As ações da CIA no Brasil
Ex-diretor da PF efetuou extradições ilegais
a pedido do departamento antidrogas dos EUA
Depoimento de ex-agente puxa as investigações
IKILEAKS PLUS D
EUA fizeram lobby
pró-censura durante governo militar
Os EUA e a Ditadura
Todos os textos
|
As ações da CIA no Brasil 14/12/2011
|
Os arquivos secretos da Marinha revelam como o serviço
secreto americano mantinha informantes infiltrados entre os comunistas
brasileiros
LEONEL ROCHA,
EUMANO SILVA E LEANDRO LOYOLA
O AGENTE
Manoel
dos Santos Guerra Júnior, de 79 anos, em seu apartamento e documentos do
Cenimar com sua história (abaixo).
O Cenimar o trata como informante da repressão brasileira e da CIA. Ele nega
tudo (Foto: divulgação)
Nos tempos da Guerra Fria, a atuação agressiva dos
serviços secretos era um meio de ultrapassar as fronteiras da “cortina de
ferro”, expressão usada para designar a divisão do mundo em áreas de influência
dos Estados Unidos e da extinta União Soviética. Espiões infiltrados em
governos, partidos e grupos armados tiveram participação determinante em muitos
fatos históricos daquele período. A aura de mistério em torno dos agentes
secretos criou mitos e inspirou o cinema e a literatura policial. Esse ambiente
que mistura lendas e segredos de Estado forneceu farto material para denúncias
e especulações sobre a influência da Central Intelligence Agency (CIA), o
serviço secreto dos Estados Unidos, em acontecimentos relacionados à ditadura
militar instalada em 1964.
Os arquivos secretos da Marinha obtidos com
exclusividade por ÉPOCA ajudam a entender a nebulosa relação dos governos
militares brasileiros com a agência de espionagem americana. Esta segunda
reportagem sobre o conteúdo de mais de 2 mil páginas produzidas pelo Centro de
Informação da Marinha (Cenimar) torna públicos, pela primeira vez, documentos
da ditadura que comprovam o envolvimento direto de agentes da CIA em fatos
ocorridos no Brasil antes e depois do golpe de 31 de março. Nos arquivos do
Cenimar, a que ÉPOCA teve acesso, aparecem descritos dois casos de aliciamento
de militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o “Partidão”, pela CIA. Um
deles, um ano antes da tomada do poder pelos militares, informação que reforça
a tese de envolvimento da CIA na preparação do golpe de 1964. Em março de 1963,
segundo os documentos, Manoel dos Santos Guerra Júnior, o Guerrinha, militava
no PCB quando recebeu a visita de um estrangeiro. De acordo com a versão
documentada pelo Cenimar, o desconhecido falava com sotaque e se apresentou
como agente da CIA. Sem fazer cerimônias, convidou o dono da casa para
trabalhar como informante remunerado da agência americana.

Aos 30 anos, Guerra Júnior conhecia o PCB por dentro.
Filho de um veterano comunista, tinha contatos com dirigentes estaduais do
partido e atuava no comitê universitário. Sua primeira reação à oferta, dizem
os documentos, foi dizer não. Em outro encontro, o visitante disse que fez a
abordagem porque sabia que Guerra Júnior, em troca de dinheiro, colaborava havia
algum tempo com o Cenimar e com o Conselho de Segurança Nacional (CSN), órgão
de assessoramento direto do presidente da República. A revelação feita pelo
visitante quebrou a resistência do brasileiro, de acordo com o relato do
Cenimar. Guerra Júnior, afirma o documento, passou a trabalhar para a CIA com
salário mensal de 60 mil cruzeiros, mais o aluguel de um apartamento e um
emprego formal.
O caso narrado acima ficou registrado em um relatório
de cinco páginas do Cenimar, produzido em 1964 e rebatido à máquina em abril de
1970. Para ter uma ideia do tratamento especial dado a essas informações,
trata-se de um dos poucos documentos com tarja de “ultrassecreto” no material
do Cenimar. Esses documentos fazem parte de um pacote de papéis identificado como
Operação Master. A curiosa história de Guerra Júnior é contada em detalhes no
texto produzido pela Marinha. Antes de ser aliciado pela CIA, Guerra Júnior
recebia por mês, de acordo com o documento, 10 mil cruzeiros do Conselho de
Segurança e 20 mil cruzeiros do Cenimar. Ele se tornou, segundo o Cenimar, um
militante comunista e triplo agente secreto. O documento diz que o Cenimar
continuou remunerando Guerra Júnior mesmo depois que ele passou a trabalhar
para a CIA e para o Conselho de Segurança.
saiba
mais:
Ver em: 1964-Repressão
|
Advogado, Guerra Júnior hoje tem 79 anos e mora num
apartamento de classe média em Copacabana, no Rio de Janeiro. Em entrevista a
ÉPOCA, ele negou ter sido agente da CIA, do CSN e do Cenimar, embora tenha
confirmado o uso do apartamento e o nome de pessoas com as quais mantinha
relações. “Estas acusações são um absurdo”, diz Guerra Júnior. “Nunca fui
informante e também não é verdade que eu tenha tido emprego no CSN. Estas
informações são uma falsificação. Estes relatórios devem ter sido forjados por
organizações anticomunistas para justificar a verba que recebiam do exterior”,
afirma o advogado. Guerra Júnior diz ter sido integrante do PCB desde os 19
anos, alinhado com as orientações de Luiz Carlos Prestes, como o pai. Afirma
ainda que, por causa da militância, esteve preso duas vezes. “Disseram no
partido que eu era policial e, por isso, me afastei da militância depois do
golpe. Eu me senti ameaçado”, diz.
Ele
(agente da CIA) disse que queria informações. Eu disse que não podia fazer o
trabalho "
Armênio Guedes, ex-dirigente do PCB
Os documentos da Operação Master reúnem informações
sobre o período de 1963 até 1973. As relações do aparato de informação montado
pelo regime militar no Brasil com a CIA nessa década permaneceram até hoje
obscurecidas pela falta de documentos. O segundo caso relacionado à presença da
CIA no Brasil registrado pelos arquivos da Marinha expõe detalhes dessa
cooperação. No dia 3 de dezembro de 1972, o Jornal do Brasil publicou
uma entrevista de página inteira com um homem de 43 anos que se apresentou como
“Agente Carlos” e disse ter sido durante mais de dez anos colaborador direto de
Luiz Carlos Prestes, secretário-geral e líder máximo do PCB. Ele afirmou que
procurara o jornal para denunciar as “maquinações do Movimento Comunista
Internacional”. Sem revelar sua verdadeira identidade, relatou como o PCB
funcionava na clandestinidade e deu detalhes sobre as conexões com a União
Soviética e com os partidos comunistas da América Latina. Boa parte das
declarações do “Agente Carlos” se referia às movimentações de Fued Saad,
dirigente do PCB responsável pela seção de relações exteriores do partido, e de
Prestes, na época exilado em Moscou. O “Agente Carlos” disse ter-se arrependido
da militância comunista depois de duas décadas no partido. Também afirmou que,
durante muito tempo, foi assediado para se tornar informante no Brasil da KGB,
o serviço secreto soviético. Deu também o nome de dois agentes da KGB no
Brasil, Nikolai Blagushin e Victor Yemelin. Quatro dias depois da entrevista, o
JB publicou a identidade verdadeira do denunciante. O “Agente Carlos” se
chamava Adauto Alves dos Santos, integrante da seção de relações exteriores do
PCB e auxiliar direto de Prestes.

“AGENTE CARLOS”
Acima,
reprodução de reportagem do Jornal do Brasil, de 1972, em que Adauto dos
Santos, militante do PCB, denunciava as conexões internacionais do Partidão.
Segundo os documentos do Cenimar, a entrevista foi arquitetada com a
participação da CIA (Foto: reprodução)
A atitude de Adauto ao buscar o jornal intrigou alguns
dirigentes do PCB. Eles suspeitaram que a CIA tivesse participação no
aparecimento público do auxiliar de Prestes. Naqueles anos, vários integrantes
da cúpula do partido haviam sido procurados por agentes americanos, mas não
havia provas da ação da CIA no episódio. Os arquivos da Marinha sugerem que a
entrevista do “Agente Carlos” tenha sido orientada pela CIA. No dia 15 de
setembro de 1972, um dos principais oficiais do Cenimar enviou ao então diretor
do órgão, almirante Joaquim Coutinho Neto, dois documentos sobre a Operação
Sombra, ambos relacionados à entrevista de Adauto. Um dos papéis tem o timbre
do SNI e a inscrição “Presidência da República”. Em cinco páginas manuscritas,
relata a formação de dois grupos de trabalho, um em Brasília e outro no Rio,
ambos com representantes do SNI, do Cenimar e da CIA. O grupo do Rio tinha a
missão de, entre outras medidas, criar condições para ouvir, com toda a
segurança e sigilo, o “elemento infiltrado” pela CIA no Movimento Comunista
Internacional (MCI). O homem foi tratado como “Sr. Sombra”. O plano relatado no
documento incluía uma entrevista aos meios de comunicação para denunciar as
“manobras do MCI”. Foi o que aconteceu nas páginas do Jornal do Brasil menos
de três meses depois.
