A Guerra do Brasil
1.  A guerra do Brasil 1 - Getúlio Vargas: ditador enigmático e pragmático.
2.  A guerra do Brasil 2 - Nazi$mo: lucro para o Bra$il.
3.  A guerra do Brasil 3 - O economista de Hitler ajuda o Brasil
4.  A guerra do Brasil 4 - Em vez de mercadorias, torpedos.
5.  A guerra do Brasil 5 - Multidão exige: “Guerra !”
6.  A guerra do Brasil 6 - A massa invade o Palácio do Ditador
7.  A guerra do Brasil 7 - Getúlio: a “cobra fria”.
8.  A guerra do Brasil 8 - FEB: a luta para ir à guerra
9.  A guerra do Brasil 9 -... e a cobra fumou
10.          A guerra do Brasil 10 - 239 dias de ação
11.          A guerra do Brasil 11 - FEB: desfile foi o canto-de-cisne.
12.          A guerra do Brasil 12 - A FEB, enfim, no poder.
13.          A guerra do Brasil 13 - A Declaração de Guerra do Brasil à Alemanha e à Itália
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A guerra do Brasil
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A Guerra do Brasil - 1
Getúlio
Ditador enigmático

 e pragmático
Getúlio Vargas (C) e Franklin Roosevelt (D): encontro em Natal (RN)



Em julho de 1939, um brasileiro, gaúcho, morador de um certo palácio da Rua do Catete, zona Sul do Rio de Janeiro, então Capital Federal, previu que a guerra começaria em dois meses. Dois meses depois, não deu outra: em 1º de setembro, a Alemanha invadiu a Polônia – dando início ao maior conflito na História da Humanidade.
         Esse brasileiro, gaúcho, chamava-se Getúlio Dornelles Vargas, e a previsão dele consta de uma ata do Conselho de Segurança Nacional relativa ao mês de julho de 1939.

Até 22 de agosto de 1942 – dia em que o Brasil declara guerra à Alemanha e Itália -- a posição de Getúlio Vargas era um enigma. Ninguém podia afirmar, com certeza absoluta, por quem ele torcia in pectoris: se pelas ditaduras do Eixo ou pelas democracias liberais EUA, Grã-Bretanha e França. Era um ditador cercado de militares que tinham pela máquina militar nazista, segundo o historiador Hélio Silva, “respeito e admiração”, considerada por eles “imbatível”.
Inicialmente, Getúlio parece pender para a Alemanha (ele chega até a mandar um telegrama de aniversário a Adolf Hitler, antes do início da guerra). Um episódio em particular serve para que se pensasse que Getúlio ficaria com o nazista. É a deportação, em outubro de 1936, de Olga Benário, uma comunista judia alemã, grávida de Luís Carlos Prestes (na época, secretário-geral do então Partido Comunista do Brasil e preso por causa da chamada Intentona de 1935). Olga é  entregue à Gestapo, que a mandou para um campo de concentração - onde é  executada logo depois de ter tido a filha, Anita Leocádia.
Mas, no fim-das-contas,  a História mostra que Getúlio não era nem pró-Alemanha, nem pró-Aliados: Getúlio sempre foi pró-Getúlio, um político pragmático muito antes que essa palavra passasse a ser usada para definir um político. Uma prova disso é que ele consegue, em troca da permissão para os EUA instalassem uma base militar em Natal, U$ 20 milhões de dólares para a construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ), hoje privatizada.

A Guerra do Brasil – 2
Parceiro alemão
Nazi$mo deu Lucro     para o Bra$il
 Café e cacau
Produtos que interessavam à Alemanhade Hitler
Ocorre que a opção entre os dois lados não era apenas uma questão política. Tinha o lado econômico, porque o Brasil foi, desde o início do século, um respeitável parceiro comercial da Alemanha, com exceção do período da I Guerra Mundial (1914-1918), quando as transações foram zero. Uma análise desse período foi feita pelo brasilianista Stanley E. Hilton:
“Em 1918, o Reich não fornecera nenhuma as importações brasileiras; mas ao chegar 1929, alcançaria o terceiro lugar na lista dos fornecedores ao Brasil, com 12% das importações deste País comprando 11% das exportações brasileiras em 1928, a Alemanha voltava a se apresentar como o segundo principal mercado da nação sul-americana.”

