a cúpula da Aeronáutica
teria conseguido desacreditar os denunciantes.
A
investigação e a denúncia de crimes cometidos com pretexto político durante o
regime militar foi desde o primeiro momento iniciativa da imprensa, como se
procurou mostrar no tópico “Mídia e
cidadãos não têm prazo para apurar“, escrito a propósito do trabalho de
que está incumbida a Comissão da Verdade.
Entre salvamento e extermínio
Para-Sar
(“para” de paraquedista e “sar” de search and rescue, busca e
salvamento) era o nome pelo qual se tornara conhecida a 1ª Esquadrilha
Aeroterrestre de Salvamento, destacamento especializado em missões de resgate a
acidentados, informa o verbete Eduardo Gomes do Dicionário
Histórico-Biográfico Brasileiro.
Em
abril de 1968, seguindo orientação do brigadeiro Burnier, lê-se na publicação Nosso
Século (seis volumes, 1980), da extinta Abril Cultural, que...
“...um grupo
de homens do Para-Sar, à paisana e armado com pistolas, é destacado para
acompanhar uma manifestação estudantil no Rio de Janeiro. Os oficiais deviam
ajudar na prisão de estudantes, vigiar o alto dos edifícios e eliminar
sumariamente os que de lá arremessassem objetos contra a polícia. A primeira
parte da missão é cumprida, a segunda, não.”
Burnier
foi um dos expoentes da extrema direita das Forças Armadas brasileiras no
século 20. Chefiara a Revolta de Aragarças (Goiás), em 1959, contrária a
Juscelino Kubitschek e favorável, segundo Burnier, à manutenção da candidatura
de Jânio Quadros à presidência da República. O oficial da Aeronáutica esteve ao
lado de Carlos Lacerda, governador do então estado da Guanabara, durante o
movimento que derrubou João Goulart.
Ele
foi o criador do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (Cisa).
Atribui-se à sua passagem por um curso de informações na Escola das Américas do
Exército Americano, no Panamá, em 1968, uma exacerbação de conceitos calcados
na Guerra Fria e a defesa de todo e qualquer método que pudesse ser útil à
causa do anticomunismo.
Em
junho de 1968, promovido a brigadeiro-do-ar, ocupava a chefia da seção de
informações do gabinete do ministro da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Souza
Melo. Antigo integralista, Souza Melo integraria a Junta Militar que tomou o
poder em 31 de agosto de 1969 para evitar que o vice-presidente, Pedro Aleixo,
um civil, substituísse o general Arthur da Costa e Silva, incapacitado por uma
trombose.
Roteiro de atrocidades
Burnier
fez várias preleções a integrantes do Para-Sar. Teriam agora novas tarefas,
para as quais se requeria sua capacidade operacional, resultado de intenso
treinamento e grande experiência. Elas incluíam explodir a loja de
departamentos Sears, na Praia de Botafogo, a embaixada dos Estados Unidos e o
Citibank, no centro da cidade; dinamitar a represa de Ribeirão da Lajes,
deixando a antiga capital da República parcialmente sem água; explodir o
gasômetro que ficava a 250 metros da Estação Rodoviária Novo Rio, em dia de
semana, por volta das seis da tarde, para matar um grande número de pessoas;
atribuir os atentados aos comunistas e promover uma matança que, nessas
condições, poderia ser aplaudida pela população.
Em
meio à confusão criada, seriam presos e assassinados 40 altos personagens da política,
entre eles dois dos líderes da Frente Ampla, Juscelino e Lacerda. Seus corpos
seriam jogados no mar, a 40 quilômetros da costa. A Frente Ampla, criada em
outubro de 1966 e proibida pelo governo em abril de 1968, foi entre 1966 e 1968
o movimento mais importante pela redemocratização do país.
Em
junho, Burnier mandou todos os homens do destacamento embarcarem num ônibus que
os levou da Base Aérea de Santa Cruz ao gabinete do ministro, no centro do Rio.
Durante tenso monólogo, disse que o soldado, para saber matar na guerra, tinha
que ser capaz de matar na paz, com gosto de sangue na boca e sem que sua mão
tremesse.
Resistência da oficialidade
A
exposição do plano e a recusa do Para-Sar a levá-lo à prática, encabeçada pelo
capitão Sérgio, provocaram grave crise na Força Aérea. Havia também uma questão
de comando: o Para-Sar não era subordinado ao gabinete do ministro, e sim ao
Departamento de Rotas Aéreas, dirigido pelo brigadeiro Itamar Rocha. Ele abriu
inquérito que confirmou os fatos, negados por Burnier. Rocha levou o assunto ao
ministro e foi punido. Também foram punidos, com penas de prisão menos
simbólicas, oficiais e sargentos do Para-Sar.
Cerca
de trezentos oficiais da Aeronáutica assinaram manifesto contra a utilização do
Para-Sar preconizada por Burnier. Um deles foi o brigadeiro Délio Jardim de
Matos (futuro ministro da Aeronáutica), que levou o assunto ao brigadeiro da
reserva Eduardo Gomes, figura mais reverenciada da Aeronáutica e ministro no
governo Castelo Branco (1964-1967). Gomes preferiu abafar o caso e tentar
resolvê-lo dentro da hierarquia do regime.
O
assunto circulou entre oficiais-generais da reserva, entre eles os brigadeiros
Adamastor Cantalice, que contou a história a Juscelino, e Francisco Teixeira,
ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e cassado em 1964.
Obrigação de democrata
E
aqui entra na história Maurílio Ferreira Lima. Antes do golpe, ele fora oficial
de gabinete do então prefeito do Recife, Miguel Arraes, eleito em 1959. Em
1963, se tornara assessor do ministro da Agricultura Osvaldo Lima Filho,
deputado eleito pelo PTB e um dos criadores da Frente Parlamentar Nacionalista.
Ferreira Lima havia sido eleito suplente pelo MDB de Pernambuco em 1966 e
assumira o mandato em 1968.
O
deputado frequentava na Cinelândia, centro do Rio, o escritório do advogado
Marcelo Alencar (futuro prefeito do Rio e governador do estado), “ponto de
encontro de tudo quanto era gente de esquerda e de oposição ao regime”,
descreve. Em setembro de 1968, Alencar levou Ferreira Lima ao encontro do
brigadeiro Teixeira. Este lhe perguntou se poderia fazer na Câmara a denúncia
da maquinação de Burnier e o relato do conflito na Aeronáutica.
“Ele
me disse que um texto já havia sido preparado e que era minha obrigação
denunciar o plano assassino”, narra Ferreira Lima. “No dia combinado,
emissários levariam uma cópia ao Correio da Manhã, onde jornalistas
democratas já estavam avisados e providenciariam sua publicação. Eu não deveria
revelar o assunto a ninguém, nem mesmo ao líder do MDB, deputado Mario Covas.”
Aeronáutica “invade” o Congresso
Ferreira
Lima foi para Brasília e em 1º de outubro falou no pequeno expediente da Câmara
dos Deputados. O presidente da Casa, Zezinho Bonifácio (José Bonifácio
Lafayette de Andrada, da Arena de Minas Gerais), imediatamente suspendeu a
sessão. O ex-deputado relata: “Ao voltar ao plenário, fui abordado por dois
colegas e amigos. O general Amaury Kruel [do MDB do então estado da Guanabara]
e Aureliano Chaves [Arena-MG, futuro vice-presidente da República]. Kruel me disse:
‘Acho que você se meteu numa fria’. Aureliano me perguntou se eu tinha emprego
fora da Câmara, ou patrimônio. Como eu lhe respondesse que não, externou sua
preocupação: ‘Você vai ser cassado. Vai viver de quê?’”
“Logo
depois, houve uma coincidência cômica”, relata Ferreira Lima. “Integrantes da
Força Aérea dos Estados Unidos em viagem ao Brasil foram visitar o Congresso
Nacional, acompanhados por oficiais da Aeronáutica. Fardados, todos. O deputado
Raul Brunini [radialista muito conhecido e lacerdista eleito pelo MDB-GB]
entrou esbaforido no plenário e me disse que eu precisava imediatamente me
esconder, porque a Aeronáutica acabara de invadir o Congresso. Tomado de ímpeto
cívico, respondi que se tratava de um atentado às instituições democráticas e
que iria permanecer sentado no plenário. Até que o equívoco se desfez.”
Trincheira no Correio da Manhã
Saindo
do plenário, Ferreira Lima telefonou para Marcelo Alencar e lhe comunicou que a
missão fora cumprida e que se tinha criado em Brasília um clima de grande
confusão. Alencar informou ao deputado que as pessoas encarregadas de levar o
texto ao Correio da Manhã haviam sido presas naquela manhã.
A
notícia da denúncia de Ferreira Lima seria publicada no dia 4 de outubro em
diversos jornais – entre os quais o próprio Correio da Manhã, a Última
Hora, o Jornal do Brasil e o Estado de S.Paulo.