Um relatório preparado para o almirante Coutinho diz
que o “informante” foi entrevistado pelo Cenimar na presença de um
representante da CIA. O nome de Adauto, ou do “Agente Carlos”, não é citado no
documento, mas o cruzamento das informações do Cenimar com a reportagem do Jornal
do Brasil sugere que se trata da mesma pessoa. As referências ao comunismo
internacional, à política latino-americana e ao comunista Fued Saad e à KGB são
coincidentes. O “informante” também fala ao Cenimar de Nikolai Blagushin e
Victor Yemelin, os dois soviéticos que mantinham contato com o PCB no Brasil
ELE DISSE NÃO
Armênio
Guedes em sua casa, em São Paulo. Ele afirma que recebeu proposta para ser
informante da CIA. Rejeitou. Depois foi enviado ao Chile pelo PCB
(Foto: Rogério Cassimiro/ÉPOCA )
A aparição pública de Adauto cumpriu um cronograma
recusado por outros comunistas. Um dirigente do partido, Armênio Guedes, hoje
com 88 anos e residente em São Paulo, diz que certa vez foi procurado por um
sujeito com aparência de latino que, na opinião dele, era da CIA. “Ele me disse
que sabia de minhas divergências com a ala do partido que defendia a luta
armada e gostaria de informações. Assustado, eu disse que não podia fazer o
trabalho. Alguns dias depois, por segurança, a direção do partido me mandou
para o Chile”, afirma Guedes. Outro antigo dirigente do PCB, Givaldo Siqueira,
afirma que sabia da infiltração da CIA no partido desde antes do golpe. “Os
companheiros que eram abordados pela CIA e nos avisavam eram mandados para o
exterior, mas não sabíamos de todos que eram procurados”, diz Siqueira.
Um fato ocorrido em 1987 deixou os comunistas ainda
mais intrigados. Durante uma comemoração na Embaixada da União Soviética em
Brasília pelos 70 anos da revolução russa, o dirigente comunista Salomão Malina
reconheceu Adauto dos Santos entre os presentes. Revoltado, Malina pediu aos
integrantes do PCB que se retirassem com ele. No dia seguinte, três
representantes do partido estiveram na embaixada para pedir explicações. Não
tiveram resposta. Na cúpula do “Partidão” ficou a suspeita de que Adauto também
fora agente da KGB, além de informante da CIA. ÉPOCA tentou localizar Adauto em
Brasília, em seu último endereço conhecido, mas o porteiro do prédio disse que
ele não morava mais no local.
OS CANAIS OFICIAIS
O
presidente Castello Branco (à esq.)
cumprimenta o embaixador dos EUA, Lincoln Gordon, em Brasília, em 1964. Gordon
sempre sustentou que a atuação dos EUA no golpe de 1964 resumiu-se a medidas
para retirar cidadãos americanos do Brasil
(Foto: arq. AE)
O envolvimento dos Estados Unidos com a ditadura
brasileira pouco aparece em documentos oficiais. Registros revelam que, desde
1962, a CIA informava o governo americano das movimentações militares e civis
contra o governo João Goulart. Os americanos negam ter participado diretamente
do golpe que derrubou o presidente João Goulart em 1964 e colocou o marechal
Humberto Castello Branco no poder – embora tenham mobilizado navios de guerra e
petroleiros rumo ao litoral brasileiro no episódio conhecido como Operação
Brother Sam. Numa carta escrita ao historiador Ronaldo Costa Couto, chefe da
Casa Civil no governo José Sarney, o embaixador dos EUA no Brasil na ocasião do
golpe, Lincoln Gordon, disse que o objetivo da frota era ajudar cidadãos
americanos a deixar o Brasil se eclodisse uma guerra civil. “Estes arquivos da
Marinha são fundamentais para o esclarecimento do passado recente do Brasil”,
afirmou Costa Couto a ÉPOCA.
O historiador americano Peter Kornbluh, analista do Arquivo
de Segurança Nacional dos EUA, afirma que até hoje não haviam aparecido
documentos com referências diretas à contratação pela CIA de agentes no Brasil.
“Sabemos que existiram operações secretas da CIA na América Latina”, afirma
Kornbluh. “Mas não conheço documentos que mostrem atividades assim no Brasil.”
Os documentos revelados por ÉPOCA, segundo Kornbluh, podem suscitar novas
buscas nos arquivos da CIA. “Com esses papéis, podemos tentar desclassificar
documentos da CIA (referentes a essas atividades no Brasil)”, diz.
Segundo ele, é um processo longo, que pode demorar entre quatro e cinco anos.
A REDE
Um dos poucos documentos ultrassecretos
do Cenimar afirma que havia uma rede de espionagem da CIA funcionando em
território nacional antes do golpe militar de 1964
O CONVITE
O texto diz que Manoel dos Santos Júnior
foi procurado por um estrangeiro e recebeu proposta para trabalhar como
informante da CIA no Brasil em março de 1963
A ASSOCIAÇÃO
Documento do SNI, arquivado no Cenimar, trata da associação dos serviços
secretos brasileiro e americano. Diz o texto: “Organizar dois grupos de
trabalho com elementos do SNI, CIA e Cenimar”
Documento do Cenimar para o ministro da
Marinha informa sobre a Operação Sombra. A operação foi a entrevista de Adauto
dos Santos ao JB, denunciando atividades dos comunistas
JUNTOS
O
texto afirma que agentes do Cenimar falaram com Sombra junto com um agente da
CIA
|
Depoimento de ex-agente
puxa as investigações 22.8.2013
|
|
Suspeitas de envenenamento crescem - mesmo
sabendo-se que o ex-presidente João Goulart era cardiopata - à medida que
informações vão dando conta da atuação de químicos a serviço das ditaduras
sul-americanas, do envolvimento de agentes ligados à CIA e ao FBI (entre
eles, Michael Townley, hoje em programa de proteção a testemunhas nos EUA) e
de mortes em sequência, com características análogas - como a do poeta
chileno Pablo Neruda, em 1973, exumado e hoje sob perícia. Para o filho de
Jango, João Vicente Goulart, deve-se ir atrás das conexões em torno do que
pode ter sido um programa de assassinatos seletivos nos anos 70.
"É fundamental solicitar documentação disponível nos países
implicados, não só Brasil, mas Argentina, Uruguai, Estados Unidos e fazer as
oitivas devidas. A família, com toda a dignidade e dor, autoriza a perícia.
Mas a exumação não é um fim em si mesmo, é um meio para chegar à
verdade", salienta. Em 2007, a família entrou com pedido de investigação
junto ao MP depois de tomar conhecimento das revelações de Mario Neiva
Barreiro. Ex-agente uruguaio, preso na Penitenciária de Charqueadas (RS),
Barreiro relatou o que seria um plano para eliminar Jango no exílio, com
participação do delegado Sergio Fleury, do DOPS de São Paulo: apenas uma
cápsula do vidro de remédios do ex-presidente seria subtraída e substituída
por outra contendo um composto com três substâncias letais.
Jango vestia, pijama quando seu corpo foi colocado no caixão, que não
mais seria aberto. Houve embates dentro do regime militar no Brasil sobre
autorizar o enterro em solo pátrio. Documentos liberados nos EUA apontam
participação americana nos fatos, inclusive envolvendo o então chefe do Departamento
de Estado, Henry Kíssinger, já arrolado como testemunha pela família Goulart
na representação no MP./L.G.
|
Ex-diretor da PF efetuou
extradições ilegais a pedido do departamento antidrogas dos EUA
|
Documentos
mostram que o ex-diretor da PF, general Caneppa, tido como um dos primeiros
líderes da Condor, efetuou prisões e extradições ilegais a pedido do
departamento anti-drogas americano. Ele já aparecia nas listas de torturadores
da ditadura, feitas a partir de documentos e denúncias de presos políticos. Por
Marina Amaral, da Agência Pública
Marina
Amaral – Agência Pública
No
dia 17 de outubro de 1973, o embaixador americano no Brasil, John Crimmins,
escreveu um telegrama confidencial urgente ao Departamento de Estado chefiado
por Henry Kissinger. A aflição do embaixador é evidente ao se referir à
inesperada chegada ao país de uma equipe de inspeção do GAO (US Government
Accountability Office) – agência ligada ao Congresso americano, criada em 1921
e ainda em atividade – com a missão de investigar a adequação e legalidade das
atividades das agências federais financiadas pelo contribuinte americano.
Inicialmente marcada para o dia 3 de novembro, a antecipação da visita – que
desembarcaria na noite do mesmo dia 17 no Brasil – deixou o embaixador em
polvorosa. O objetivo da missão era auditar o programa antidrogas desenvolvido
pela DEA – Drug Enforcement Administration – no país.
Criada
pelo presidente Richard Nixon em julho de 1973, com 1.470 agentes e orçamento
de 75 milhões de dólares, para unificar o combate internacional antidrogas,
hoje a DEA tem 5 mil agentes e um orçamento anual de 2 bilhões de dólares.