Hitler no poder: mais negócios com o Brasil
Depois que Hitler assume o poder, em 1933, o comércio entre Brasil e Alemanha aumentou nos dois sentidos (importação e exportação). O percentual da participação da Alemanha nas importações brasileiras sobe sucessivamente desde a ascensão do regime nazista: de 11,95 em 1933 até 24,99% em 1938. E as compras, pelo Brasil, de produtos alemães também aumentam: de 8,12% para 19,06%.
 Por isso, um brasilianista americano, Ralph McDann, conclui: comercialmente, o Brasil lucrou depois que Hitler assumiu o poder:
“A expansão da Alemanha nazista nos anos 30 foi útil para o Brasil, pois ela representou uma ampliação do seu já crescente mercado alemão. Em, 1938-1939, as exportações para a Alemanhaconstituíram 15,5% do total de exportações brasileiras (em comparação, os EUA receberam 34,2%), enquanto o Brasil era o principal consumidor não europeu da Alemanha, ocupando o nono lugar (determinado pelo valor de suascompras) entre todos os clientes alemães. Entre 1935 e 1945, a política exterior brasileira passou por três fases, durante as quais suas opções foram sendo continuamente reduzidas.
“Na primeira fase (1935), o Brasil pôde jogar os EUA e Alemanha um contra o outro, e gozava da máxima flexibilidade. O País utilizou suas políticas comercial e doméstica para impedir a penetração política alemã. Na segunda fase (1940-1942), o Brasil foi obrigado a lidar com os EUA sem poder utilizar a ameaça implícita de se unir ou auxiliar o Eixo. Nesta fase, as suas opções se estreitaram cada vez mais, e o Brasil não parecia certo de seus objetivos. Na terceira fase (1943-1945), com seus objetivos finalmente estabelecidos, o Brasil enfrentou uns EUA pouco preocupados com as pretensões brasileiras e adotando políticas destinadas a conservar a frente unida contra o Eixo. Essas políticas serviram para anular os esforços brasileiros e ampliar a predominância americana no Brasil. Nesta fase, as políticas brasileiras parecem ter facilitados, e não impedido, a penetração americana. (Frank D. McCann - A Nação Armanda – Ensaios sobre a História do Exército Brasileiro)

A Guerra do Brasil - 3
Hjalmar Schacht
O economista de

Hitler ajuda o Brasil
Schacht elaborou, em 1934, um programa deeconomia de guerra a pedido de Hitler
As relações Brasil-Alemanha, no entanto, não poderiam ficar imune à política. Mais precisamente, ao que representava a imensa colônia alemã no Brasil: em 1939, são uns 900 mil (100 mil de nascença e 800 mil descendentes diretos). É que a colônia alemã era, então,  muito ativa politicamente, tendo representações do Partido Nazista permitidas oficialmente em vários estados, com direito até a desfile com bandeiras com a cruz suástica e tudo.
Os arapongas da época descobrem que a Gestapo (a polícia política de Hitler), por ordem de Hermann Göring (o número 2 do regime nazista), já infiltrara agentes para o Brasil, principalmente para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O problema de Getúlio é: como evitar que os alemães atuassem no Brasil sem desagradar o governo alemão? Getúlio resolve esse problema na base do batendo-e-soprando:

“Vargas tomou medidas enérgicas para abrasileirar as comunidades alemãs no Sul e banir a atividade política nazista. Diplomatas brasileiros explicaram ao Ministério do Exterior alemão que a dignidade do seu País não podia tolerar atividade política dirigida do exterior; da mesma como a Alemanha, argumentaram eles, o Brasil também se opunha ao comunismo, não mantinha relações com a Rússia e havia deixado a Liga das Nações. Eles deixaram implícito que o nacionalismo brasileiro era suficientemente forte para resistir às lisonjas dos oponentes da Alemanha, embora isso não ameaçasse a própria Alemanha.” (Frank McDann – A Nação Armada)).
A ideia de Vargas é convencer seu parceiro comercial de que as transações com o Brasil eram fundamentais para a economia alemã, muito mais importante que a atividade da colônia aqui no Brasil. Havia dois motivos para  que, nas circunstâncias da época (o mundo ainda sentia os reflexos do crash da Bolsa Nova Iorque, em 1929)  interessam a Getúlio: 1. a compra de armamento para o Exército; e 2. a possibilidade de importar produtos manufaturados sem usar as divisas em moeda estrangeira.

Produto agrícola por armas
Interessava ao Brasil comprar a MG34 (Maschinengewehr 34 - Metralhadora 34). Foi criada em 1934, a primeira metralhadora de uso geral moderna.
Foi como juntar a fome com a vontade de comer. O Brasil já era, então, um velho freguês da indústria bélica alemã – metralhadora, fuzis, canhões.  A Alemanha só vendia armas a dinheiro, mas compensava dividindo o pagamento em diversas parcelas. (Na época, o governo americano estava proibido, pelo Congresso, de vender armamento para países que não estivessem em guerra.)
 Quanto a não usar as divisas estrangeiras para a compra de manufaturados, foi também um negócio vantajosopara o Brasil, porque o preço do café (então o principal produto de produto de exportação) estava em baixa, obrigando o governo até queimar toneladas de sacas de café para fazer subir o preço da saca. Em 1934, o Banco Central Alemão baixa um decreto restringindo a compra, em dinheiro,  de produtos como borracha, lã, fumo, couro, peles e algodão. A alternativa era, no fundo, um escambo - a troca de mercadoria por mercadoria, sem entrar dinheiro na transação.
O Brasil dá as matérias-primas de que a Alemanha precisa (algodão, borracha, couro etc) e recebe produtos manufaturados. Uma troca que tem um atrativo extra: são mais baratos que os americanos. O decreto é do presidente do Banco Central alemão (mais tarde ministro da Economia de Hitler), Hjalmar Schacht, responsável pela estabilização do marco no início da década de 20 e, já no governo nazista, o encarregado da expansão da economia que permite Alemanha se rearmar (Schacht, chamado de “o economista de Hitler”,  foi absolvido no Julgamento de Nuremberg, em 1946).
A Guerra do Brasil - 3
Em vez de
de mercadorias, torpedos
Vários navios brasileiros foram afundados por submarinos (U-Boat), como o da foto