“Mas
o que mudou os dados da questão foi a publicação, no Correio da Manhã,
de uma carta da nora do brigadeiro Itamar Rocha. Dias antes, ele havia sido
afastado da Diretoria de Rotas Aéreas e punido com dois dias de prisão
domiciliar”, conta Ferreira Lima. “Nesse período, o carro do brigadeiro Eduardo
Gomes foi abalroado no Aterro do Flamengo e ele quebrou uma perna. O Correio
da Manhã, por orientação expressa de dona Niomar Muniz Sodré Bittencourt
[proprietária do jornal], mandou dar na primeira página: ‘Atentado contra o
brigadeiro Eduardo Gomes’.”
Depois
de receber na Câmara quatro salários de deputado a que, segundo o diretor-geral
da Casa, tinha direito, Ferreira Lima passou alguns dias abrigado na casa do
senador Pedro Ludovico, do MDB de Goiás, pai do governador cassado Mauro
Borges. Ele se lembra de um diálogo com o senador:
−
É bronca grande, senador.
−
Mas eu estou habituado. Vamos enfrentar juntos.
Segundo
Ferreira Lima, Ludovico, quando governador de Goiás pela primeira vez, abrigara
esquerdistas de Pernambuco envolvidos na tentativa insurrecional comunista de
1935, evitando que fossem presos.
Fora de circulação
De
volta ao Rio, Ferreira Lima encontrou no escritório de Marcelo Alencar
expoentes do antigo PTB. Eduardo Chuai, José Gomes Talarico, Doutel de Andrade
e Wilson Fadul lhe recomendaram sair de circulação.
Ele
resolveu então procurar o deputado Etelvino Lins, da Arena, ex-governador de
Pernambuco, onde eram adversários políticos. “Etelvino era um homem muito bem
informado”, explica Ferreira Lima. “Ele me avisou que eu seria cassado e me
perguntou o que eu ia fazer da vida. Eu disse que iria para a Argélia, onde
estava Miguel Arraes. De fato, na primeira lista de cassações publicada depois
da edição do AI-5, eu apareci em quinto lugar. O primeiro era Carlos Lacerda.”
Rede de ajuda do PTB
Em
sua fuga do Brasil, Ferreira Lima foi ajudado pelo ex-presidente João Goulart,
exilado no Uruguai, por intermédio de correligionários do antigo PTB. Antes,
porém, recebeu apoio de Márcio Alves, pai do jornalista e deputado federal
Mário Moreira Alves, autor de discurso usado como pretexto usado pelos
militares para dar o “golpe dentro do golpe” – a edição do AI-5, o fechamento
do Congresso, o fim das garantias constitucionais.
Depois
de ser recebido por Goulart em sua fazenda no Uruguai, Ferreira Lima foi para o
Chile, onde se havia refugiado Moreira Alves. De Santiago, Ferreira Lima viajou
para Paris. Aí permaneceu alguns meses antes de ir para a Argélia.
O fim do Correio da Manhã
O
Ato Institucional número 5 (AI-5), editado em 13 de dezembro de 1968,
transformou o regime de exceção em regime de puro arbítrio. Mediante a censura
prévia, suprimiu a liberdade de imprensa. Esmagado pelo poder, o Correio da
Manhã, um dos mais importantes jornais do país no século 20, publicaria
sua última edição em 1974.
Burnier
continuou chefe da seção de informações do gabinete de Souza Melo até abril de
1970, quando assumiu o comando da III Zona Aérea, onde o estudante Stuart Edgar
Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, foi torturado e assassinado em
junho de 1971 (informação do livro Direito à Memória e à Verdade,
publicado sob a responsabilidade da Presidência da República em 2007). O
ministro da Aeronáutica, brigadeiro Márcio de Souza Melo, que sempre deu
cobertura a Burnier, ficou no cargo até novembro de 1971.
Em
1968, o plano de assassinato em massa foi barrado ainda na origem, mas 13 anos
depois, em show dedicado ao Primeiro de Maio de 1981, no Riocentro, ele foi
seguido e só não se consumou porque uma das bombas levadas ao local explodiu no
colo do sargento do Exército que a carregava.
Anistiado
em 1979, Ferreira Lima voltou ao Brasil e foi eleito deputado federal
constituinte em 1986, pelo PMDB de Pernambuco. Reeleito em 1990, em 1994
transferiu-se para o PSDB e perdeu eleição de senador para Roberto Freire, do
PPS. Foi nomeado em 1995, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, presidente
da Radiobrás. Em 1998, de volta ao PMDB, foi eleito suplente de deputado
federal. Em 1999 e 2000, representou em Brasília o governo de Pernambuco, com o
status de secretário de Estado, concedido por Jarbas Vasconcelos.
Exerceu mandato em 2001-2002. Mantém um blogue e participa regularmente de programas
de rádio.
***
Entre
as fontes que podem ser consultadas sobre o assunto estão:
**
Arquivo do CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea
do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas), disponível aqui (inclui
todos os verbetes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro);
**
Coluna do Castello no extinto Jornal do Brasil; informações e
comentários sobre política entre 1963 e 1993 estão disponíveis aqui;
**
Arquivo da jornalista Ana Lagoa, digitalizado pela Universidade Federal de São
Carlos (leia aqui reportagem
da revista Fatos 1/7/1985), da Editora Bloch, datada de 1/7/1985);
**
Elio Gaspari, A Ditadura Envergonhada, 2002, primeiro volume da
tetralogia As ilusões armadas.
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No dia 1° de julho de 1969, em agradável coquetel de
drinques e salgadinhos, com a presença de autoridades civis e militares, foi
inaugurada em São Paulo a Operação Bandeirante (Oban). Seu objetivo: destruir
os grupos de esquerda que atuavam no país. Financiada por empresários ligados à
FIESP e banqueiros que sentiam seus interesses ameaçados, a Oban agregou
militares e membros de todas as forças policiais em um passo decisivo para o
endurecimento do regime militar.
Encerrada a fase das grandes passeatas estudantis e
das greves operárias anteriores ao Ato Institucional nº 5 (13 de dezembro de
1968), surgiam novas formas de luta contra o regime, promovidas por
organizações clandestinas de esquerda. Algumas delas defendiam as ações
armadas; outras não, mas todas tinham em comum a oposição ao governo e a defesa
do socialismo como sistema político. Embora o novo órgão repressivo fosse
composto por efetivos de origem policial e contasse, em seus quadros, com
membros das três forças armadas, eram os oficiais do Exército que o comandavam.
A convivência entre essas duas categorias – militares e policiais civis –,
dentro da mesma Oban, nem sempre era fácil. Os policiais achavam que os
militares eram brutos e inexperientes em investigações. Estes, por sua vez,
consideravam os policiais corruptos e incapazes. Por que então reunir em um só
órgão indivíduos com estilos de trabalho tão conflitantes? A explicação
encontra-se na maneira pela qual o governo militar encarava a oposição naquela
época.
O poder constituído lutava, então, contra um novo tipo
de adversário: o “inimigo interno”, entidade nascida no âmbito da Guerra Fria,
quando o bloco capitalista (liderado pelos EUA) opunha-se ao bloco socialista
(liderado pela União Soviética) e uma nova modalidade de guerra, a “guerra
revolucionária”, colocava em campos opostos cidadãos de um mesmo país. O
"subversivo", ou "terrorista”, era considerado um elemento
extremamente perigoso. Na visão do Exército, agia de “forma insidiosa” com o
objetivo de desestabilizar, com suas “táticas traiçoeiras”, o regime militar.
Tal perspectiva justificava a utilização de variados métodos de tortura nos
interrogatórios. Ao capturar um suspeito, era preciso obter dele, o mais rápido
possível, informações que levassem a outros militantes, estabelecendo-se a
partir daí uma cadeia de prisões sucessivas.
A Oban especializou-se na captura e no interrogatório
de suspeitos de subversão. Os agentes que lá trabalhavam seguiam uma orientação
muito distinta da estabelecida em suas unidades de origem. Não podiam usar
corte de cabelo militar e nem circular fardados. Utilizavam codinomes, para
confundir as pessoas e impedir que fossem identificados. Deixavam seus cabelos
e barbas crescerem e vestiam-se à paisana para que pudessem infiltrar-se em
ambientes freqüentados por militantes de esquerda. Suas atividades eram
sigilosas até para os familiares. Circulavam pela cidade em carros de “chapa
fria”, isto é, com registro falso, razão pela qual muitas vezes eram detidos
pelos próprios colegas, que os confundiam com os suspeitos. Justificava essas
medidas o fato de estar diante de um inimigo incomum e, por isso, ter de agir
como ele, de forma não convencional.
Ainda que lançando mão de meios irregulares, ilegais e quase sempre brutais, a Oban obteve êxito na sua missão. Em pouco tempo, as organizações de esquerda foram sendo desarticuladas e destruídas uma a uma. Com base na experiência paulista, o Exército decidiu não apenas consolidar sua presença e atuação, mas também, mudando o nome da organização, expandir suas atividades a outras capitais do país. Entre 1970 e 1974, foram instituídos os Destacamentos de Operações de Informação – Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), (que substituíram a Oban), em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Belém, Fortaleza e Porto Alegre. Ao DOI cabia investigar, prender, interrogar e analisar as informações. O CODI, dirigido pelo chefe do Estado-maior do Exército, era incumbido de planejar, controlar e assessorar as medidas de defesa interna, incluindo a "propaganda psicológica" – considerada também como importante arma de combate à guerra revolucionária. Sua principal função consistia em evitar que houvesse duplicidade de esforços, coordenando as ações dos diversos órgãos repressivos.