Embora mantivesse escritórios em nove países e representantes nas missões
diplomáticas americanas ao redor do mundo (ainda hoje a DEA tem escritórios na
embaixada em Brasília e no consulado de São Paulo), desde 1969, quando ainda
atendia pelo nome de BNDD (Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs), a missão
da DEA sempre foi “lidar com o problema das drogas, em ascensão, nos Estados
Unidos”. Sua relação com os outros países, ao menos oficialmente, não previa o
combate às drogas em cada um deles; o objetivo era impedi-las de chegar à
população americana.
Por que então Crimmins estava tão preocupado com a chegada inesperada da equipe
de auditoria ao Brasil? Ele explica no mesmo telegrama a Henry Kissinger: “Os
oficiais da embaixada pedem instruções sobre quais os documentos dos arquivos
da DEA e do Departamento do Estado, relativos a drogas, devem ser liberados
para a equipe do GAO”, escreveu. “Especificamente pedimos orientação sobre os
seguintes assuntos: a) os planos de ação antidrogas, levando em conta que nem
toda a estratégia sugerida nesses documentos foi aprovada pelo Comitê
Interagências (Interagency Commitee) em Washington; b) tortura e abuso durante
o interrogatório de prisioneiros; c) o centro de inteligência da Polícia
Federal; d) os arquivos de informantes, incluindo os registros de pagamentos;
e) operações confidenciais e telegramas de inteligência; f) operações
clandestinas, incluindo a transferência de Toscanino do Uruguai ao Brasil; g)
documentos de planejamento das alfândegas brasileiras e do departamento de
polícia federal”, detalha.
A
resposta de Kissinger não consta da base de dados do National Archives (NARA)
reunidos na Biblioteca de Documentos Diplomáticos do WikiLeaks, mas a julgar
por outros documentos, havia sim motivos para se preocupar. Pelo menos em
relação ao único caso específico ali referido: a transferência de Toscanino do
Uruguai para o Brasil.
Quatro
meses antes da chegada dos auditores do GAO ao Brasil, Francisco Toscanino,
cidadão italiano, foi condenado junto com mais cinco réus pelo tribunal de júri
de Nova York, em junho de 1973, por “conspiração para tráfico de drogas”. De
acordo com uma testemunha presa, que estava colaborando com a polícia em
sistema de delação premiada, Toscanino, que morava no Uruguai, estava indicando
compradores, em solo americano, para uma carga de heroína enviada de navio e
parcialmente flagrada por agentes infiltrados da DEA nos Estados Unidos.
Sequestrado no Uruguai, torturado no Brasil, extraditado aos EUA
Em
maio de 1974, porém, Toscanino entrou com recurso na Segunda Instância da Corte
de Apelação dos Estados Unidos, alegando que sua prisão havia sido ilegal, de
acordo com a legislação americana, por ter se baseado em monitoramento
eletrônico irregular no Uruguai. Mais do que isso: ele foi sequestrado no
Uruguai e torturado no Brasil antes de ser extraditado aos EUA sem comunicação
prévia a autoridades italianas.
Os detalhes estarrecedores dessa história, reproduzidos no documento da corte
parecerão estranhamente familiares aos que conhecem as ações da Operação Condor
– a articulação da repressão política nesse mesmo período entre ditaduras
militares na América Latina. Com exceção, talvez, da preocupação em não deixar
marcas de tortura.
“No
dia 6 de janeiro de 1973, Toscanino foi tirado de sua casa em Montevidéu por um
telefonema, que partiu dos arredores ou do endereço de Hugo Campos Hermedia [na
verdade, Hugo Campos Hermida]. Hermedia era – e ainda é – membro da polícia em
Montevidéu. Mas, segundo a alegação de Toscanino, Hermedia estava atuando ultra
vires [encoberto] como agente pago do governo americano. A chamada telefônica
levou Toscanino e sua mulher, grávida de 7 meses, a uma área próxima de um
boliche abandonado em Montevidéu. Quando chegaram lá, Hermedia e seis
assistentes sequestraram Toscanino na frente da mulher aterrorizada, deixando-o
inconsciente com uma coronhada e o jogando na traseira do carro. Depois,
Toscanino – vendado e amarrado – foi levado à fronteira do Brasil por uma rota
tortuosa”.
Segue o documento: “Em um certo momento durante a longa viagem até a fronteira
brasileira houve uma discussão entre os captores de Toscanino sobre a necessidade
de trocar as placas do carro para evitar sua descoberta pelas autoridades
uruguaias. Em outro ponto, o carro estancou subitamente e ordenaram que
Toscanino saísse. Ele foi levado para um lugar isolado, onde o mandaram deitar
sem se mexer ou atirariam nele. Embora a venda o impedisse de ver, Toscanino
conseguia sentir a pressão do revólver em sua cabeça e ouvir os ruídos do que
parecia ser um comboio militar uruguaio. Quando o barulho se afastou, Toscanino
foi colocado em outro carro e levado à fronteira. Houve combinações e, mais uma
vez, com a conivência dos Estados Unidos, o carro foi tomado por um grupo de
brasileiros que levaram Francisco Toscanino (…).”
“Sob custódia dos brasileiros, Toscanino foi conduzido a Porto Alegre onde
permaneceu incomunicável por 11 horas. Seus pedidos de comunicação com o
consulado italiano e com a família foram negados. Também não lhe deram comida
nem água. Mais tarde, no mesmo dia, Toscanino foi levado à Brasília, onde por
17 dias foi incessantemente torturado e interrogado. Durante todo esse tempo, o
governo dos Estados Unidos e a promotoria de Nova York, responsável pelo
processo, tinham ciência – e inclusive recebiam relatórios – do desenrolar da
investigação. Além disso, durante o período de tortura e interrogatório um
membro do Bureau of Narcotics and Dangerous Drugs, do Departamento de Justiça
dos Estados Unidos, estava presente em um ou mais intervalos e, na verdade,
chegou a participar de partes do interrogatório. Os captores de Toscanino o
privaram de sono e de qualquer forma de alimentação durante dias. A nutrição se
dava por via intervenosa apenas para mantê-lo vivo. Assim como relatam nossos
soldados que voltaram da Coréia e da China, Toscanino era forçado a andar para
baixo e para cima por sete ou oito horas ininterruptas. Quando ele não
conseguia mais ficar em pé, era chutado e espancado de forma a não deixar
marcas. Se não respondia às perguntas, seus dedos eram esmagados com grampos de
metal. Jogavam álcool em seus olhos e nariz, e outros fluidos eram introduzidos
em seu ânus. Inacreditavelmente, os agentes do governo americano prenderam
eletrodos nos lóbulos de suas orelhas, dedos e genitais e deram choques
elétricos o deixando inconsciente por períodos que não consegue precisar mas,
novamente, sem deixar marcas.”
“Finalmente, no dia 25 de janeiro de 1973, Toscanino foi levado ao Rio de
Janeiro onde foi drogado por agentes brasileiros e americanos e colocado no vôo
202 da Pan American Airways (…). Acordou nos Estados Unidos no dia 26 de
janeiro, quando foi oficialmente preso dentro do avião e levado imediatamente a
Thomas Puccio, assistente do procurador geral dos Estados Unidos. Em nenhum
momento durante a captura de Toscanino o governo americano sequer tentou a via
legal. Agiu do início ao fim de maneira ilegal, embarcando deliberadamente em
um esquema criminoso de violação de leis de três países diferentes”.
Hermida, o Fleury do Uruguai, e o nosso general Caneppa
Hugo
Campos Hermida era uma espécie de Fleury uruguaio. Embora a ditadura naquele
país só tenha se instalado em junho de 1973, portanto quando Toscanino já havia
sido condenado nos EUA, Hermida era o chefe da chamada Brigada Gamma, um
esquadrão da morte uruguaio que matava desde traficantes até tupamaros – os
guerrilheiros de esquerda que atuavam antes do golpe final. Hermida também foi
treinado nos Estados Unidos – inclusive pela DEA, como mostram outros
documentos do projeto PlusD. Oficialmente, era chefe da Brigada de Narcóticos
da Dirección Nacional de Información e Inteligencia (DNII), organismo criado em
colaboração com os Estados Unidos no Uruguai. O jornal La República, do
Uruguai, levantou documentos no Arquivo do Terror, no Paraguai, que comprovaram
a participação de Hermida no “ninho da Condor”, a Automotores Orletti, em
Buenos Aires, um centro de tortura que tinha como fachada uma oficina mecânica.
Do lado brasileiro, o diretor do Departamento de Polícia Federal – também
montada e armada pelos americanos desde os primórdios – era o general Nilo
Caneppa Silva, mais conhecido por suas assinaturas na censura de jornais, peças
de teatro e filmes – já que essa também era uma atribuição oficial do órgão na
ditadura, assim como o combate ao tráfico de drogas nas fronteiras. O general
Caneppa foi promovido a coronel assim que a ditadura militar se instalou, e a
general-de-brigada em 1971, no governo Médici, mesmo ano em que passou a
chefiar o DPF em Brasília.
A operação de sequestro no Uruguai e tortura no Brasil do traficante Toscanino
não aparece nos telegramas diplomáticos até maio de 1974, quando o italiano
entrou com recurso na corte de apelações americana. A partir daí, há um troca
frenética de telegramas entre as embaixadas do Brasil e de Buenos Aires com o
Departamento do Estado porque a Justiça americana havia requisitado toda a
documentação envolvendo o caso Toscanino em virtude da apelação – embora boa
parte dela tenha continuado escondida, como comprovam os telegramas desse
período constantes no PlusD. O general Nilo Caneppa, porém, era considerado
peça-chave pelos Estados Unidos, como mostra um telegrama de 25 de abril de
1973.