Na área diplomática, a postura do Brasil ia evoluindo de acordo com os acontecimentos na Europa. Depois do início da guerra, os países das Américas fazem três conferências para discutir o conflito. Na primeira (em outubro de 1939, no Panamá)  fica decidido que o continente ficaria neutro. Na segunda ( em julho de 1940, em Havana, Cuba) fica acertado que:
”Todo atentado de Estado não americano contra a integridade física ou a inviolabilidade do território, contra a soberania ou independência política de um Estado americano será considerado como ato de agressão contra os Estados que firmam esta declaração”.
E na Conferência do Rio de Janeiro, em  28 de janeiro de 1942 – portanto, depois do ataque japonês a Pearl Harbor (7.12.41)  -- os países das três Américas decidem romper relações diplomáticas com o Eixo (Alemanha, Japão e Itália).
A essa altura, as relações comerciais do Brasil com a Alemanha já tinham ido a pique. Em 1940, o Brasil vendia 2,2% das suas exportações para Alemanha, caindo para 1,2% em 1941, até chegar a zero em 1942. Nesse mesmo período, as importações brasileiras da Alemanha foram 1,8% em 1940, também 1,8% em 1941, e zero em 1940.
O declínio do comércio Brasil-Alemanha beneficia os EUA e prejudica enormemente a Grã-Bretanha. Em 1933, os britânicos são responsáveis por 19,44% das importações brasileiras, percentual vai diminuindo até chegar, em 1942, a 5,8%. Esta, certamente, é uma das razões para um episódio que quase leva ao rompimento das relações Brasil-Grã Bretanha: o aprisionamento do navio mercante Siqueira Campos, em novembro de 1940, quando partia de Lisboa.
O navio trazia armamentos alemães, comprados da fábrica Krupp em 1938: 1.080 canhões, munição, acessórios e veículos militares. Os britânicos haviam permitido uma primeira remessa do material, meses antes, mas queriam brecar a segunda.  Ocorre que, por temer que o material caísse em outras mãos, a Alemanha manda os armamentos aos poucos: o material que chegou na primeira remessa só teria serventia para o  Exército brasileiro se o segundo carregamento fosse entregue.
O Brasil teve ajuda do então secretário de Estado americano Cordell Hull para pressionar o governo britânico.  O chefe do Estado-Maior do Exército, general Góis Monteiro – que em 1935 previra a vitória da Alemanha na guerra – chega a ameaçar a embaixada da Grã-Bretanha no Rio de Janeiro com possíveis manifestações populares e a desapropriação de bens de súditos britânicos no Brasil. E Getúlio chega a convocar uma reunião do Ministério para discutir represálias. Mas o Siqueira Campos é, enfim, liberado em 18 de dezembro de 1941.
Começam os ataques dos submarinos
O Araraquara: afundado no litoral nordestino

  Não por simples coincidência, os ataques a navios mercantes brasileiros por aviões e submarinos alemães aumentam na mesma medida em que diminui o comércio entre os dois países. Os três primeiros ataques são em águas territoriais estrangeiras: o Taubaté, em março de 1941, entre Chipre e Alexandria; o Buarque, em 15 de fevereiro de 1942, no Caribe; e o Olinda, três dias depois, na altura do litoral da Virgínia. (um outro mercante, o Santa Clara, comandando pelo capitão José d’Alibert Siqueira, desaparece nas Bermudas. Como o boletim meteorológico só registrou tempo claro e ventos fracos, acredita-se que tenha sido torpedeado, em março de 1941.
Esses afundamentos não chegam a sensibilizar a população. Primeiro, porque foram bem longe do litoral brasileiro. Depois, porque o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, o braço-censor da ditadura) só deixava publicar as notícias bem depois do acontecido,  e sem destaque.
Tudo muda, porém, quando entra em cena um capitão de corveta alemão chamado Harro Schacht e o seu submarino U-507. Por causa dele, o Brasil declara guerra à Alemanha e Itália.
A Guerra do Brasil – 5
Multidão
faz quebra-quebra e exige: “Guerra!”
O capitão Schacht, como seu U-Boat 507, foi o que afundou mais navios no litoral brasileiro
Nem o ataque arrasador da aviação japonesa à frota dos EUA em Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, faz o Brasil entrar na guerra. Mas bastam cinco torpedos de um submarino alemão para que Getúlio declare guerra à Alemanha e Itália (e não ao Japão). Os torpedos do submarino U-507, do capitão Harro Schacht , afundam cinco barcos bem próximos ao litoral brasileiro, em Sergipe e na Bahia. Uma  tragédia. Morrem ao todo 607 pessoas, quantidade maior que o número de  pracinhas que iriam morrer em combate três anos depois na Itália (451). Vão a pique: o Baependy (270 mortos), o Araraquara (131), o Anníbal Benévolo (150), o Itagiba (36) e o Arará (20). Ao todo, o Brasil perde na guerra 20% de sua frota mercante.
Schacht foi morto no Atlântico Sul, em 13 de janeiro de 1943 quando um avião americano Catalina afundou o U-507. No mesmo ano, a casa dele em Hamburgo foi bombardeada.