Ainda que lançando mão de meios irregulares, ilegais e quase sempre brutais, a Oban obteve êxito na sua missão. Em pouco tempo, as organizações de esquerda foram sendo desarticuladas e destruídas uma a uma. Com base na experiência paulista, o Exército decidiu não apenas consolidar sua presença e atuação, mas também, mudando o nome da organização, expandir suas atividades a outras capitais do país. Entre 1970 e 1974, foram instituídos os Destacamentos de Operações de Informação – Centros de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), (que substituíram a Oban), em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Belém, Fortaleza e Porto Alegre. Ao DOI cabia investigar, prender, interrogar e analisar as informações. O CODI, dirigido pelo chefe do Estado-maior do Exército, era incumbido de planejar, controlar e assessorar as medidas de defesa interna, incluindo a "propaganda psicológica" – considerada também como importante arma de combate à guerra revolucionária. Sua principal função consistia em evitar que houvesse duplicidade de esforços, coordenando as ações dos diversos órgãos repressivos.
Os interrogatórios do DOI duravam noite e dia. Três
turmas, compostas por seis agentes sob o comando de um oficial, revezavam-se em
turnos de 24 horas, com 48 horas de folga. O ritmo de trabalho era intenso,
conforme o relato de um ex-agente: "Eu ficava lá todo o tempo, não tinha
vida pessoal, tudo o que fazia se relacionava à minha atuação no DOI”. O turno
começava às oito horas da manhã, quando se dava a troca das equipes, e só
terminava às sete horas do dia seguinte. Quem orientava os interrogatórios era
a Sub-seção de Análise de Informações. Seus agentes tinham por missão ler
atentamente os depoimentos e cotejá-los com informações recebidas de vários
órgãos.
Um general chegou ao cinismo de afirmar, numa
entrevista, que o nome do órgão era muito apropriado, porque "DOI"
evoca dor. Embora não admitida oficialmente, a tortura era uma prática
rotineira dentro do DOI. Os agentes aplicavam os castigos de forma profissional
e “científica”. Médicos e enfermeiros avaliavam as condições físicas do
interrogado, para saber se podiam sofrer novas sevícias. Os torturadores, por
sua vez, tinham de se enquadrar a determinado um determinado perfil
psicológico. Tinham de ser necessariamente violentos, mas sempre mantendo certa
dose de calma e frieza, pois ao contrário perderiam a "superioridade"
em relação ao interrogado. Enquanto os torturadores procuravam arrancar a
"verdade" dos presos políticos, os agentes de análise iam avaliando,
como se juntassem as peças de um quebra-cabeças, o teor das informações
obtidas, para prender outro suspeito ou “estourar” um novo “aparelho”, como
eram chamados os locais de moradia ou de encontros utilizados pelos ativistas
de esquerda.
Às vezes, um e outro interrogado não resistia aos
excessos do torturador e morria. Não podendo admitir que presos políticos perdessem
a vida em dependências do Exército, os agentes do DOI apelavam para falsas
versões: "morte em tiroteio", "morte por atropelamento",
"suicídio" ou "tentativa de fuga" eram as mais comuns. Como
esses argumentos foram ficando desgastados e pouco críveis, recorreu-se ao
expediente do “desaparecimento”. A passagem do preso pelo DOI era oficialmente
negada, e seu corpo enterrado como indigente, numa vala clandestina.
A Ação Libertadora Nacional (ALN), o Partido Comunista
Revolucionário Brasileiro (PCBR), a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a
Vanguarda Armada Revolucionária (VAR Palmares), o Partido Operário Comunista
(POC) e muitas outras entidades de esquerda tiveram militantes assassinados.
Mas, à medida que essas organizações eram desmanteladas, outros alvos tinham de
ser estabelecidos para justificar a necessidade permanente de um órgão dessa
natureza. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) mantivera durante o regime
militar uma postura pacífica. A perseguição aos seus integrantes deu-se dentro
de uma conjuntura de disputa interna dos militares entre os setores da
"linha dura" – defensores do endurecimento do regime – e o governo do
general Ernesto Geisel, que defendia uma abertura política "lenta e
gradual".
Alguns dirigentes do partido já tinham sido
assassinados em centros clandestinos de tortura, mas a opinião pública pouco
soube a respeito. Como a conjuntura política mudou, o mesmo não ocorreu com a
morte do jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog, no dia 25 de outubro de
1975, na sede do DOI, em São Paulo. O episódio provocou grande comoção nos
meios intelectuais do país, fazendo eclodir uma crise entre o governo Geisel e
os órgãos de repressão. Pouco tempo depois, um operário chamado Manoel Filho
foi assassinado nas mesmas circunstâncias, o que levou à deposição, pelo
presidente Geisel, do comandante do II Exército, general Ednardo D'Ávila Mello.
Tal medida não impediu a ocorrência da chamada "chacina da Lapa”, em
dezembro de 1976, quando três dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PC do
B) foram assassinados durante uma operação conjunta realizada pelo DOI e outros
órgãos da repressão.
Após esse episódio, embora seus agentes continuassem
interrogando e torturando presos políticos, não se registraram mais vítimas
fatais na sede do DOI paulista. Aos poucos, com o processo de redemocratização,
o órgão foi sendo esvaziado de suas funções, com seus agentes sendo
transferidos para outras unidades policiais ou militares. As atribuições do
órgão foram em certa medida incorporadas pela Sub-seção de Operações do II
Exército. No final do governo do general João Batista Figueiredo, o DOI foi
oficialmente extinto. Alguns dos agentes passaram a promover, a partir daí, de
forma clandestina mas muitas vezes com apoio de setores militares, atentados
terroristas contra a população civil e entidades afinadas com os princípios da
liberdade e dos direitos humanos, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e
a Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Era uma tentativa desesperada de
frear a abertura política, mas não tiveram êxito. Embora tenham vencido a
batalha contra as esquerdas, não conseguiram impedir a retomada do projeto
democrático, entrando para a história como personagens macabros de um tempo
obscuro, cujas feridas ainda hoje não cicatrizaram inteiramente.
Mariana Joffily é doutoranda em História Social pela
Universidade de São Paulo (USP) com a tese No centro da engrenagem: os
interrogatórios da Oban e do DOI de São Paulo (1969-1975).
Os arquivos da repressão
Não se conhece a existência de arquivos específicos da
Operação Bandeirante ou do DOI-CODI, embora esses órgãos tenham produzido farta
documentação. Porém, é possível ter acesso aos documentos enviados pela Oban e
pelo DOI ao DOPS (Departamento de Ordem Política e 7Social) paulista. A esse
organismo, que existia desde 1924, cabia a realização do interrogatório oficial
– a partir dos dados já fornecidos pela Oban – e a montagem do inquérito a ser
enviado à Justiça Militar. A série Dossiês (1940-1983), que compõe o acervo do
DOPS São Paulo, contém, entre outros, o Dossiê 50-Z-9, constituído de 236
pastas. Nestas, encontra-se uma variedade muito grande de documentos, oriundos
dos mais diversos órgãos de informação e repressão, arquivados dentro de uma
lógica difícil de reconstituir. Essa miscelânea de documentos de toda ordem –
"pedidos de busca", "fichas de antecedentes políticos",
"boletins do SNI", "informes" (informação bruta),
"informações" (informação confirmada), "fichas individuais de
identificação de presos", relatórios, interrogatórios preliminares,
recortes de jornal e outros – comprova a intensa troca de notícias e dados
entre as mais diversas esferas do sistema repressivo.
Saiba
mais - Bibliografia:
AQUINO, Maria Aparecida de; MATTOS, Marco Aurélio
Vannucchi Lemes de; SWENSSON JR., Walter Cruz (orgs.). A alimentação do Leviatã
nos planos regional e nacional: mudanças no DEOPS/SP no pós 1964. São Paulo:
Arquivo do Estado de São Paulo/ Imprensa Oficial, 2002.
D’ARAUJO, Maria Celina; SOARES, Gláucio Ary Dillon;
CASTRO, Celso (orgs.). Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994.
FICO, Carlos. Como eles agiam. Os subterrâneos da
ditadura militar. Espionagem e polícia política. Rio de Janeiro: Record, 2001.
GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo: Companhia
das Letras, 2002.
Saiba mais - Filmes:
Pra Frente, Brasil – Roberto Farias – 1983
Que bom te ver viva – Lucia Murat – 1989
Que bom te ver viva – Lucia Murat – 1989
Saiba
Mais - Sites:
Desaparecidos políticos:
www.desaparecidospoliticos.org.br
Ditadura militar: www.gedm.ifcs.ufrj.br
Grupo Tortura Nunca Mais RJ: www.torturanuncamais-rj.org.br
Terrorismo Nunca Mais (site de ex-agentes de repressão): www.ternuma.com.br
Ditadura militar: www.gedm.ifcs.ufrj.br
Grupo Tortura Nunca Mais RJ: www.torturanuncamais-rj.org.br
Terrorismo Nunca Mais (site de ex-agentes de repressão): www.ternuma.com.br
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Repressão começou antes da luta armada, reforça Comissão da Verdade
|
Em
evento de balanço, CNV revelou documentos que comprovariam que a tortura era
praticada pelo regime militar desde seu início, antes de existirem as
organizações armadas de oposição; que ministros tinham o comando direto do
aparato de repressão; e que a Marinha ocultou da presidência da República, já
no período democrático, as informações que tinha sobre mortos pela repressão.