“O tempo do general Caneppa como diretor do Departamento de Polícia Federal
encerra-se no meio de maio. Para assegurar a conclusão dos ótimos resultados
obtidos pela equipe americana de analistas designados para trabalhar com a
polícia federal brasileira no desenho do Centro de Inteligência de Narcóticos,
pedimos que essa equipe venha ao Brasil antes de maio”, diz o relato assinado
pelo antecessor de Crimmins, William Rountree. O mesmo embaixador já havia
demonstrado seu apreço por Caneppa que dele “se aproximou pessoalmente para
requisitar material audio-visual em português para os cursos de treinamento
permanentes do BNDD (antecessor da DEA) em São Paulo”, segundo outro telegrama
do PlusD, esse de 8 de maio de 1973, que recomendou: “Tendo em vista a
cooperação do DPF em expulsar traficantes internacionais para os Estados Unidos
em casos passados, e o mandato constitucional da DPF para dirigir os esforços
para suprimir os traficantes de drogas, e as necessidades de treinamento dos
brasileiros, a embaixada recomenda que o BNDD envie os filmes e slides para uso
do escritório do BNDD em Brasília, que vai distribuir para as agências
brasileiras. Esse gesto, além de ser um investimento útil de dinheiro e
material, vai ajudar a estreitar ainda mais os laços entre o DPF e o BNDD”.
Bandeira, um general mais tático
No
relatório confidencial sobre a temida visita dos auditores do GAO, porém,
enviado pelo embaixador Crimmins ao Departamento de Estado americano em 13 de
dezembro de 1973, o entusiasmo dos americanos havia arrefecido com a
substituição de Caneppa por um general considerado mais “tático” (
“operations-minded”) – o general Antonio Bandeira, tristemente famoso pelas
primeiras operações de repressão na guerrilha do Araguaia tanto pelo lado dos
guerrilheiros – que passaram a ser torturados também em Brasília depois que ele
assumiu a Polícia Federal – como dos militares, pelo fracasso em vencer os 70
jovens do PC do B nas matas do Pará.
Ainda assim, os americanos ressaltam sua gratidão por operações realizadas pela
DPF chefiada por Caneppa nesse mesmo telegrama, que também relembra a temida
visita do GAO dois meses antes. Segundo o telegrama, os auditores haviam feito apenas
uma “investigação difusa” sobre as atividades da DEA no país: “Embora GAO não
tenha problemas com a premissa do programa antidrogas de desenvolver a
competência brasileira no combate aos narcóticos, a curto prazo eles estão mais
interessados em impedir o fluxo de drogas para os Estados Unidos. O coordenador
do programa de narcóticos ressaltou, então, o sucesso da cooperação EUA-Brasil
na Operação Springboard [nos portos, em conjunto com a Marinha Americana] e na
apreensão no Mormac-Altair”.
Como relatam os jornais da época, o Mormac-Altair era um navio americano onde,
em operação conjunta dos americanos e brasileiros, foi capturada uma carga de
60 quilos de heroína em outubro de 1972. Traficantes franceses que moravam no
Paraguai e no Brasil foram então extraditados para os Estados Unidos pela
Polícia Federal brasileira, sem avisar as autoridades francesas, como aconteceu
no caso Toscanino, sempre com o general Caneppa à frente das operações.
Segue o telegrama de Crimmins a Kissinger: “GAO estava interessado na
possibilidade do Brasil assumir a liderança entre as nações latino-americanas
no hemisfério Sul. O coordenador explicou que o Brasil se esforçava para
melhorar a cooperação e a coordenação entre os órgãos policiais em outras
nações latino-americanas. No entanto, as diferenças entre os sistemas
hispânicos e lusitano, e a intensa rivalidade com a Argentina tornava difícil
essa liderança”.
“A GAO também levantou a questão – baseada na investigação dos arquivos sobre
as trocas de informação entre as agências de Washington durante a Operação
Springboard, quando a embaixada relatava preocupações e queixas sobre o antigo
chefe da Polícia Federal, General Caneppa [não se sabe a que se referem essas
queixas, que teriam sido feitas por Rountree, uma vez que a atuação da PF sob
Caneppa foi elogiada no parágrafo anterior e no telegrama enviado por Rountree
transcrito acima, mas os militares brasileiros consideravam Caneppa “mole”,
enquanto Bandeira era da “linha dura”]. O coordenador explicou que não há mais
problemas similares com o atual chefe, o general Bandeira. Bandeira é mais
operations-minded e parece satisfeito com o nível de troca de informações
embora, sem dúvida, um aprimoramento possa ser feito nesse campo. A equipe do
GAO fez diversas perguntas sobre extradição e expulsão de traficantes e pareceu
satisfeita com nossas explicações de que não há problemas do gênero no Brasil.
O coordenador teve a impressão de que essa era a mais alta prioridade da equipe
do GAO.
“A ideia do Centro de Inteligência de Drogas veio à tona também nessa visita,
baseada no material que eles já tinham recebido. O conteúdo politicamente
sensível desse assunto foi então explicado à equipe do GAO (…).” Quando o
telegrama foi enviado, Juan Perón havia reassumido o poder na Argentina depois
de um período de 18 anos de exílio, interrompendo a colaboração entre as
polícias do Cone Sul. Os americanos – assim como a ditadura brasileira – nunca
confiaram em Perón; depois que ele morreu, em 1974, e foi substituído pela
mulher, Isabelita, os militares instituíram a “guerra suja” que matou mais de
30 mil pessoas, incluindo peronistas.
Ao final do telegrama, Crimmins revela que, embora não conste da documentação
do NARA, havia recebido – e cumprido – as instruções de Kissinger depois do telegrama
enviado na chegada inesperada da missão da GAO: “Nenhuma cópia de outros
documentos além dos definidos por Washington foram disponibilizados para a
equipe do GAO”.
Os generais coniventes e a operação Condor
Tanto
Bandeira como Caneppa aparecem nas listas de torturadores da ditadura, feitas a
partir de documentos e denúncias de presos políticos, como “coniventes”, pelo
fato de terem comandado operações que resultaram em tortura e desaparecimento
de presos sem, no entanto, ter sido flagrados com “a mão na massa”, para usar
uma expressão suave.
Suas ligações com as operações do DEA no Cone Sul, como demonstra o telegrama
acima, porém, podem implicá-los – e aos Estados Unidos – em crimes
internacionais em investigações posteriores, como já aconteceu no caso do
general Caneppa, e não apenas nos casos Mormac-Altair e Toscanino.
No final do ano passado, o repórter Wagner William publicou na revista
Brasileiros a reportagem“O primeiro vôo do Condor”, relatando aquela que seria
a primeira ação da operação clandestina que uniu as ditaduras militares do Cone
Sul: o sequestro do coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, opositor da
ditadura, em Buenos Aires e sua extradição para um centro de torturas no Rio de
Janeiro, descrita no Informe 338, de 19 de dezembro de 1970, pelo adido militar
na Embaixada do Brasil: o então coronel Nilo Caneppa.
O documento, obtido pelo jornal Página 12, é considerado pelo presidente do
Movimento de Justiça e Direitos Humanos, o gaúcho Jair Krischke, um dos maiores
investigadores da Operação Condor, como o primeiro documento da articulação
clandestina e a prova de que foi o Brasil que liderou ao menos a sua formação.
O repórter Wagner William teve acesso aos diários do coronel Jefferson e contou
em detalhes como o coronel, seu filho e sobrinho foram interceptados em
dezembro de 1970 quando viajavam do Uruguai, onde se exilaram depois do golpe,
ao Chile, onde o coronel assumiria o cargo de assessor militar para a
Associação Latino-Americana de Livre Comércio a convite do então presidente do
Chile, Salvador Allende. Allende se suicidaria depois do golpe liderado pelo
general Pinochet e articulado pelos Estados Unidos em 1973.
Para evitar a perseguição policial – os homens de Hermida o seguiam todo o
tempo no exílio, como faziam com todos os brasileiros inimigos da ditadura,
como relatou em 2003, depois de ser preso no Rio Grande do Sul por assalto a
banco e tráfico de armas, o ex-policial Mario Neira Barreto, codinome Tenente
Tamuz, que também pertencia à Brigada Gamma –, Jefferson planejara ir de
Montevidéu a Colônia do Sacramento de carro, atravessar o rio da Prata pela
balsa até Buenos Aires, de onde seguiria para Mendoza e cruzaria os Alpes para
o Chile.
Avisado
pelos uruguaios, porém, o adido militar brasileiro na Argentina – Caneppa –
pediu a cooperação da Direção da Coordenação Federal, o órgão de inteligência
da Polícia Federal Argentina, para prender os três brasileiros, descrevendo sua
aparência em detalhes. Escondido no porto, Caneppa assistiu quando o carro de
Jefferson foi interceptado por dois agentes armados que saltaram de um carro
preto com chapa do governo argentino anunciando: “É uma operação de rotina.