Depredações em todo o país
Por causa da guerra, a UNE ganhou a sua sede
A notícia chega no dia 19 de agosto de 1942, e provoca protestos violentos em várias partes do País, inclusive em Recife.  No Rio de Janeiro, a então Capital Federal, há um estouro-de-boiada popular: liderados pelos estudantes, centenas de pessoas promovem um quebra-quebra histórico, depredando, entre Copacabana e o Centro, tudo o que tinha a ver -- diretamente ou indiretamente -- com a Alemanha. São invadidos jornais, bares (o Berlim, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul, reabriu como Bar Lagoa, e o Adolph, na Rua da Carioca, no Centro, virou Bar Luiz -- nomes mantidos até hoje), clubes e até uma loja de brinquedos, Feira de Leipzig, também no Centro do Rio, e cujo dono não era parente nem distante de alemão.
O elegante Clube Germânia, na Praia do Flamengo, 132,na Zona Sul, é invadido por um grupo de estudantes liderado pelo jornalista e ex-técnico da Seleção e do Botafogo, João Saldanha, militante-de-carteirinha do PCB (Partido Comunista Brasileiro). Quando o prédio ia ser incendiado, o presidente do Diretório da Faculdade de Direito da então Universidade do Brasil, Paulo Silveira (futuro diretor da rede de jornais Última Hora, de Samuel Wainer), tem uma ideia:
--Calma, pessoal, calma! Vamos tomar o prédio em vez de queimá-lo! – e a União Nacional dos Estudantes, a UNE, ganha uma sede. (Anos depois, ao contar como foi a invasão do Clube Germânia, Saldanha incluiu entre os participantes o jornalista e escritor Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Mas Sérgio Porto negou, dizendo que Saldanha certamente o confundira com Stanislaw...). ====================================================
A Guerra do Brasil – 6 
    A massa  
invade o Palácio
do Ditador
“O povo amotinou-se nas ruas e, incorporando-se e entoando o Hino Nacional, invadiu os jardins do Palácio Guanabara.”
Os jornais empastelados são a Gazeta de Notícias e Meio-Dia, sustentados pelo dinheiro do governo alemão para falar mal dos EUA, da França e da Inglaterra. Depois do quebra-quebra, uma multidão invade o Palácio Guanabara, na Rua Pinheiro Machado,em Laranjeiras, Zona Sul, a residência oficial de Getúlio, onde acontece um fato inédito na História da República: o Presidente desce de seus aposentos para conversar com os manifestantes no jardim do Palácio. Eles exigem que o Brasil declare guerra, e ouvem de Getúlio uma  promessa: a de que “esse crime nefando” não ficaria impune. E não deu outra: no dia 22, o Brasil declara guerra, formalmente, à Alemanha e Itália.
O que realmente detonou a revolta popular foram os relatos, detalhados e dramáticos, publicados nos jornais, apesar da existência do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda, o órgão getulista criado, em 1939, basicamente para censurar a imprensa), que não teve como proibir a divulgação de um fato tão grave. Até então, sobre os afundamentos dos navios no exterior, o DIP só deixava sair notícia sem destaque.
  “O povo amotinou-se nas ruas”