Vinicius Mansur
Brasília – Para o balanço de um ano
de seu trabalho, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) reservou a revelação de
provas contundentes sobre a brutalidade da ditadura militar brasileira. O
material foi apresentado terça-feira (21), em Brasília, junto com um resumo
[http://www.cnv.gov.br/images/pdf/balanco_1ano.pdf]
repleto de dados sobre as atividades – sobretudo pesquisas documentais -
realizadas pela CNV até o momento.
As revelações mais impactantes vieram da historiadora e pesquisadora vinculada à CNV, Heloísa Starling. O estudo [http://www.cnv.gov.br/images/pdf/cnv_parcial.pdf] liderado por ela, que segue em desenvolvimento, revelou documentos que comprovariam que: a tortura era praticada pelo regime militar desde seu início, antes de existir as organizações armadas de oposição; que os ministros militares participavam da linha de comando do enorme e capilarizado aparato de repressão montado; e que a Marinha ocultou da presidência da República, já no período democrático, as informações que tinha sobre mortos pela repressão.
As revelações mais impactantes vieram da historiadora e pesquisadora vinculada à CNV, Heloísa Starling. O estudo [http://www.cnv.gov.br/images/pdf/cnv_parcial.pdf] liderado por ela, que segue em desenvolvimento, revelou documentos que comprovariam que: a tortura era praticada pelo regime militar desde seu início, antes de existir as organizações armadas de oposição; que os ministros militares participavam da linha de comando do enorme e capilarizado aparato de repressão montado; e que a Marinha ocultou da presidência da República, já no período democrático, as informações que tinha sobre mortos pela repressão.
Tortura
antes da luta armada
Starling
apresentou um mapa dos centros de detenção e tortura já existentes em 1964 e
1965. “Isso é suficiente para mostrar como a tortura se torna em padrão de
repressão antes do início da luta armada no país”, afirmou.
Até o momento, são 36 centros destes já identificados pela CNV, localizados em sete estados do país: Bahia, Pernambuco, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Os demais estados ainda precisam ser pesquisados.
Até o momento, são 36 centros destes já identificados pela CNV, localizados em sete estados do país: Bahia, Pernambuco, Goiás, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Os demais estados ainda precisam ser pesquisados.
A
maior parte destes centros funcionavam em quartéis, porém eles também existiam dentro
do Comando Militar da refinaria da Petrobrás de Mataripe (BA); da Secretaria de
Segurança e da Cidade Universitária de Recife (PE); e, em São Paulo, da base
aérea de Cumbica, Guarulhos, e do navio prisão Raul Soares, em Santos.
No Rio de Janeiro, estado com maior números de centros de tortura já identificados nesse período – são 16 no total - , um funcionava dentro da Universidade Federal Rural, em Seropédica, outro no navio prisão Princesa Leopoldina e outro no Centro de Informações da Marinha (Cenimar), que à época se localizava dentro do Ministério da Marinha.
No Rio de Janeiro, estado com maior números de centros de tortura já identificados nesse período – são 16 no total - , um funcionava dentro da Universidade Federal Rural, em Seropédica, outro no navio prisão Princesa Leopoldina e outro no Centro de Informações da Marinha (Cenimar), que à época se localizava dentro do Ministério da Marinha.
Starling
também afirmou que, apesar das leis de exceção que recrudesceram a repressão
terem sido ditadas em 1968, já em 1967 o general Geisel foi chamado a se
explicar no Supremo Tribunal Militar por contas das denúncias de tortura. “O
Jornal do Brasil traz uma série de reportagens importantes sobre essa
explicação”, informou.
A consciência do terror
A consciência do terror
A
historiadora também apresentou o documento ultra-secreto de 1970 que criava o
Centro de Operações de Defesa Interna (Codi) do I Exército, cuja jurisdição
compreendia os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo.
Dentro
desse documento, havia o organograma ao qual o Codi - o órgão encarregado do
planejamento, controle e coordenação das ações de repressão política - estava
submetido e nele estavam incluídos os ministros militares em sua linha de
comando. O documento é assinado pelo então Chefe do Estado-Maior do I Exército
Carlos Alberto Cabral Ribeiro. “Isso evidencia a responsabilidade do Estado
brasileiro”, disse Starling.
Segundo a historiadora, trata-se de uma inovação para a bibliografia sobre a estrutura de repressão da ditadura, que até então só havia comprovado que o comando chegava até o segundo nível. “Nós temos muitos depoimentos que dizem que chegava [a linha de comando] até os ministros militares, mas não tínhamos ainda nenhum documento rubricado pelo Chefe do Estado-Maior que mostrasse [isso]”, explicou.
Outra novidade a bibliografia, segundo a pesquisadora, é que o comandante do Codi sempre é o comandante do Exército.
Ocultação pela Marinha
Segundo a historiadora, trata-se de uma inovação para a bibliografia sobre a estrutura de repressão da ditadura, que até então só havia comprovado que o comando chegava até o segundo nível. “Nós temos muitos depoimentos que dizem que chegava [a linha de comando] até os ministros militares, mas não tínhamos ainda nenhum documento rubricado pelo Chefe do Estado-Maior que mostrasse [isso]”, explicou.
Outra novidade a bibliografia, segundo a pesquisadora, é que o comandante do Codi sempre é o comandante do Exército.
Ocultação pela Marinha
A
partir da análise de um extenso prontuário de pessoas mortas produzido em
dezembro de 1972 pelo Cenimar, a CNV descobriu que a Marinha ocultou
informações dos poderes legislativo e executivo, em 1993.
Durante o governo Itamar Franco, o então ministro da Justiça, Maurício Correa, solicitou aos comandantes militares informações requisitadas pelo Congresso Nacional sobre a ditadura. A resposta dada pela Marinha, entretanto, oculta as mortes - que já haviam sido registradas por eles em 1972 - de 11 pessoas, entre elas o deputado federal Rubens Paiva.
Durante o governo Itamar Franco, o então ministro da Justiça, Maurício Correa, solicitou aos comandantes militares informações requisitadas pelo Congresso Nacional sobre a ditadura. A resposta dada pela Marinha, entretanto, oculta as mortes - que já haviam sido registradas por eles em 1972 - de 11 pessoas, entre elas o deputado federal Rubens Paiva.
Segundo
Heloísa Starling, a Marinha havia produzido 12.072 páginas de prontuários
referentes a estas 11 pessoas. “A Marinha brasileira ocultou deliberadamente
informações e documentação do estado brasileiro já no período democrático. Ela
ocultou essas informações da Presidência da República, do Ministério da Justiça
e da Câmara dos Deputados”, sentenciou.
O
ministro da Marinha de Itamar franco era Ivan Serpa.
Um ano de CNV
Um ano de CNV
O
relatório de atividades apresentados pela CNV resgata que a comissão instalada
em 16 de maio de 2012 tem como missão descobrir e resgatar os fatos
relacionados às graves violações dos direitos humanos entre 1946 e 1988, com
especial atenção aos fatos decorrentes do regime instalado pelo golpe de 1964.
Para isso, uma das linhas de atuação da CNV é a pesquisa atualmente desenvolvida por 13 grupos de trabalho que contam 60 pessoas, entre assessores, consultores e pesquisadores ad-hoc. Outras 60 deverão ser incorporadas.
Para isso, uma das linhas de atuação da CNV é a pesquisa atualmente desenvolvida por 13 grupos de trabalho que contam 60 pessoas, entre assessores, consultores e pesquisadores ad-hoc. Outras 60 deverão ser incorporadas.
Outra
linha de atuação são as coletas de depoimentos de testemunhas, vítimas e
agentes institucionais. Para isto Já foram realizadas 15 audiências públicas em
oito estados (Goiás, Rio de Janeiro, Pará, Pernambuco, Minas Gerais, Paraná,
Rio Grand do Sul e São Paulo) e no Distrito Federal . Já foram coletados 268
depoimentos e foram levantados 337 novos nomes para depoimentos, dos quais 240
já se sabe que estão vivos e já foram localizados.
A CNV também já assinou 18 Acordos de Cooperação Técnica com Comissões da Verdade Estaduais.
Segundo o integrante da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro, a comissão irá focar o trabalho de investigação é na reconstituição da estrutura dos órgãos de repressão do regime implantado em 1964 e no levantamento das mortes. “A comissão não tem vítimas VIP”, disse, rebatendo críticas e garantindo que a CNV se esforçará para abranger o maior número possível de pessoas afetadas pela ditadura.
Dados apresentados no relatório
A CNV também já assinou 18 Acordos de Cooperação Técnica com Comissões da Verdade Estaduais.
Segundo o integrante da CNV, Paulo Sérgio Pinheiro, a comissão irá focar o trabalho de investigação é na reconstituição da estrutura dos órgãos de repressão do regime implantado em 1964 e no levantamento das mortes. “A comissão não tem vítimas VIP”, disse, rebatendo críticas e garantindo que a CNV se esforçará para abranger o maior número possível de pessoas afetadas pela ditadura.