Houve uma denúncia de transporte de drogas”.
Embora
não houvesse nada no carro além de uma arma do coronel Jefferson, que
apresentou seus documentos de identificação militar, os três foram levados para
a coordenação da Polícia Federal argentina, encapuzados, algemados e presos no
porão enquanto o subcomissário anunciava ao adido militar brasileiro o sucesso
da operação. Caneppa vai pessoalmente ao prédio, acompanhado de outro militar
brasileiro, adido da Aeronáutica na embaixada, onde Jefferson, seu filho e o
sobrinho foram interrogados sobre o sequestro do cônsul brasileiro, Aloysio
Gomide, pelos tupamaros uruguaios e sobre sua ligação com líderes peronistas
argentinos.
Os
três foram torturados – o coronel Jefferson com choques elétricos nos pés, nas
pernas e nos genitais e cera de vela quente no ânus. Caneppa e o outro militar
brasileiro, na sala ao lado, examinavam o material apreendido no carro de
Jefferson – livros, cartas e documentos de identidade – quando um
tenente-coronel do Exército argentino se apresentou e pediu desculpas pela
ausência do coronel Cáceres, diretor da PF argentina, perguntando em seguida o
que deveria fazer com os detidos. Caneppa queria que fossem enviados ao Brasil,
e em 26 horas o presidente argentino, fantoche dos militares, assinou um
decreto de extradição. De lá foram transportados discretamente por uma aeronave
militar para o Centro de Informação e Segurança (CISA) no Rio de Janeiro.
O coronel Jefferson foi torturado dias a fio e ficou preso por seis anos. Ao
sair da cadeia, em 1977, continuou a ser perseguido até 1979 quando foi
beneficiado pela lei da anistia. Os militares, porém, em um ato excepcional,
anularam sua anistia e ele teve que partir para o exílio, primeiro na
Venezuela, depois na França, de onde só retornou em 1985, com o fim da ditadura
militar.
Vítima
da primeira ação da famigerada Operação Condor, o coronel Jefferson foi preso
sob a acusação de tráfico de drogas pela Polícia Federal argentina sob as
ordens do general Caneppa. O mesmo que dirigia a Polícia Federal brasileira
quando o traficante Toscanino foi sequestrado por Hermida no Uruguai e entregue
para ser torturado em Brasília de onde foi extraditado, em uma operação
inteiramente coordenada pela DEA.
O
coronel Caneppa foi promovido a general e assumiu a direção da Polícia Federal
meses depois. Em 1972, recebeu a Medalha do Pacificador – a maior honraria do
Exército, destinada aos “revolucionários” de 1964. O general Bandeira mereceu a
mesma honraria. Até hoje a DEA mantém escritórios no Brasil, dentro da
embaixada brasileira e dos consulados. Procurada pela Pública para saber sobre
suas atividades atuais no país, a DEA encaminhou a reportagem à assessoria de
imprensa da embaixada americana, que não respondeu aos pedidos de informação
até a publicação dessa reportagem.
|
Terça-feira, 16 de Abril
de 2013 | ISSN 1519-7670 - Ano 17 - nº 742
WIKILEAKS
PLUS D
EUA fizeram
lobby pró-censura durante governo militar
Por Natalia Viana em 16/04/2013 na
edição 742
|
Em 1973 o governo do
general Emílio Garrastazu Médici entrava em seu quarto ano, consolidando a
presença da chama “linha dura” militar no governo. A censura à imprensa se
estruturou e se oficializou, abarcando todos os principais veículos de imprensa
do país. Sob Médici, a maioria das redações recebiam bilhetinhos apócrifos ou
ligações quase diárias de membros da Polícia Federal – a força encarregada de
controlar a censura – com a relação de temas que não poderiam ser abordados:
desde relatos de tortura e prisões políticas até reportagens sobre a precária
situação dos trens, a pobreza no país ou escandalosos casos de corrupção.
Outras, como Veja e o Pasquim, tinham que enviar
seu conteúdo para a censura prévia. O Estado de S. Paulo convivia
com um censor plantado dentro da redação, lendo todos os textos para decidir o
que podia e o que não podia ser publicado.
Para os Estados Unidos, porém, país que
propagandeava a democracia como resposta à “ameaça comunista”, nada disso
importava. Pelo contrário: documentos constantes no PlusD, do WikiLeaks,
mostram que a diplomacia americana chegou a defender a censura do regime
militar brasileiro perante um jornalista da poderosa rede de TV americana CBS.
“O cônsul geral de São Paulo relata que
o correspondente da CBS na América Latina, George Nathanson, está em São Paulo,
fazendo um vídeo sobre a censura à imprensa brasileira. A ideia de realizar
essa história foi incitada pelo artigo do New York Times de 21
de feveriro sobre esse assunto”, escreveu o então embaixador dos EUA no Brasil,
William Rountree, que ficou no posto entre 1970 e 1973. O correspondente estava
filmando na redação do Estado de S.Paulo e, segundo ele, a
reportagem corria muito bem.
Mas a embaixada tinha outra ideia de
como a censura deveria ser retratada. “Durante um almoço com Nathanson na
semana passado, o Oficial para Relações Públicas [da embaixada] sugeriu que
Nathanson tentasse obter todos os lados da história da censura no
Brasil”, descreve o documento de 9 de
março de 1973, (1)marcado
“para uso oficial limitado”. “Além de apenas falar com fontes da mídia
veementemente opostos e afetados pela censura presente, o oficial de relações
públicas mencionou que seria útil a Nathanson falar com figuras como o
conselheiro presidencial Coronel Otávio Costa [chefe da assessoria de Relações
Públicas da Presidência] e outros oficiais do governo, bem como representantes
da mídia como Roberto Marinho, do Globo, e Nascimento Brito,
do Jornal do Brasil, que veem a questão da censura de maneira
diferente da família Mesquita, do Estado”. Em seguida o embaixador,
satisfeito, afirma que o jornalista acatou a sugestão e “expressou interesse
nesta abordagem para fazer uma cobertura balanceada”.
Existe
cobertura balanceada sobre censura?
O aparato censório do regime militar foi
construído sob as asas do Ato Institucional nº 5. Logo após sua decretação, em
13 de dezembro de 1969, o general Silvio Correia de Andrade, delegado da
Policia Federal em São Paulo, declarou em entrevista coletiva: “Podem dizer que
foi instaurado o arrocho à imprensa escrita, falada e televisada por parte do
Contel, sob minha fiscalização direta. Os jornais estão sob censura no que diz
respeito a greves, passeatas, comícios, agitação estudantil e qualquer tipo de
ataque às autoridades”.
A PF seria responsável por calar a
imprensa; no ano seguinte, dezenas de delegados destacados para esse fim
receberam uma extensa lista de normas. Eles deviam vetar notícias “falsas” ou
sensacionalistas, testemunhos em off (com fontes anônimas),
comentários de pessoas atingidas pelos atos institucionais ou ligadas a
entidades estudantis dissolvidas. Também eram proibidas notícias sobre todo
tipo de repressão: cassações de mandatos, suspensão de direitos políticos,
prisões, tortura.
Em 1971 o ministro da justiça Alfredo
Buzaid aumentou a lista, proibindo também notícias “sensacionalistas” que
prejudicassem a imagem do Brasil no exterior, notícias que colocassem em perigo
a política econômica do governo, e até mesmo a “divulgação alarmista” de
“movimentos subversivos” em países estrangeiros. Segundo levantamento do
jornalista Élio Gaspari, entre 1972 e 1975 o Jornal do Brasilrecebeu
270 ordens enviadas por telefone ou por escrito pelos policiais da PF. Apenas
em 1973 – ano em que os diplomatas americanos queriam suavizar a cobertura da
CBS sobre a censura brasileira – o pesquisador Paolo Marconi – consultando
diversos veículos como Folha de S.Paulo, Rádio e TV Bandeirantes,
em São Paulo, e Rádio e TV, em Salvador – contabilizou um total de 143 ordens
enviadas pela PF. A maioria dos veículos praticava, então, a auto-censura,
descartando os temas proibidos. É o caso da Globo de Roberto Marinho e do Jornal
do Brasil de Nascimento Brito, apontados pelo embaixador como menos
críticos à censura oficial.
Os veículos que mostravam alguma
resistência tinham edições inteiras apreendidas ou eram submetidos à censura
prévia – caso do Jornal da Tarde e da revista Veja,
então comandada por Mino Carta, que eram visitados por censores ou obrigados a
mandar as edições antes de publicadas para a sede da PF em Brasília. Convivendo
diariamente com um censor da PF, o Estado de S. Paulo teve
1136 reportagens censuradas entre março de 73 e janeiro de 75. Foram vetadas
matérias sobre a Petrobras, a questão indígena, a política de saúde pública,
corrupção no ensino e até mesmo racismo no futebol.