 Marques Rebelo
7  Testemunha da invasão do Palácio do Ditador
Quem mostratoda a dimensão da revolta popular pelo afundamento dos navios, é o escritor Marques Rebelo (membro da Academia Brasileira de Letras e autor, entre outros, de A Estrela Sobe, que o cineasta Bruno Barreto filmou em 1974, com a atriz Betty Faria no papel principal), considerado o sucessor de Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis e Lima Barreto no chamado Romance Carioca. O relato está publicado em A Guerra Está em Nós, um romance em forma de diário que mistura ficção com realidade:
“Ontem (19 de agosto de 1942) foi um dia agitado. Sacudido o marasmo que a ditadura impunha, o povo reintegrou-se nos seus direitos opinantes. Confirmou-se o elevado número de mortos e os jornais não mais esconderam os detalhes horripilantes – escaleres de náufragos haviam sido atacados pelos piratas; as praias coalhavam-se de corpos mutilados pela ferocidade dos cações; uma criancinha de peito fora encontrada numa caixa de velas, ao sabor das ondas – os pais, que ali a haviam acondicionado, com uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré presa ao babeiro, haviam desaparecido; mãe e filha, hirtas, abraçadas, foram encontradas com as pernas meio comidas pelos peixes. (...)
“O povo amotinou-se nas ruas e, incorporando-se e entoando o Hino Nacional, invadiu os jardins do Palácio Guanabara (...) exigindo punição para os culpados. O Chefe de Polícia tentara falar aos manifestantes no Largo da Glória, mas, às primeiras palavras, fora empolgado pela veemência popular, e acabara caminhando à frente deles para o palácio presidencial.
“Getúlio, improvisando, emocionado, ele a fria cobra oportunista, disse que compreendia o sentimento de pesar e participava da exaltaçãopatriótica do momento. Nada tínhamos feito para que os nossos barcos mercantes, cumprindo percurso pacífico nas linhas do litoral, fossem agredidos e afundados, arrastando no seu bojo centenas de vidas inocentes. E esse crime não haveria de ficar impune.
“A promessa foi recebida com ovação E o povaréu volta para o Centro da cidade, aglomera-se diante das redações da Gazeta de Notícias e do Meio-Dia, que pregavam ainda, embora veladamente, a política do Eixo, obriga-os a arriarem o pavilhão nacional, que precavidamente haviam hasteado nas fachadas, e, impulsionado pelas palavras de um orador anônimo, acaba por empastelar as oficinas. (...)O comércio fecha as portas por imposição popular e vários estabelecimentos comerciais de súditos do Eixo são depredados e incendiados.”(Marques Rebelo – A Guerra Está em Nós)
A Guerra do Brasil – 7  
Getúlio Vargas
“Fria cobra    oportunista”
Getúlio e a “canalha das ruas”
Quem declarou mesmo (a guerra) foi o povo,
ou a canalha das ruas, como queiram. No fundo, era
ao que Getúlio aspirava – ratificar.”
Dois dias depois, quando o Brasil entra oficialmente na guerra --só contra Alemanha e Itália, e não contra o Japão -- Marques Rebelo registra:
Não houve ilações – reuniu-se o que se chama de ministério e foi declarada a guerra (...). Assinaram de cruz... quem declarou mesmo foi o povo, ou a canalha das ruas, como queiram. No fundo, era ao que Getúlio aspirava – ratificar.”
    “Com Vargas sem  nazismo”
Getúlio: “abanando o braço mussolinicamente”
E, como a provar que Marques Rebelo tinha razão de chamá-lo de “fria cobra oportunista”, Getúlio adere aos Aliados com grande entusiasmo, promovendo até um “grande desfile trabalhista” com faixas e cartazes com dizeres que, dias antes, seriam inimagináveis:
“O DIP (registra Marques Rebelo no dia 3 de setembro de 1942) não sai dos trilhos com o novo rumo dos acontecimentos e, (oportuno), promoveu, ontem, um grande desfile trabalhista, enxameado por faixas e cartazes, que, como era de se prever, acabou diante do (Palácio do) Catete, embandeirado em arco. Getúlio, da sacada, sorridente, abanando o braço ainda um tanto mussolinicamente, repetiu, entrecortado de ovações bem regidas, o que dissera com espontaneidade nas escadarias do Guanabara. Vamos a uma seleção dos dizeres das faixas e cartazes:

“Guerra até a vitória” - “Honra e Liberdade” - “Glória às tradições cristãs” –“Glória ao Estado Nacional”- “Democracia e Justiça” - “Justiça social” - “Abaixo os totalitários” - “Abaixo a Quinta-Coluna - “Vitória contra o nazismo”- “Com Vargas sem o nazifascismo” - “Queremos um Brasil forte com Getúlio Vargas à frente”- “União sagrada com o Presidente Vargas” - “Agradecemos a Deus a saúde do Presidente”.
E, sem palavras, um imenso retrato do Presidente abria o cortejo monstro, carregado por membros do Sindicato dos Jornalistas Profissionais”.
A Guerra do Brasil – 8 
 FEB
    Luta para
    ir à guerra