Dados apresentados no relatório
- Já foram identificadas a existência, à época do regime militar, de 250 estruturas de informação instaladas em ministérios, autarquias, fundações, universidades e empresas públicas. Eram essas estruturas, chamadas de Divisões de Segurança e Informações e Assessorias de Segurança e Informações, que davam capilaridade ao Sistema Nacional de Informações (SISNI), cujo núcleo era o Serviço Nacional de Informações (SNI).
- Só na Divisão de Informações da Petrobras Foram localizados mais de 400 rolos de microfilme. Havia órgãos do tipo nos ministérios da Educação, Saúde, Comunicação, Minas e Energia, Agricultura, Justiça, Relações Exteriores, entre outros.
- O acervo de documentos disponíveis a CNV somam atualmente 19 milhões de página, que devem estar totalmente digitalizadas em julho.
- Há 202 documentos produzidos pela Aeronáutica no Arquivo Nacionalse que se referem à Guerrilha do Araguaia. Já o acervo do SNI teve 695 dossiês selecionados sobre o tema, ultrapassando as 21 mil páginas.
- Os primeiros levantamentos sugerem que cerca de 50 mil pessoas foram presas só em 1964 em operações que visavam localizar pessoas cujos nomes estavam em listas previamente preparadas. Só nos navios presídio “Raul Soares” e “Almirante Alexandrino” estiveram presas cerca de 600 pessoas.
-
Cerca de 3,3 mil latino-americanos chegaram ai Brasil entre 1977 e 1982 em
busca de asilo político. Porém, apenas 1380 teriam conseguido o status de
refugiados e todos eles teriam sido transferidos pelo Acnur a locais “seguros”
a pedido do governo brasileiro, a grande maioria na Europa. 90% deles seriam
argentinos e uruguaios.
- O serviço secreto do Uruguai conseguiu, com ajuda do Brasil e da Argentina, levar de volta para as prisões de Montevidéu 110 refugiados políticos entre 1976 e 1979.
- Um levantamento inicial identificou 97 padres católicos e 3 pastores deportados pelo regime.
- O serviço secreto do Uruguai conseguiu, com ajuda do Brasil e da Argentina, levar de volta para as prisões de Montevidéu 110 refugiados políticos entre 1976 e 1979.
- Um levantamento inicial identificou 97 padres católicos e 3 pastores deportados pelo regime.
-
Há 223 casos já identificados de violação dos direitos humanos contra
camponeses com participação direta ou indireta de agentes da ditadura. Centenas
de outras violações contra camponeses cometidos por fazendeiros, grileiros e
jagunços, sem necessária participação de agentes da ditadura, estão em análise.
-
O Relatório Figueiredo, produzido por uma Comissão de Inquérito Administrativo
do Ministério do Interior, instalada em julho de 1967, é uma das principais
referências sobre violação de direitos e até assassinato de índios durante a
ditadura. O documento tem 7 mil páginas, foi dado por desaparecido por décadas
e foi descoberto por parceiros da CNV, não revelados.
- A CNV está desenvolvendo um sistema próprio de softwares de mineração de textos, destinados a vasculhar as milhões de páginas. Também faz parte do projeto da comissão a construção de um Sistema de Informação, que reunirá, no futuro, o conjunto de informações produzidas, recebidas e pesquisadas pela CNV, tornando-se fonte pública de pesquisa.
- A CNV está desenvolvendo um sistema próprio de softwares de mineração de textos, destinados a vasculhar as milhões de páginas. Também faz parte do projeto da comissão a construção de um Sistema de Informação, que reunirá, no futuro, o conjunto de informações produzidas, recebidas e pesquisadas pela CNV, tornando-se fonte pública de pesquisa.
[http://www.cnv.gov.br/images/pdf/balanco_1ano.pdf]
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O presidente da Comissão Estadual da Verdade do Rio, Wadih Damous,
enviou ao comando do 1ª Batalhão da Polícia do Exército ofício comunicando
que o grupo, a Comissão Nacional da Verdade e organizações de direitos
humanos farão uma visita à unidade militar no próximo dia 21. No local
funcionou, nos anos 1970, o Destacamento de Operações de Informações do
Exército, um dos principais centros de tortura de presos políticos no regime
militar. O objetivo é que, futuramente, seja instituído um centro de memória
no local.
Quando ele chegou ali há 40 anos, fora sequestrado
por um grupo armado. Estava encapuzado, jogado no fundo de um carro, sem
saber para onde estava sendo levado. Hoje de manhã, o jornalista Álvaro
Caldas, ex-preso político, desembarcou do táxi na porta lateral do quartel do
1º Batalhão da Polícia do Exército, que abrigou na Tijuca, Rio, o DOI-Codi
(Destacamento de Operações de Informações-Coordenação de Defesa Interna), um
dos mais famigerados centros de tortura da ditadura pós-64. Como não sabia
chegar lá, Caldas pegou o táxi na Praça Saens Pena.
O DOI foi
criado para unificar o combate àqueles que ousaram entrar para a luta armada
contra a ditadura. Pelo DOI, passaram centenas de prisioneiros -- a maioria
clandestinamente --, onde eram torturados. Entre os mortos ali estão pelo
menos dois nomes da lista de 125 desaparecidos políticos -- Rubens Paiva e
Mário Alves, que foi empalado com um cabo de vassoura.
Então
militante do PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário), uma
dissidência do PCB, Álvaro Caldas era repórter especial do "Jornal do
Brasil" foi um dos primeiros a dar nomes de seus torturadores num livro,
"Tirando o capuz", publicado pela primeira vez em 1981.
-- Sofri
todo tipo de tortura no DOI-Codi, onde fui preso duas vezes. Na primeira vez
fiquei 70 dias totalmente incomunicável e preso clandestinamente. Os cariocas
não têm ideia do que passou aí dentro. Toda vez que passo aqui ainda dá medo
-- contou Álvaro Caldas, em entrevista ao nosso blog.
Se hoje
Álvaro Caldas pode desembarcar de táxi na porta do que foi uma das mais
violentas masmorras da ditadura, em 40 anos as coisas parecem ter mudado
pouco para o Exército, no que se refere à memória política do país.
Integrantes da Comissão estadual da Verdade foram recebidos pelo comandante
do 1º BPE, tenente-coronel Luciano, que explicou que cumpre ordens de não
abrir o quartel para visitação. As ordens são do Comando Militar do Leste,
subordinado ao Exército.O presidente da Comissão, Wadih Damous, disse que
está disposto a ir ao ministro da Defesa, Celso Amorim, convidá-lo para fazer
uma visita à PE. A Comissão quer transformar o local num centro de memória da
ditadura de 64.
-- Essa
proibição é ilegal e antidemocrática -- protestou Damous.
O deputado
federal Ivan Valente (PSOL-SP), que esteve preso no DOI-Codi do Rio de
19 a 29 de julho de 1977, foi se unir ao grupo que queria entrar no quartel,
dessa vez pela porta da frente.
-- Este foi
o centro de tortura mais sofisticado do país na década de 70 -- afirmou Ivan,
que tomou conhecimento da visita por meio de nota publicada na coluna de
Ancelmo Gois anteontem.
-- Eu me
emocionei ao ler a nota e fiz questão de vir -- lembra Ivan.
Estiveram
lá também grupos como Tortura Nunca Mais -- que desde 1985 luta pelo
esclarecimento de crimes praticados por agentes da ditadura, que resultaram
em 500 mortos e desaparecidos em todo o país. Também participaram do ato
ex-presos políticos como Paulo Sérgio Paranhos, de 70 anos -- que esteve no
DOI por três meses, em dezembro de 1969 -- e o ex-fuzileiro naval Emílio
Cavalcanti, de 80 anos, que militou na Aliança Libertadora Nacional (ALN).
Cavalcanti contou que bem antes de 64 o quartel da PE já era conhecido como
um local de torturas. Ele lembra que em 1952 um amigo dele foi preso ali por
participar de manifestações da campanha O Petróleo é Nosso, no governo
Vargas.
A pracinha
que fica em frente à porta lateral do quartel da PE, na Rua Pinto de
Figueiredo, parecia uma daquelas reuniões das mães da Praça de Maio, que
lutam pelo esclarecimento dos desaparecimentos políticos na Argentina.
Participaram jovens do Coletivo Memória, Verdade e Justiça -- entre os quais
há grupos que se dedicam a caçar torturadores do regime militar -- fizeram um
varal cujas bandeirinhas eram fotos e resumo da história de desaparecidos
políticos, muitos deles presos pelo Exército. Ao final do ato, gritaram três
vezes o nome do "camarada Mário Alves", seguido de
"presente".
Foram até a
PE advogados de ex-presos políticos como Marcelo Cerqueira e Modesto da
Silveira, baluartes da democracia quando era praticamente impossível denunciar
as atrocidades do regime militar.
Tanto
Cerqueira como Modesto passaram pelo DOI-Codi como presos políticos.