Por sua vez, semanários pequenos e mais
independentes como Opinião, baseado no Rio de Janeiro, eMovimento,
de São Paulo, tiveram jornalistas presos, edições apreendidas e seus diretores
interrogados inúmeras vezes. Daí o caráter “econômico” da censura, que foi
responsável pelo desmantelamento, por asfixia financeira, de jornais de extrema
qualidade e linhas editoriais progressistas – provocando um impacto que até
hoje influencia o cenário da imprensa brasileira. Publicações independentes
como Opinião,Ex, Movimento e Pasquim tiveram
edições inteiras apreendidas, e tiveram que fechar as portas sob o peso da
censura. Só o jornal Movimento teve 40% de todo o seu conteúdo
censurado – mais de 3 mil artigos, mais de 4,5 milhões de palavras.
Os americanos
sabiam, claro
Nada disso era novidade para o
Departamento de Estado chefiado por Henry Kissinger – o mesmo que criticou a lei de acesso
(2)à informação americana afirmando “antes
da lei eu costumava dizer em reuniões, ‘o que é ilegal nós fazemos
imediatamente; o que é inconstitucional leva mais tempo’, mas desde a lei eu
tenho medo de dizer coisas assim”. Na verdade, os diplomatas americanos
mantinham contato próximo com jornalistas brasileiros, acompanhando de perto as
consequências da censura.
Assim, em 23 de março de 1973 – mesmo
mês em que a embaixada defendia a censura junto ao correspondente da CBS – o
cônsul de São Paulo, Frederick Chapin, relatou uma longa conversa (3)com
o dono do Estadão, Julio Mesquita, sobre a censura ao jornal.
Embora o general Ernesto Geisel tivesse assumido com o compromisso de promover
a “distensão política”, com a restauração dos direitos civis, nas duas semanas
anteriores a tesoura da censura havia cortado seis matérias do Estadão, que as
substituíra por cartas e receitas culinárias. Ao mesmo tempo, relata Chapin,
Julio Mesquita enviara telegramas a todos os congressistas, e o Estadão publicou
uma nota avisando que quem quisesse saber por que conteúdos desimportantes
estavam aparecendo no jornal poderia ligar para a redação – receberam 167
ligações. “Julio Mesquita disse que a forte pressão que ele estava exercendo no
governo para relaxar a censura estava fazendo efeito”, relatou Chapin, já que
o Estadão chegara a publicar histórias – incluindo uma sobre
censura – que não teriam passado. “Julio disse que pretendia continuar a
pressionar o governo na questão da censura”.
Ainda assim, os censores só sairiam
do Estadão dois anos depois.
Sob o embaixador John Crimmins, que
assumiu o posto após Rountree, a embaixada dos EUA manteve uma “postura de não
pôr as mãos” no tema da censura, segundo palavras do próprio.
Mas continuava acompanhando de perto o despropósito da censura, conversando
diretamente com editores e publishers. É o que mostra um documento
do Rio de Janeiro, datado de 13 de maio de 1974, detalhando a situação do
jornal Opinião. Em conversa com o então cônsul
geral Clarence Boonstra, o empresário Fernando Gasparian, do
Opinião, contava sobre os cortes mais recentes: uma entrevista com o então
candidato a presidência francesa, François Mitterand, e com o cardeal Dom Paulo
Evaristo Arns. Nesse momento, a censura exigia novamente que o jornal fosse
enviado a Brasília, antes de ser publicado, até quarta-feira de cada semana.
“Gasparian estava ‘chocado e desanimado’ com os últimos acontecimentos”, relata
Chapin, e decidiu ir a Brasília para investigar o motivo dos últimos cortes com
o diretor-geral da PF, o coronel Moacyr Coelho. O coronel, que Gasparian
descrevia como ”deprimido e vacilante”, lhe disse que a censura havia sido
decidida “em altas instâncias do Ministério da Justiça” e que havia outros
jornais sob maior pressão, escreve Boonstra. “Ele voltou achando que ‘alguma
coisa aconteceu dentro do alto escalão do governo para forçá-los a voltar às
antigas restrições’. Gasparian disse que ouviu rumores em Brasília que os
militares linha-dura não estavam felizes com os passos do regime em direção à
liberalização e haviam demandado ‘apertar’ o controle da imprensa e de outras
áreas”, diz o despacho diplomático.
A partir de 1975, a censura se tornou
mais seletiva e a censura prévia foi sendo retirada aos poucos. Não foi um
processo decisivo, tendo idas e vindas de acordo com as pressões do momento,
como mostram as conversas constamente relatadas pelos diplomatas americanos. Em 4 de abril daquele ano,
a embaixada em Brasília enviou a Washington um relato sobre a apreensão do
jornal Pasquim, do Rio de Janeiro, pela PF, ocorrida logo depois do
veículo ter tido a censura prévia encerrada, e a uma edição comemorativa
especialmente robusta. Chamando-o de “tabloide satírico semanal de
centro-esquerda” Crimmins relata que, durante 5 anos, o semanário fora obrigado
a enviar para Brasília duas a três vezes mais material do que necessário –
texto, charges e fotos – para ser cortado.
“De acordo com [Millôr] Fernandes e
outras fontes bem informadas da imprensa, o alvo real da apreensão do Pasquim era
um editorial forte de Fernandes detalhando os problemas do jornal com a
censura. Esses problemas incluíam: uma queda brusca de leitores (Fernandes
afirma que houve uma queda de 200 mil para 100 mil em circulação nos seis
primeiros meses de censura; alguns observadores acreditam que o cálculo atual seja
de 50 mil) e assédio da equipe do Pasquim quando a censura
teve início (ex. interrogatório policial da maioria deles e prisão de dez
editores por dois meses, seguida da sua libertação e o arquivamento subsequente
do inquérito). Fernandes também argumentava [no editorial] que o fim da censura
prévia não significa que a imprensa livre brasileira possa imprimir o que quer
e lembrava aos leitores que muitos dos jornais brasileiros ainda estavam
sujeitos à censura”. O comunicado encerrava dizendo que a apreensão “foi um
enorme golpe em termos financeiros”, já que o Pasquim dependia
de vendas em banca.
A Veja de
Mino Carta
A diplomacia americana também acompanhou
de perto o périplo da revista Veja, fundada e editada por Mino
Carta durante a ditadura militar e submetida a dois tipos de censura prévia ao
longo dos anos: no geral, o censor da PF ia até a redação, no prédio da editora
Abril; mas em algumas ocasiões o material tinha que ser enviado a Brasília dias
antes da publicação.
Em maio de 1974, foi a vez do consulado
de São Paulo informar sobre a censura a Veja. O primeiro despacho,
do dia 10, é assinado pelo cônsul-geral Frederick Chapin. “Uma empreitada de
censura ameaça a continuação de Veja, respeitada revista semanal”,
descreve o cônsul. A nova ordem exigia que todo conteúdo da revista fosse
enviado a Brasília na quarta-feira, inviabilizando a cobertura de fatos
“quentes”. Mino Carta – a quem Chapin chama de “um dos jornalistas mais hábeis
e mais conhecidos” do país – contava que a nova ordem era uma represália, em
especial, por uma charge de Millôr Fernandes mostrando um homem sendo
torturado, sobre a legenda “nada consta”.
“Essa semana, quando Mino soube do
endurecimento, ele ligou para o general Golbery, que foi ‘evasivo e hipócrita’.
O general Golbery mencionou especificamente alguma insatisfação sobre a charge
de Millôr Fernandes”. Decepcionado, já que tanto Golbery quanto o ministro da
justiça de Geisel, Armando Falcão, haviam se manifestado contra a censura, mas
estariam cedendo aos militares “linha dura”, Mino Carta ameaçava deixar a Veja.
“Carta disse que não quer ter mais nada a ver com Golbery e Falcão porque
‘seria como lidar com office boys’”, relata Chapin. “Essas ordens,
ele adicionou, vieram do ministro do Exército Dale Coutinho, um representante
do ‘sistema’, ou como ele chama, ‘o capo máfia’ que ele [Mino Carta] acredita
que controla o país’”, relata o despacho enviado a Washington.
“O cumprimento das novas regras vai
efetivamente matar a Veja, segundo Carta”, escreve o cônsul, que
finaliza o documento narrando que, para o jornalista, “o propósito do
endurecimento não é destruir Veja, mas colocar a revista e a
editora Abril ‘de joelhos”.
Roberto Civita, vice-presidente e filho
do dono da editora Abril, viajaria para Brasília em busca de um acordo – que
também foi acompanhado de perto pelos americanos. Em 28 de maio, outro despacho do
consulado de São Paulo, relata que a ordem fora revertida. Como narrou Victor
Civita ao americano, “[Dale] Coutinho se recusou a ver Roberto, que então ligou
para Golbery e para o ministro Falcão”. A redação, portanto, voltaria a receber
a visita de censores. O próprio Golbery e Falcão haviam servido como “fiadores”
do acordo entre os censores e Veja. “Victor estava otimista sobre
as relações futuras com a administração Geisel”, relatou Chapin. O dono da
Abril afirmou: “Eu só tenho três ou quatro amigos no governo agora, mas em um
ano ou mais eu vou conhecer bem 10 ou 12 deles”.
No entanto, a paz não duraria muito,
reflexo da queda de braço interna à administração Geisel. Em agosto de 1975, a
ordem de enviar o material para Brasília voltou – e foi prontamente relatada o
Departamento de Estado dos EUA. O estopim fora uma edição recente de um
discurso de Geisel, que Veja via como um sinal de que a
distensão estava morta. Hernani Donado, relações públicas da revista, conversou com os diplomatas.