Dutra: como Ministro da Guerra, foi contra a FEB
Mas uma coisa é declarar guerra, outra bem diferente é mandar uma tropapara combater. Até o embarque do 1O Escalão para a Itália, há uma guerra à parte, a ponto de a FEB (Força Expedicionária Brasileira), ter sido motivo de chacota.
           Mesmo tendo declarado guerra à Alemanha e Itália, pressionado pela massa que invadiu o Palácio Guanabara, Getúlio Vargas, visivelmente, não faz nenhum esforço para que uma tropa seja formada. A começar pelo tempo entre a declaração de guerra e o decreto criou a 1ª DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), da FEB: quase um ano (de 22 de agosto de 1942 a 13 de agosto de 1943). E não era só o Presidente da República quem fazia corpo-mole: ele teve ajuda do seu Ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, visto nos meios militares da época como contrário ao envio de uma tropa brasileira para a Europa. Prova é o intervalo entre o convite e a nomeação do comandante escolhido por Getúlio para a FEB, o general (depois marechal)  João Baptista Mascarenhas de Morais: 18 dias. Mas os problemas da força expedicionária não acabam com a sua criação e a escolha do seu chefe. Foram várias pedras no caminho, e o general Mascarenhas precisou suar a farda para superá-las.
O boicote era visível. Dutra, ao organizar a FEB, usou soldados das quatro regiões militares, mas nada fez para reuni-los numa mesma cidade (a tropa continuou do dispersa por Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre). E, embora nomeando Mascarenhas para a FEB, Dutra não o nomeou para a 1ª DIE (Divisão de Infantaria Expedicionária), que era, em termos burocrático, a própria FEB, que só tinha mesmo uma divisão.

FEB: treinada para guerra à antiga


A Missa Francesa que adestrou o Exército brasileiro
ainda acreditava na eficiência da Linha Maginot (foto acima), vencida com  facilidade pelos alemães
Por isso, depois de uma visita, no fim de dezembro de 1943, à Itália e ao Norte da África - para ver como era uma guerra - o general Mascarenhas precisou se impor: exigiu ser nomeado comandante também da 1ª DIE e que os regimentos escolhidos para ir à Europa fossem reunidos, todos, no Rio de Janeiro, e sob ordens dele. Mas nem isso fez a FEB embarcar logo, porque o que parecia ser o fim de um  problema, na verdade foi o início de muitos outros.
           Quando os soldados foram reunidos no Rio de Janeiro, em março de  1944, foi  constatado um grave problema: a debilidade física da maioria dos convocados, a quase totalidade vindo das classes pobres. Uma parte considerável dos recrutas teve que ser dispensada, por problemas de saúde. E quando, enfim, a FEB conseguiu definir quem iria para a Itália, surge mais uma pedra no caminho, esta enorme: a falta total e absoluta de preparo para uma guerra moderna – tanto em métodos de luta como em equipamentos.
É que Exército brasileiro vinha, desde a década de 1920, sendo adestrado por uma Missão Militar Francesa, que adotava métodos usados da I Guerra Mundial (1914-1918), inteiramente ultrapassados em 1940.Os franceses eram comandados pelo general Maurice Gamelin, ainda preso a concepções estáticas de combate. Um exemplo disso é a Linha Maginot, uma série de fortificações na fronteira com a Alemanha que as tropas alemães simplesmente contornaram pela Bélgica e liquidaram a França. (Hoje, a Linha Maginot virou atração turística). Além disso, a última guerra em que o Brasil se metera foi a do Paraguai, terminada mais de 70 anos antes – sem contar a repressão às em revoltas internas, como as de Canudos na Bahia, a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, e a do Contestado, entre Paraná e Santa Catarina. Os cadetes brasileiros aprendiam, por exemplo, como bombardear uma fortaleza – enquanto uma das características principais da guerra moderna era o alto nível de motorização. No livro-relatório que publicou em 1948, A FEB pelo seu Comandante, o general Mascarenhas reconhece que o Exército brasileiro não estava preparado para uma guerra moderna:
“Sua organização (do Exército brasileiro), seus regulamentos e seus processos de combate eram baseados na chamada “escola francesa”. De repente, quase da noite para o dia, surgia a tarefa de constituir uma Divisão de Infantaria, com a organização norte-americana. E, além disso, instruí-la a adestrá-la segundo os métodos, processos e meios norte-americanos. (...).Os canhões eram alemães e franceses Krupp ou Schneider 75, fuzil Mauser 1908, morteiro Brandt, metralhadora Madsen ou Hotckiss, tudo praticamente viera da Europa como "resto da I Guerra Mundial".