Cerqueira foi levado para lá em 1965. Modesto conta que ali foi
"psicologicamente torturado", depois de ter sido sequestrado em
1968, logo depois do AI-5, o golpe dentro do golpe. Irônico, Cerqueira chegou
a pedir "dá um choque elétrico aí", ao soldado que montava guarda
na porta principal. A grande dificuldade daqueles advogados à época era
conseguir comprovar que seus clientes estavam presos no DOI-Codi, onde o
filho chorava e ninguém ouvia. Nem mesmo os vizinhos do prédio Esther e
Elias, que fica em frente à Barão de Mesquita 425. No térreo funciona um
cabeleireiro, onde a movimentação no quartel virou a conversa da hora.
--
Moradores mais antigos do prédio contam que o quartel é assombrado pois bem
depois do fim da ditadura ainda se ouvia gritos por lá à noite -- contou uma
das cabeleireiras que, "por via das dúvidas" achou melhor não se
identificar.
Integrantes
da Comissão estadual da Verdade entram no quartel, onde foram recebidos pelo
comandante por dez minutos
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Ex-preso
político nos anos 1970, advogado diz que depoimento de coronel derruba versão
militar de que não houve tortura
Um
dia após exortar, cara a cara, o ex-integrante da repressão política Valter
da Costa Jacarandá a contar o que sabia sobre as torturas na ditadura, o
advogado e ex-preso político José Carlos Tórtima disse que "nada foi
pior" do que o tempo que passou no DOI-Codi do Exército, em 1970. Foram
45 dias marcados por choques elétricos, pau de arara e outras sevícias,
recordou ontem - ainda celebrando a confissão, na véspera, do
coronel-bombeiro da reserva, em sessão conjunta das Comissões Nacional e
Estadual da Verdade, de que torturara e vira torturas quando serviu na
unidade. Aos 67 anos, Tórtima reconheceu que Jacarandá não o torturou.
O que o senhor achou do depoimento de Jacarandá?
O grande
avanço da audiência é que, pela primeira vez, um oficial envolvido nas
torturas reconheceu que elas existiram. E confirmou nomes dos torturadores.
Já não pode mais prevalecer aquela versão que eles propalavam, que nunca
tinha havido tortura.
Como foi sua prisão?
Foi em
1970, na casa dos meus pais, em Ipanema. Eu tinha concluído o 4º ano de
direito na UEG (hoje UERJ), mas já estava clandestino, no PCBR. Fui visitar
meu pai, achando que não era procurado. Mas um cara já tinha caído e falado.
Foi em 24 de fevereiro de 1970. Eu tinha me sentado para almoçar, quando
tocou a campainha. Estavam armados e foram educados.
Não o agrediram?
Não. Foi
uma coisa curiosa. O comandante segredou para minha mãe: "Se a senhora
tiver algum amigo com força nos quartéis, procure, porque lá vai ser muito
duro para seu filho".
O senhor estava armado?
Estava,
mas não reagi, botei a pistola sob o sofá, senão matariam a família toda. Se
fosse na rua, reagiria. E ia matar um cara bom. Mas não me arrependo de nada.
Faria tudo outra vez. Era uma ditadura. Eles começaram a violência.
Quem o torturou?
Os
inspetores Boneschi e Timóteo, da Polícia Civil, o capitão Timóteo, da PM, o
capitão Gomes Carneiro, que me arrebentou um tímpano.
E o major Jacarandá?
Não me
torturou. Acho que estava no DOI. Ontem, vendo-o na audiência, acho que
lembrei. Ele já tinha cabelos brancos, mas não estava careca. Foram 45 dias
no DOI, depois Dops duas semanas e um ano e meio na Ilha Grande. Mas nada foi
pior que o DOI.
Como eram os torturadores?
O mais
ideológico era o Boneschi, anticomunista. Ironicamente, acabou morrendo por
causa disso. Foi como mercenário para Angola, para lutar contra o governo do
MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) e pegou uma doença grave,
nos rins, que o matou.
O que perguntavam?
Nomes e
aparelhos. De mim não arrancaram nada.
Como foi a volta?
Difícil.
Não deixaram voltar à faculdade. Terminei no interior de São Paulo. Estudava
à noite. Formei-me pela Faculdade de Direito de Itu, em 1973. Em 1974, voltei
ao Rio.
Correção
Por um erro de edição, na legenda da foto na reportagem "Militar
da reserva admite tortura em preso da ditadura", publicada na página A9
de ontem, o advogado e ex-preso político José Carlos Tórtima foi identificado
equivocadamente como defensor do coronel da reserva Valter da Costa
Jacarandá. Também por erro de edição, o subtítulo da mesma reportagem afirma
que Jacarandá serviu no Dops, quando, na verdade, serviu no DOI-Codi do Rio
|
http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2011/11/os-infiltrados-da-ditadura.html
Os infiltrados da ditadura
LEONEL ROCHA – Época – 25.11.2013
|
Há 40 anos eles guardam segredos.
Eles fingiram ser militantes de esquerda. Agora, os documentos do Cenimar
revelam quem eram os informantes da ditadura militar
As organizações de esquerda passavam por grandes
dificuldades no segundo semestre de 1969. Com a edição do Ato Institucional nº
5 (AI-5) no final do ano anterior, o governo militar ampliou os instrumentos
legais de perseguição às organizações que combatiam a ditadura. As prisões de
militantes levavam os grupos armados a tentar recrutar mais gente. Em outubro
de 1969, um homem ofereceu serviços de bombeiro hidráulico na Administradora
Bolívar, uma imobiliária de Copacabana. Disse chamar-se Luciano e conseguiu
trabalho com a responsável pela empresa, Maria Nazareth Cunha da Rocha. Bom de
conversa, falava de política enquanto fazia os consertos nos encanamentos.
Nazareth gostou do sujeito. Mais ainda quando ele disse que estivera preso por
ter participado de atividades contra o golpe militar.
Poucos dias depois, em tom confidencial, Nazareth
perguntou se Luciano gostaria de fazer parte de uma organização de luta armada.
A imobiliária Bolívar era, na verdade, uma espécie de condomínio de várias
organizações da luta armada. Reunia a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o
Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), o Movimento Revolucionário
8 de Outubro (MR-8) e a Frente de Libertação Nacional (FLN). No topo, de acordo
com Nazareth, estava Carlos Marighella, líder máximo da Ação Libertadora
Nacional (ALN), que seria morto em São Paulo poucos dias depois, em novembro de
1969. Ela convidou Luciano a integrar um grupo de homens “dispostos a tudo”,
para realizar operações de assalto e sabotagem. Sem titubear, Luciano respondeu
que sim. Militante experiente, na faixa de 40 anos de idade, Maria Nazareth não
sabia, ao fazer o convite, que era enganada. Luciano, o homem que se apresentou
como bombeiro hidráulico, era um agente do Centro de Informações da Marinha, o
Cenimar.
Na vida real, Luciano se chama Manoel Antonio Mendes
Rodrigues. Uma ficha dos arquivos do Cenimar descreve Manoel Antonio, ou
“Luciano”, como um agente remunerado que teve conexões com assaltos a banco e
contatos em várias organizações da luta armada, como FLN, VPR e MR-8. No
serviço secreto da Marinha, consta que ele mantinha contato com vários
oficiais.
O Cenimar grampeou os telefones da Administradora
Bolívar. Os informes da imobiliária eram transcritos à mão em “folhas de
trabalho” do serviço secreto. A infiltração de Luciano nos grupos que operavam
na Administradora Bolívar coincide com a prisão de vários militantes. Dos
arquivos do Cenimar, é possível inferir que ela foi fundamental para a obtenção
de informações que levaram a essas prisões.
Um exemplo: em 26 de novembro de 1969, os espiões
descobriram que o militante Salathiel Teixeira Rolim viajara do Rio para São
Paulo e Curitiba num carro modelo JK, verde, placas GB Z0 5575. Ex-integrante
do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Salathiel entrou para o radical PCBR no
fim da década de 1960. Depois de rastreado pelo Cenimar, foi preso em janeiro
de 1970. Torturado, deu informações que, na avaliação de antigos aliados,
contribuíram para a captura de dirigentes do PCBR. Em 1973, depois de sair da
cadeia, Salathiel foi morto por militantes do PCBR, sob a acusação de que
traíra o partido na prisão.
A infiltração de Luciano resultou também na espionagem
contra um dos mais importantes dirigentes da VPR, Juarez Guimarães de Brito.
Juarez entrara em 1968 para o Comando de Libertação Nacional (Colina),
organização a que pertenceu a presidente Dilma Rousseff. Em julho de 1969,
integrava a VAR-Palmares, organização oriunda da fusão entre Colina e VPR. Foi
Juarez quem comandou no Rio de Janeiro o assalto ao cofre de Ana Capriglione,
amante do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Trata-se do assalto
mais bem-sucedido realizado por um grupo de esquerda durante a ditadura. Ele
rendeu US$ 2,6 milhões aos assaltantes.
No dia 13 de abril de 1970, Luciano relatou aos chefes do
Cenimar que estivera com Juarez num encontro com Maria Nazareth. Ele
telefonou outra vez ao Cenimar no dia 16, para informar que Juarez tinha um
encontro no dia 18 com outro militante da VPR, Wellington Moreira Diniz, na
Rua Jardim Botânico, numa esquina com a rua que “tem a seta indicando Ipanema."