“Donato disse que a linha dura ficou irritada pelos elogios de Veja ao
general Golbery (….) Golbery ligou pessoalmente para Mino Carta e pediu que ele
parasse com as histórias: ‘toda palavra boa que você fala sobre mim é uma
palavra ruim sobre os oponentes da distensão’”. Segundo o embaixador Crimmins,
Hernani Donato também acreditava que censores de Brasília “não confiavam
totalmente” nos seus subordinados de São Paulo, e sentiam “que eles podem ter
se tornado muito próximos de jornalistas locais”. Em 27 de agosto, diplomatas
da embaixada voltaram a almoçar com Victor Civita para discutir o assunto. “Ele
contou que lhe foi dito para ser muito cuidadoso porque o governo tinha o poder
de ‘colocá-lo de joelhos’ quando quisesse”.
***
Natalia
Viana é jornalista
CBS STORY ON BRAZILIAN CENSORSHIP
|
Date:
1973 March 9, 15:02 (Friday)
|
Canonical ID:
1973BRASIL01268_b
|
Original Classification:
LIMITED OFFICIAL USE
|
Current Classification:
UNCLASSIFIED
|
Handling Restrictions:
-- N/A or Blank --
|
Character Count:
1974
|
Executive Order:
-- N/A or Blank --
|
Locator:
TEXT ONLINE
|
TAGS:
|
Concepts:
-- N/A or Blank --
|
Enclosure:
-- N/A or Blank --
|
Type:
TE
|
Office Origin:
-- N/A or Blank --
Office
Action:
ACTION ARA
|
Archive Status:
Electronic Telegrams
|
From:
Brazil
BRASILIA | Brazil Brasilia
|
Markings:
Declassified/Released US Department of
State EO Systematic Review 30 JUN 2005
|
To:
Brazil Belém | Brazil Porto Alegre | Brazil Recife | Brazil Rio De
Janeiro | Brazil Salvador | Brazil São Paulo | Bureau of Inter-American
Affairs | Department of State | Mexico Mexico City
|
|
Content
Raw content
Metadata
Raw source
Print
Share
Find
Show Headers
1. AMCONGEN SAO PAULO REPORTS CBS
LATIN AMERICAN CORRES- PONDENT GEORGE NATHANSON IS IN SAO PAULO DOING CBS FILM
STORY ON CENSORSHIP OF BRAZILIAN PRESS. IDEA FOR STORY WAS PROMPTED BY NEW YORK
TIMES ARTICLE ON THIS SUBJECT ON FEBRUARY 21. NATHANSON HAD BEEN FILMING IN
OFFICES OF O ESTADO DE SAO PAULO. O ESTADO HAD BEEN VERY COOPERATIVE AND
NATHANSON SAID HIS PICTURES HAD TURNED OUT " VERY WELL." NATHANSON
MAY BE CONTACTING OTHER NEWSPAPERS AS WELL. 2. DURING LUNCHEON WITH NATHANSON
LAST WEEK, PAO SUGGESTED THAT NATHANSON ATTEMPT TO GET ALL SIDES OF THE
CENSORSHIP STORY IN BRAZIL. IN ADDITION TO TALKING TO JUST MEDIA SOURCES
VEHEMENTLY OPPOSED TO AND AFFECTED BY PRESENT CENSORSHIP, PAO MENTIONED IT
MIGHT BE USEFUL FOR NATHANSON LIMITED OFFICIAL USE LIMITED OFFICIAL USE PAGE 02
BRASIL 01268 091554 Z TO TALK TO SUCH FIGURES AS PRESIDENTIAL ADVISER COLONEL
OCTAVIO COSTA AND OTHER GOVERNMENT OFFICIALS, AS WELL AS MEDIA REPRESENTATIVES
SUCH AS O GLOBO' S ROBERTO MARINHO AND JORNAL DO BRASIL' S NASCIMENTO BRITO,
WHO VIEW THE CENSORSHIP ISSUE DIFFERENTLY THAN O ESTADO' S MESQUITA FAMILY.
NATHANSON EXPRESSED INTEREST IN THIS APPROACH TO GIVE BALANCE TO HIS COVERAGE.
ROUNTREE LIMITED OFFICIAL USE *** Current Handling Restrictions *** n/a ***
Current Classification *** LIMITED OFFICIAL USE
(2)
REPORTED RELEASE OF EMBASSY POLITICAL
REPORTS
|
Date:
1976 December 16, 21:55 (Thursday)
|
Canonical ID:
1976BRASIL10318_b
|
Original
Classification:
CONFIDENTIAL
|
Current Classification:
UNCLASSIFIED
|
Handling Restrictions:
-- N/A or Blank --
|
Character Count:
2597
|
Executive
Order:
GS
|
Locator:
TEXT ON MICROFILM,TEXT ONLINE
|
TAGS:
|
Concepts:
|
Enclosure:
-- N/A or Blank --
|
Type:
TE
|
Office Origin:
-- N/A or Blank --
Office
Action:
ACTION SY
|
Archive Status:
Electronic Telegrams
|
From:
Brazil
BRASILIA | Brazil Brasilia
|
Markings:
Margaret P. Grafeld
Declassified/Released US Department of State EO Systematic Review 04 MAY 2006
|
To:
Brazil Rio De
Janeiro | Brazil São Paulo | Department of State | Portugal Lisbon
|
|
Content
Raw content
Metadata
Raw source
Print
Share
Find
Show Headers
1. IN LATER TELEPHONE CONVERSATIONS
WITH EMBASSY, MAGALHAES LINS STATED THAT "JORNAL DO BRASIL" CLAIMS TO
HAVE "TRUNKS FULL" OF DOCUMENTS (TELEGRAMS, AIRGRAMS, MEMORANDA)
DATING FROM 1964 TO AT LEAST 1969 (HE COMMENTED THAT THERE MAY BE SOME
EXAGGERATION IN NASCIMENTO BRITO'S ALLEGATIONS). MAGALHAES LINS HAS NO IDEA
WHERE OR HOW "JORNAL DO BRASIL" MAY HAVE OBTAINED THESE DOCUMENTS BUT
HE OBSERVED THAT THE NEWSPAPER NOW HAS A CONNECTION WITH THE NEW YORK
"TIMES." HE EXPRESSED CONCERN OVER POSSIBILITY THAT PUBLISHED
DOCUMENTS MAY INCLUDE NAMES OF NUMEROUS BRAZILIANS WHO WERE SOURCES OF EMBASSY
INFORMATION DURING THESE YEARS AND WHO ARE IN POSITIONS OF PUBLIC IMPORTANCE
NOW. 2. MAGALHAES LINS HAS ALSO PROVIDED EMBASSY XEROX COPY OF ONE OF REPORTS
HELD BY "JORNAL DO BRASIL." DOCUMENT THAT MAGALHAES PASSED TO US IS
AMEMBASSY RIO'S TELEGRAM CONFIDENTIAL CONFIDENTIAL PAGE 02 BRASIL 10318 162207Z
7987 OF FEBRUARY 8, 1967, ON SUBJECT OF COSTA E SILVA'S CABINET SELECTION AND
BEARS LARGE STAMP STATING "COPY LYNDEN B. JOHNSON LIBRARY." FROM
MARKINGS ON TELEGRAM IT EVIDENT THAT THIS WAS NSC COPY. TELEGRAM, WHICH APPEARS
FULLY AUTHENTIC, IS LIMITED OFFICIAL USE AND REPORTS UNIDENTIFIED EMBOFF AS
HAVING LEARNED FROM MAGALHAES LINS THAT MAGALHAES PINTO HAD BEEN SOUNDED OUT BY
THEN PRESIDENT COSTA E SILVA FOR POSITION AS FOREIGN MINISTER AND THAT DELFIN
NETO HAD ACCEPTED POSITION OF FINANCE MINISTER. MESSAGE SUBSEQUENTLY CITES
CARLOS CHAGAS, WHO THEN DESCRIBED AS "COSTA E SILVA CONFIDANT" AND
WHO NOW BRASILIA BUREAU CHIEF OF ESTADO DE SAO PAULO, AS HAVING TOLD EMBOFF
THAT ENTIRE CABINET WOULD BE KNOWN IN ABOUT TEN DAYS. 3. MAGALHAES LINS IS
ATTEMPTING THROUGH HIGH LEVEL CONTACTS WITH SECURITY SERVICES TO FORESTALL
PUBLICATION OF AT LEAST MOST SENSITIVE DOCUMENTS (EMBASSY IS, OF COURSE,
PLAYING NO ROLE WHATSOEVER IN THIS EFFORT. MAGALHAES LINS IS AWARE OF THE TOTAL
HANDS-OFF POSTURE OF EMBASSY AND COMPLETELY AGREES WITH IT.) HE EXPECTS
PUBLICATION OF FIRST DOCUMENTS OVER WEEKEND. RESPONSE TO REFTEL NEEDED ASAP. CRIMMINS CONFIDENTIAL NNN
2.
(3)
3.

4.