 FEB desconhecia armas modernas
O chefe da FEB, general Mascarenhas de Morais, entre os também generais Zenóbio da Costa (E) e Cordeiro de Faria (futuro golpista de 1964), no último desfile no Rio, em 24.5.1944
Por isso, o Exército brasileiro não sabia usar – porque nunca tinha usado – as armas da guerra moderna, como constatou o chefe da FEB:
O armamento era desconhecido entre nós, como o fuzil Garrand, o morteiro de 60 mm, a bazooca, a metralhadora ponto 30, o canhão anticarro de 57 mm e o obus de 105 mm. Além do armamento, as Unidades de Infantaria não conheciam os aparelhos de radiofonia, telefonia e radiotelegrafia, tudo reclamando, além da robustez física indispensável, a formação  de equipes homogêneas e o conhecimento individual de técnica e manejo e emprego. Na organização da Artilharia, sobressaía o sensível acréscimo de potência de fogo, com a  substituição dos veteranos canhão de 75 mm pelos ditos 105 e 155 mm.
A modificação de maior monta, contudo, residia na adição de uma Esquadrilha para Observação e Regulação de tiro aos quadros da organização da Artilharia Divisionária. Esta inovação, majorando a eficiência da Artilharia, carreava, contudo, para as atividades iniciais de organização, certo número de dificuldades, tais como a cuidadosa escolha de pessoal e o grande número de especialistas. (...) A técnica de material exigia um conjunto de especialistas de difícil obtenção pelos processos normais de recrutamento, tais como estenógrafos, químicos, mineiros, eletricistas, rádio-operadores, guias de tratores especiais, operadores de compressores de ar e do martelete mecânico.”
O general tinha dois meses para montar uma divisãoexpedicionária, mas o tempo foi curto. E a montagem final da tropa não significou que o Brasil já estava preparado para ir à guerra, porque o nível de adestramento era simplesmente zero. Era preciso, então, treinar os soldados – mais uma pedra no caminho para a Itália. O comando da FEB achou que podia contar com a boa vontade dos EUA, mas isso não aconteceu.  (Os únicos militares brasileiros que receberam um tratamento correto da parte dos americanos, foram os pilotos da Esquadrilha Senta a Pua, da recém criada Força Aérea Brasileira, FAB, que receberam treinamento nos EUA.)
O governo americano não tinha maiores interesses pelo envio de tropas brasileiras à Europa. O que os EUA queriam, já haviam conseguido: que o Brasil declarasse guerra e que permitisse a instalação, no litoral brasileiro, de bases militares, o que foi feito em Nata e Recife. A base no litoral potiguar base foi fundamental como ponto de apoio aeronáutico na guerra do Atlântico Sul, por sua posição geográfica privilegiada uma distância do Norte de África, permitindo que os aviões americanos tivessem autonomia para atacar e retornar à base.
A má vontade dos EUA ficou evidente com o não fornecimento de armamento em quantidade suficiente nem para o período de treinamento no Brasil (para que os soldados pudessem treinar com as novas armas, houve o que o general Mascarenhas chamou de “milagre do revezamento”). E mesmo as poucas armas enviadas não puderam ser usadas logo: o Exército levou nada menos que um mês para traduzir os manuais de instrução.
Pelo menos uma coisa a tropa aprendeu enquanto esteve no Brasil: a desfilar. Foram duas exibições no Centro do Rio de Janeiro, uma em 31 de março, a outra em 24 de Maio de 1944, “entre delirantes aclamações de enorme massa popular” -- como registra em seu livro o chefe da FEB.
A Guerra do Brasil - 9
FEB
...e a cobra,
enfim, fumou !
A cobra fumando, na versão de Walt Disney                                          
O humor da “massa popular”, porém, foi mudando na medida em que a FEB demorava a embarcar. Tanto que uma brincadeira comum na época era dizer: “É mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar”. Apesar de tudo, a FEB embarcou – e adotando como símbolo, justamente, uma cobra fumando. Mas os problemas da FEB ainda estavam longe de serem resolvidos, porque o adestramento dos pracinhas, como se viu, estava longe, muito longe do ideal.
 A participação da FEB na II Guerra Mundial tinha tudo para dar errado: tropa despreparada, armas obsoletas e - para agravar – os pracinhas foram destacados para combater na frente de batalha mais letal de todo o conflito (enquanto na Frente Russa morreram, em média, 1.871 soldados por divisão, e no Pacífico, 738, na Itália esse número foi bem maior: 5.453).
A FEB demorou, mas viajou
 Os pracinhas, com uniforme parecido com o do Exército alemão, foram confundidos com prisioneiros alemães - e hostilizados
O 1º escalão, com 5.075 homens e sob o comando direto do generalMascarenhas de Morais, embarca no navio de transporte de tropa americano General Mann, no Porto do Rio de Janeiro, em 2 de julho, e chega  em Nápoles duas semanas depois. Logo na chegada, consta-se que a ida do general Mascarenhas às frentes de combate na Itália e Norte da África não foi lá muito útil. Há um problema que mais parece piada que brasileiro conta de português: a farda – apelidada de Zé Carioca – dos pracinhas era da mesma cor da farda da Wehrmacht (o Exército alemão). Por essa semelhança e também  pelo aspecto abatido com que os brasileiros desembarcaram depois uma desagradável e tensa viagem de 14 dias,  os pracinhas são  confundidos com prisioneiros de guerra alemães - e vaiados e apedrejados. (Há quem atribua essa maldade da cor da farda ao Ministro da Guerra, Dutra...).