Foto: Arquivo Ag. O Globo)
Manoel Antonio Rodrigues
Bombeiro informante do Cenimar
Infiltrado num esconderijo da esquerda como encanador, ajudou a
desmantelar organizações de esquerda como PCBR, MR-8, FLN e VPR
"Sempre fui ligado à esquerda e estive entre os militares que
defenderam a posse de João Goulart depois da renúncia de Jânio Quadros. Eu
era do Corpo de Bombeiros de Nilópolis. Fui preso e solto algumas vezes. Na
última delas, em 1969, fiquei na Ilha das Flores, no Rio, onde fui
barbaramente torturado durante dois meses. Fui espancado, enfiaram agulhas
embaixo das minhas unhas e arrancaram unhas dos meus pés. Chegaram a ameaçar
abrir meu crânio com talhadeira e marreta. Até um punhal enfiaram no meu
ânus. Aceitei colaborar porque não suportava mais tanto sofrimento. Passei
informações, revelei dados sem muita importância. Mantive contato com Carlos
Lamarca e Carlos Marighella. Eu era da FLN quando fui torturado. Algumas
vezes fui acusado de ser infiltrado, mas tinha avisado o (Joaquim)
Cerveira (chefe dele na FLN) sobre minha situação, e ele me
defendeu de ser justiçado."
|
A direção da VPR não sabia, mas Wellington estava
preso desde o dia 11 de abril. No dia 18, os militares o levaram ao encontro
com Juarez. No horário previsto, Juarez e sua mulher, Maria do Carmo, chegaram.
De imediato, foram cercados por homens armados. Houve tiroteio – e Juarez se
suicidou com uma bala no ouvido. Maria do Carmo foi apanhada viva.
“Não pesa na minha consciência a morte
de companheiros”, diz um infiltrado
ÉPOCA encontrou Manoel Antonio Mendes Rodrigues, o
Luciano, no bairro de Guaratiba, no Rio de Janeiro. Coronel reformado da
Polícia Militar, ele confirmou todas as informações que constam dos documentos
do Cenimar. Disse que passou a colaborar com a Marinha depois de preso e
torturado. Afirmou também que teve três filhos com uma militante de esquerda,
professora da Escola de Belas-Artes, no Rio. Entrou com um processo na Comissão
de Anistia do Ministério da Justiça e foi considerado perseguido político. Não
pediu reparação financeira. “Não pesa na minha consciência que algum
companheiro tenha sido morto por minha causa”, afirma Manoel Antonio.
Esse tipo de atitude fria e desapaixonada não deve
gerar espanto quando se leva em conta o treinamento rigoroso que recebiam os
agentes do Cenimar. Para preservar suas fontes de informação, era preciso que
os agentes mantivessem a discrição e o silêncio perante os demais organismos do
governo e da repressão. Um caso que ilustra bem essa característica foi vivido
em 1968 pelo agente Gilberto de Oliveira Melo, na época com 26 anos.
Gilberto havia sido infiltrado pelo Cenimar em um dos
principais pontos das agitações políticas do Rio de Janeiro nos anos 1960, o
restaurante estudantil Calabouço, um ponto de concentração dos secundaristas
cariocas. Ele participava de protestos e foi preso pela Polícia Militar numa
passeata. Na cadeia, recebeu murros na cabeça e no abdome.Fiel às normas de
segurança dos militares, nada disse sobre sua relação com a Marinha. Depois de
solto, ele começou a sentir tonteiras e lapsos de memória. Esses problemas
foram descritos num documento assinado pelo diretor do Cenimar, capitão de mar
e guerra Fernando Pessoa da Rocha Paranhos, endereçado ao ministro da Marinha (leia
a reprodução abaixo).
(Foto:
Arquivo Ag. O Globo)
Gilberto de Oliveira Melo
O marinheiro e agente duplo
Falso
estudante, ajudou a monitorar manifestações no Rio de Janeiro em 1968. Ele
afirma que não se arrepende de nada do que fez e faria tudo de novo
Entrei na Marinha para fazer o
serviço militar em 1961 e me transformei em soldado profissional. Fui
escolhido para o Cenimar porque tinha excelente disciplina e não questionava
ordens. Eu era louco por realizar ações, principalmente as mais perigosas.
Passava os dias entre os estudantes, jogava pingue-pongue, almoçava no
restaurante e até frequentava algumas aulas. Cheguei a namorar uma colega
que estudava farmácia. Vi o momento em que (o estudante) Édson Luis foi
baleado e morto. Ele não atendeu a meus gritos para que se deitasse no chão
e continuou jogando pedras na polícia. Simpático, não era comunista nem
revolucionário. Na cadeia fui torturado e não podia dizer que era
infiltrado. Fazia parte do disfarce resistir até que outro agente avisasse o
Cenimar. Meus relatos eram feitos à mão todas as noites. Não me arrependo de
nada. Cumpri meu dever como militar e, se fosse chamado hoje, faria tudo
novamente, mesmo com quase 70 anos.
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Paranhos relatou que Gilberto era fuzileiro naval e se
tornara agente do Cenimar em outubro de 1967. Elogiou sua atuação na
identificação de líderes do movimento estudantil. Examinado pela Marinha depois
de apanhar da PM, Gilberto disse que se ferira numa briga, atitude classificada
por Paranhos como “altamente elogiável quanto à segurança”. Os arquivos do
Cenimar guardaram cópias de três fotos do momento em que Gilberto foi preso na
manifestação. Têm também cópias de título de eleitor e carteiras de identidade,
trabalho e de estudante do Instituto Cooperativo de Ensino. “Atua na área
estudantil, é remunerado. Trabalhando na UFRJ como arquivista”, diz o
documento.
O infiltrado Gilberto ficou incomodado
com o vazamento dos documentos secretos
ÉPOCA encontrou Gilberto de Oliveira Melo no Rio de
Janeiro. Ele mora numa casa cheia de grades, parecida com um bunker, no bairro
da Penha. Gilberto leu os documentos do Cenimar e confirmou todas as
informações que constaram deles. Reclamou do vazamento dos arquivos secretos e
se mostrou preocupado em dar entrevista sem autorização da Marinha. Aceitou
conversar com a reportagem, mas não quis ser fotografado. Aos 69 anos, está na
reserva como cabo dos Fuzileiros Navais. Ao longo da conversa, mostrou-se um
abnegado agente secreto, disposto a qualquer sacrifício em nome do Cenimar.
Gilberto brincou dizendo ser “meio doidinho” por causa das sequelas que
precisou tratar. Vive desconfiado – e teme retaliação dos militantes de
esquerda.
Uma atitude também frequente entre os ex-infiltrados é
oposta à de Gilberto. Ele teme retaliação. Outros chegam a exigir reparação e a
pedir indenização do governo por ter sido perseguidos durante a ditadura. Uma
história surpreendente é de Vanderli Pinheiro dos Santos. Quem consulta os
arquivos da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça descobre que Vanderli
foi indenizado pelo Estado em cerca de R$ 234 mil e recebe um benefício mensal
de pouco mais de R$ 3 mil. À comissão, ele afirmou ter entrado para o PCB em
1964, ter treinado guerrilha, mas ter desistido da militância em 1969. Segundo
ele, quando tentava se engajar no Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, foi
preso e torturado no Batalhão de Polícia do Exército em Brasília, acusado de
subversão. Depois de solto, afirmou, não conseguiu emprego e decidiu mudar para
o Rio de Janeiro, onde ficou detido por 30 dias para “averiguações”.
(Foto: Igo Estrela/ÉPOCA)
Clóvis Bezerra
Ex-militante
da ALN
Ele
afirma que sempre desconfiou de Vanderli. Na ocasião, propôs aos
companheiros executá-lo, mas foi voto vencido na organização
vanderli foi o mais grave caso de infiltração policial de que tenho
conhecimento. Desconfiávamos que ele tinha sido recrutado pela repressão
desde antes do golpe militar. Na ALN (Ação Libertadora Nacional),
ele atuou no Rio e no Paraná, onde ajudou a entregar militantes do MR-8. O (Carlos)
Marighella pediu que indicássemos dois militantes para treinar guerrilha em
Cuba. Vanderli foi um dos escolhidos. Semanas depois, ele desistiu e
confirmei minha desconfiança. Propus ao nosso grupo que ele fosse executado,
mas fui voto vencido. Vanderli viu as armas que guardávamos na casa do meu
irmão e nos delatou. Corremos para retirar as armas, mas logo depois a
polícia chegou ao local. Encontrei Vanderli novamente na cadeia e perguntei
por que ele tinha virado informante. Ele me disse, com cinismo, que tinha
sido sacaneado pelo grupo. Depois, encontrei-o como taxista em Brasília. Eu
me recusei a conversar com um traidor. Ele sozinho entregou toda a ALN em
Brasília.
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Quem consulta os arquivos do Cenimar, porém, descobre
que Vanderli foi um infiltrado. Quando uma equipe da Marinha estourou no Rio
quatro esconderijos do MR-8, em 2 de março de 1969, prendeu Vanderli e outros
quatro militantes. Vanderli se apresentou como agente infiltrado do Serviço
Nacional de Informações (SNI). O Cenimar registra que entrou em contato com o
SNI e confirmou a informação. No depoimento à Marinha, Vanderli, então com 25
anos, dizia que, depois de solto, teria condições de se infiltrar num grupo
esquerdista de Brasília.