OPINIAO
NEWSPAPER HEAVILY CENSORED
|
Date:
1974
May 13, 20:35 (Monday)
|
Canonical ID:
1974RIODE01741_b
|
Original Classification:
CONFIDENTIAL
|
Current Classification:
UNCLASSIFIED
|
Handling
Restrictions:
-- N/A or Blank --
|
Character Count:
2764
|
Executive Order:
GS
|
Locator:
TEXT ON MICROFILM,TEXT ONLINE
|
TAGS:
|
Concepts:
|
Enclosure:
-- N/A or Blank --
|
Type:
TE
|
Office
Origin:
-- N/A or Blank --
Office Action:
ACTION ARA
|
Archive Status:
Electronic
Telegrams
|
From:
Brazil Rio De Janeiro
|
Markings:
Declassified/Released US Department of State
EO Systematic Review 30 JUN 2005
|
To:
BRASILIA PRORITY | Department of State
|
|
6.
7.
Content
8.
Raw content
9.
Metadata
10.
Raw source
11.
Print
12.
Share
13.
Find
14.
Show Headers
15. 1. IN CONVERSATION TODAY (MAY 13) WITH FERNANDO
GASPARIAN, DIRECTOR OF RIO'S WEEKLY NEWSPAPER, OPINIAO, CONGEN LEARNED THAT
FEDERAL CENSORS MADE HEAVY CUTS IN HIS LATEST EDITION WHICH APPEARED YESTERDAY
(MAY 12) ON THE NEWSSTANDS. 2. AMONG THE ARTICLES CUT WERE INTERVIEWS WITH
FRENCH PRESI- DENTIAL CANDIDATE MITTERAND, AND SAO PAULO'S CARDINAL ARNS, AS
WELL AS A LE MONDE ARTICLE ON EVA PERON. GASPARIAN NOTED THAT IRONICALLY
CARDINAL ARNS WAS HIGHLY PRAISEWORTHY OF BRAZILIAN PRESIDENT GEISEL IN HIS
INTERVIEW. IN ADDITION TO THE CUTS, THE STRICT DEADLINE WAS REIMPOSED OF HAVING
THE NEWSPAPER'S COPY SENT TO THE CENSOR BY THE WEDNESDAY PREVIOUS TO SATURDAY'S
PRESS RUN. CONFIDENTIAL CONFIDENTIAL PAGE 02 RIO DE 01741 132050Z 3. HAVING
ENJOYED ABOUT SIX WEEKS OF CONSIDERABLY REDUCED CENSORSHIP RESTRICTIONS OF HIS
PAPER, AND EXPECTING AN EVENTUAL REMOVAL OF THESE RESTRICTIONS BASED ON
ASSURANCES HE RECEIVED FROM HIGH-RANKING OFFICIALS IN BRASILIA SEVERAL WEEKS
AGO (SEE REF. B), GASPARIAN WAS "SHOCKED AND DISMAYED" AT THE LATEST
TURN OF EVENTS. 4. HE FLEW TO BRASILIA FRIDAY (MAY 10) TO DETERMINE WHY THE NEW
CLAMPS WERE BEING APPLIED. AN INTERVIEW WITH CHIEF OF FEDERAL POLICE MOACYR
COELHO REVEALED THAT POLICE SUBORDINATES RESPONSIBLE FOR CENSORSHIP HAD NOT
RECEIVED ORDERS FROM COELHO FOR THEIR ACTIONS. COELHO, WHO GASPARIAN DESCRIBED
AS "DE- PRESSED AND VACILLATING", CLAIMED THAT CURRENT CENSORSHIP
DECISIONS WERE BEING MADE AT "HIGHER LEVELS IN THE MINISTRY OF
JUSTICE." 5. UNABLE TO SEE MINISTER OF JUSTICE FALCAO, GASPARIAN SAW OTHER
FRIENDS IN BRASILIA'S GOVERNMENTAL BUREAUCRACY AND CONFIRMED THAT TIGHTER
CONTROLS ARE BEING EXERCISED OVER OTHER NEWSPAPERS AND THE WEEKLY MAGAZINE,
VEJA. HE CAME AWAY WITH CONCLUSION THAT: "SOMETHING HAS HAPPEND INSIDE THE
HIGH LEVELS OF THE GOVERNMENT TO FORCE THEM BACK TO THE OLD RE-
STRICTIONS." GASPARIAN SAID HE HEARD RUMORS WHILE IN BRASILIA THAT THE
HARDLINE MILITARY ARE NOT HAPPY OVER THE GEISEL REGIME'S STEPS TOWARD
LIBERALIZATION AND HAD DEMANDED "TIGHTENING UP" THE CONTROL OF THE PRESS
AND OTHER AREAS. BOONSTRA CONFIDENTIAL NNN
REPORTED RELEASE OF EMBASSY POLITICAL
REPORTS
|
Date:
1976 December 16, 21:55 (Thursday)
|
Canonical ID:
1976BRASIL10318_b
|
Original
Classification:
CONFIDENTIAL
|
Current Classification:
UNCLASSIFIED
|
Handling Restrictions:
-- N/A or Blank --
|
Character Count:
2597
|
Executive
Order:
GS
|
Locator:
TEXT ON MICROFILM,TEXT ONLINE
|
TAGS:
|
Concepts:
|
Enclosure:
-- N/A or Blank --
|
Type:
TE
|
Office Origin:
-- N/A or Blank --
Office
Action:
ACTION SY
|
Archive Status:
Electronic Telegrams
|
From:
Brazil
BRASILIA | Brazil Brasilia
|
Markings:
Margaret P. Grafeld
Declassified/Released US Department of State EO Systematic Review 04 MAY 2006
|
To:
Brazil Rio De
Janeiro | Brazil São Paulo | Department of State | Portugal Lisbon
|
|
Content
Raw content
Metadata
Raw source
Print
Share
Find
Show Headers
1. IN LATER TELEPHONE
CONVERSATIONS WITH EMBASSY, MAGALHAES LINS STATED THAT "JORNAL DO
BRASIL" CLAIMS TO HAVE "TRUNKS FULL" OF DOCUMENTS (TELEGRAMS,
AIRGRAMS, MEMORANDA) DATING FROM 1964 TO AT LEAST 1969 (HE COMMENTED THAT THERE
MAY BE SOME EXAGGERATION IN NASCIMENTO BRITO'S ALLEGATIONS). MAGALHAES LINS HAS
NO IDEA WHERE OR HOW "JORNAL DO BRASIL" MAY HAVE OBTAINED THESE
DOCUMENTS BUT HE OBSERVED THAT THE NEWSPAPER NOW HAS A CONNECTION WITH THE NEW
YORK "TIMES." HE EXPRESSED CONCERN OVER POSSIBILITY THAT PUBLISHED
DOCUMENTS MAY INCLUDE NAMES OF NUMEROUS BRAZILIANS WHO WERE SOURCES OF EMBASSY
INFORMATION DURING THESE YEARS AND WHO ARE IN POSITIONS OF PUBLIC IMPORTANCE
NOW. 2. MAGALHAES LINS HAS ALSO PROVIDED EMBASSY XEROX COPY OF ONE OF REPORTS
HELD BY "JORNAL DO BRASIL." DOCUMENT THAT MAGALHAES PASSED TO US IS
AMEMBASSY RIO'S TELEGRAM CONFIDENTIAL CONFIDENTIAL PAGE 02 BRASIL 10318 162207Z
7987 OF FEBRUARY 8, 1967, ON SUBJECT OF COSTA E SILVA'S CABINET SELECTION AND
BEARS LARGE STAMP STATING "COPY LYNDEN B. JOHNSON LIBRARY." FROM
MARKINGS ON TELEGRAM IT EVIDENT THAT THIS WAS NSC COPY. TELEGRAM, WHICH APPEARS
FULLY AUTHENTIC, IS LIMITED OFFICIAL USE AND REPORTS UNIDENTIFIED EMBOFF AS
HAVING LEARNED FROM MAGALHAES LINS THAT MAGALHAES PINTO HAD BEEN SOUNDED OUT BY
THEN PRESIDENT COSTA E SILVA FOR POSITION AS FOREIGN MINISTER AND THAT DELFIN
NETO HAD ACCEPTED POSITION OF FINANCE MINISTER. MESSAGE SUBSEQUENTLY CITES
CARLOS CHAGAS, WHO THEN DESCRIBED AS "COSTA E SILVA CONFIDANT" AND
WHO NOW BRASILIA BUREAU CHIEF OF ESTADO DE SAO PAULO, AS HAVING TOLD EMBOFF
THAT ENTIRE CABINET WOULD BE KNOWN IN ABOUT TEN DAYS. 3. MAGALHAES LINS IS
ATTEMPTING THROUGH HIGH LEVEL CONTACTS WITH SECURITY SERVICES TO FORESTALL
PUBLICATION OF AT LEAST MOST SENSITIVE DOCUMENTS (EMBASSY IS, OF COURSE,
PLAYING NO ROLE WHATSOEVER IN THIS EFFORT. MAGALHAES LINS IS AWARE OF THE TOTAL
HANDS-OFF POSTURE OF EMBASSY AND COMPLETELY AGREES WITH IT.) HE EXPECTS
PUBLICATION OF FIRST DOCUMENTS OVER WEEKEND. RESPONSE TO REFTEL NEEDED ASAP. CRIMMINS CONFIDENTIAL NNN