O agente duplo Vanderli obteve
indenização de R$ 234 mil como perseguido político
ÉPOCA investigou a vida de Vanderli no Distrito
Federal. Antigos militantes de esquerda afirmam tê-lo conhecido. Desde os
tempos de clandestinidade, pesavam sobre Vanderli suspeitas de que ele
trabalhava para a repressão. “Vanderli sozinho entregou toda a ALN de
Brasília”, afirma Clóvis Bezerra, ex-militante da organização. ÉPOCA tentou
entrevistar Vanderli nas últimas semanas, sem sucesso. Ele tem uma chácara na
periferia de Brasília e, segundo um vizinho, trabalha com táxi. Quando a
reportagem conseguiu contato com Vanderli pelo telefone e disse que pretendia
conversar sobre os tempos da ditadura, ouviu a seguinte pergunta: “Como você
conseguiu meu telefone?”. Vanderli disse então que voltaria a ligar em seguida.
Nunca mais ligou nem atendeu os telefonemas.
Os documentos secretos do Cenimar revelam que a
extensão da infiltração dos órgãos militares nas organizações de esquerda ia
além do nível da militância e muitas vezes chegava à cúpula. A pasta número 7
dos arquivos, sob o título “Documentos de Pessoas Efetivamente Registradas no
Cenimar” e o timbre do Ministério da Marinha, afirma que Alvaro Bandarra,
integrante da alta cúpula do PCB em São Paulo, trabalhou para a ditadura. Ele aparece
com o nome falso “Nicolau” e é identificado pelo código KT-67. A ficha de
Bandarra o descreve como comunista ligado ao PCB desde 1947. Ele nasceu em
Santos em 1926, candidatou-se a vereador em 1947 e, no mesmo período,
participou da campanha O petróleo é nosso. No pé da página, uma
observação manuscrita registra o dia 9 de outubro de 1968 como a data a partir
da qual ele passou a colaborar com a repressão.
O filho considera “improvável” que
Bandarra tenha ajudado a ditadura
Bandarra ocupava um posto estratégico na estrutura do
PCB. Usava o codinome “Machado” e era integrante do comitê municipal em Santos
e do comitê estadual em São Paulo. Um relatório interno do partido diz que ele
era dono de uma livraria em Santos. Mantinha contatos frequentes com Walter
Ribeiro, integrante do comitê central do PCB que usava o codinome “Beto”, hoje
desaparecido. O documento interno não faz nenhuma acusação direta a Bandarra,
mas afirma que, pela quantidade de prisões ocorridas no Estado, parecia que a
polícia tinha um informante específico para o comitê de São Paulo. O relatório
diz ainda que Bandarra, depois de uma reunião do comitê central em novembro de
1973, foi chamado a prestar esclarecimentos à polícia de Santos. Indiciado como
dirigente comunista, não foi condenado.
DUPLA MILITÂNCIA
O comunista Alvaro Bandarra, numa foto de 1984. Ele foi integrante da cúpula do
PCB e, segundo os documentos, trabalhou para a repressão da ditadura (Foto:
Arquivo Ag. O Globo)
ÉPOCA localizou um filho de Alvaro Bandarra. Ele tem o
mesmo nome do pai, que já morreu. Alvaro Bandarra Filho diz que considera
“improvável” que o pai tenha colaborado com a repressão durante a ditadura. “A
família foi orientada pelo meu pai a não revelar as reuniões políticas que
aconteciam na minha casa”, afirma.
A vida dos infiltrados era cheia de medo, dúvida e
tensão. Todos esses ingredientes estão presentes na correspondência da
militante Maria Thereza Ribeiro da Silva. Primeiro, suas cartas foram
interceptadas pelo Cenimar. Depois, ela acabou aliciada como informante. “Estou
desesperada. Acabo de me convencer, com os últimos acontecimentos lidos nos
jornais, que dentro em breve serei presa”, escreveu ela em 1o de agosto de
1969, numa carta manuscrita a uma amiga, Odete. Maria Thereza disse ter sido
iludida pela organização de esquerda em que militava (o PCBR) e que não tinha
dinheiro para quitar uma nota promissória. “Entre outras coisas, cheguei a
comprar dois carros em nome de um motorista conhecido meu, de nome Bispo, com
dinheiro fornecido por Salathiel.” Três dias depois de escrever a carta, Maria
Thereza foi presa por agentes do Cenimar. Um manuscrito do Cenimar com data de
4 de agosto de 1969 registra um acordo feito com ela (leia o texto abaixo).
No primeiro dia, a militante aliciada pela Marinha recebeu 100 cruzeiros novos.
No Cenimar, ela ficou conhecida pelo código RK-33 e
pelos nomes falsos “Renata” e “Lindolfo”. Os contatos com o serviço secreto
eram feitos por meio do capitão de corveta “Alfredo”. Três anos e meio depois
do acordo com o Cenimar, Maria Thereza enviou uma carta a “Alfredo”, datada de
26 de fevereiro de 1973 e assinada por “Renata”. Ela reclama das dificuldades
que tem para sustentar a filha, “Dominique”, e ajudar os pais com o dinheiro
que ganha com uma pensão alimentícia e com o pagamento do Cenimar. No total,
recebe Cr$ 1.270 (leia no quadro abaixo). Para equilibrar o orçamento,
pede que o Cenimar aumente seu salário.
Maria Thereza comprou dois carros para
as ações armadas do PCBR
ÉPOCA não conseguiu entrevistar Maria Thereza. O nome
dela aparece em cadastros do governo federal, mas seu endereço na periferia do
Rio não foi encontrado. Ex-militantes do PCBR procurados não se lembraram dela.
A ex-colaboradora da Marinha permaneceu nas sombras mesmo depois do fim da
ditadura. Como seria de esperar de um agente secreto.
Estádio do Botafogo foi campo de
concentração, diz advogado
Por Redação da RBA – 12.12.2012
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Em sessão na OAB do Rio de
Janeiro, Comissão Nacional da Verdade ouviu 11 advogados ligados a presos
políticos durante a ditadura
Depoimento à Comissão da Verdade lembrou que o Estádio Caio Martins, em Niterói, foi usado como prisão pelo regime militar (CC/TAdvisor)
São Paulo – Relatos da existência de uma espécie de campo de
concentração do período da ditadura militar (1964-85) foram ouvidos na
terça-feira (11) na sessão solene em que a Comissão Nacional da Verdade (CNV)
tomou depoimentos de advogados de presos políticos do período. O advogado
trabalhista Manoel Martins afirmou em seu depoimento que, em abril de 1964, os
defensores das reformas de base do ex-presidente João Goulart foram presos num
campo de concentração montado no estádio Caio Martins, em Niterói. O estádio
pertence ao governo do Estado do Rio e é arrendado pelo Botafogo desde os anos
1980.
A sessão foi realizada na sede da Ordem dos Advogados do Brasil,
sessão Rio de Janeiro (OAB-RJ), e contou com a presença dos membros da CNV Rosa
Cardoso e Claudio Fonteles. Os depoimentos colhidos na sessão serão usados pelo
grupo de trabalho que estuda o funcionamento da Justiça Militar, chamado
Ditadura e Sistema de Justiça.
Segundo o advogado, cerca de 1.800 pessoas foram presas no
estádio. “Durante 18 dias, o Caio Martins foi o terror implantado. Para ir ao
banheiro, íamos acompanhados por um soldado com metralhadora", contou.
"Éramos professores, operários e camponeses, muitos evangélicos e
Testemunhas de Jeová. As pessoas chegavam em caminhões", relembrou.
Foram ouvidos 11 advogados, entre eles o ex-deputado federal
Antônio Modesto da Silveira, conselheiro da Comissão de Ética Pública da
Presidência da República, e Eny Moreira, uma das idealizadoras do projeto
Brasil, Nunca Mais, pesquisa que estudou a repressão militar a partir de documentos
e processos políticos da época.
Silveira lembrou das detenções que, muitas vezes, os advogados
sofriam como forma de intimidação. “Uma forma de pressão, nos ameaçando, no
sentido de que não defendêssemos mais presos políticos.” Eny se emocionou ao lembrar
de ver o corpo de sua cliente Aurora Maria Nascimento Furtado, mutilado pelas
torturas sofridas logo após a militante ter sido presa, em novembro de 1972.
O advogado Alcione Barreto contou sobre a dificuldade que
enfrentava para conseguir obter exame de corpo de delito para um preso
torturado. "Os advogados pareciam pingos d'água, que, de tanto bater na
pedra, a furaram. A pedra era a ditadura", afirmou.
A membro da CNV Rosa Cardoso também deu seu depoimento, já que
também advogou para presos políticos na ditadura. Ela lembrou do companheirismo
na luta dos defensores da época. “Viva nosso passado, nosso companheirismo,
nossa eterna solidariedade, nossa eterna amizade.”
Com informações do site da CNV

















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