Acidentes na estrada
Getúlio no navio General Mann, ancorado na  Baía  de Guanabara (RJ), no embarque do primeiro escalão da FEB
Outro grave problema: o Jeep – um dos equipamentos mais importante da guerra que se travava na Europa – só é apresentado aos nossos motoristas militares na Itália. Quem tem mais tempo para conhecer o novo veículo, tem dois dias. Outros, só algumas horas. E logo tiveram que pegar uma estrada, com consequências que poderiam ter sido graves. Primeiro, por causa da falta de conhecimento sobre o veículo que guiavam, para eles inteiramente novo. Segundo, porque o primeiro teste efetivo de direção é numa estrada de tráfego complicadíssimo  por causa, lógico, da guerra. Quem conta como foi esse primeiro deslocamento dos pracinhas na Itália é o comandante da FEB:
         “Foi penosa e delicada a tarefa de deslocar para Vada o nosso contingente e ali instalá-lo. Foi um “teste” à capacidade do nosso Estado-Maior e à perícia e à resistência dos nossos motoristas. Os acidentes havidos não deslustram a atuação dos elementos de comando e execução (...). O deslocamento (...) foi realizado mediante a utilização de nossos meios orgânicos, muitos deles recebidos algumas horas antes do início da operação. Ademais, a tropa não estava habituada a percursos noturnos tão longos. Dirigindo carros com os quais ainda não se haviam acostumado, pois que seu recebimento havia sido recente, os nossos motoristas, ainda bisonhos em tráfego intenso e sujeito a blecaute, certamente tiveram que cumprir a afanosa e difícil missão.”
            Resultado: no trajeto para Vada, há primeira baixa do Brasil no front italiano: um capitão morre num desastre. Em seu livro, o  chefe da FEB não entra em maiores detalhes sobre como foi a tal “afanosa e difícil missão”, mas certamente o desempenho dos motoristas militares brasileiros impressionou o comando militar dos EUA na Itália. Tanto que, pouco depois da chegada do primeiro escalão da FEB, foi criada, já perto da frente de combate nos Apeninos, uma Escola de Motoristas especialmente para ensinar nossos pracinhas a dirigir veículos militares. Este foi o único gesto de boa vontade dos militares americanos com a FEB. Fora isso, só houve gestos de má-vontade.
A maior prova de pouco caso, foi na hora de armar a FEB. O trato era que os brasileiros recebessem fuzis Garrand, semiautomáticos, mas foram entregues do tipo Springfield, inferiores até aos Mauser 1908 que o Exército usava antes da guerra. Os Garrand foram destinados aos raríssimos regimentos de negros do Exército dos EUA. Se isso acontece neste Século 21, o gesto poderia ser classificado de “politicamente correto”. Mas aconteceuem 1945, quando Martin Luther King tinha só 15 anos, e os negros, nos EUA, não podiam frequentar certos lugares ao lado dos brancos e viviam sob a ameaça de linchamento da Ku Klux Klan, um  esquadrão-da-morte criado nos estados mais racistas.
A Guerra do Brasil - 10
239 dias
de ação
no front
Os pracinhas fizeram o treinamento numa planície quente na Baixada Fluminense e foram guerrear em montanhas geladas da Itália
Portanto, os pracinhas tiveram que aprender a fazer guerra na prática. À medida em que os Escalões iam chegando do Brasil (foram cinco ao todo), os soldados passavam por um adestramento de dois dias, e iam para o campo de batalha. Mesmo sem bom armamento e o treino necessário,os pracinhas cumpriram todas as missões que receberam. Primeiro, tomaram Camaiore, depois M. Prano, Monte Castelo, Castelnuovo, Montese, Zocca, Collecchio e, finalmente, Fornovo. Foram 239 dias de “ação contínua”, de 6 de setembro de 1944 a 2 de maio de 1945.
        Na conquista mais difícil, Monte Castelo, ficou gritante a diferença entre o adestramento de brasileiros e americanos. A tropa dos EUA que participou do ataque à montanha de mil metros (onde houve mais da metade das baixas totais da FEB), a 10ª Divisão de Montanha, antes de ir para a Itália,passou um ano treinando nas montanhas do Alasca (enquanto isso, nossos pracinhas tinham que colocam papel por dentro da roupa por causa do frio...).
      Os pracinhas brasileiros, ao contrário, não se prepararam para uma guerra em montanha, já que seu treinamento fora feito no Campo de Gericinó, localizado na Baixada Fluminenses (município de Nilópolis), que existe até hoje e que na verdade é uma imensa planície...
Mas o que tinha tudo para dar errado, deu certo.  Maltreinado, sem armamento moderno e até com um uniforme errado, o pracinha saiu do Brasil como um integrante de um verdadeiro Exército Brancaleone treinado numa Loucademia de Polícia, mas deu a volta por cima. Aprendeu a guerrear na prática, cumpriu suas  missões na frente mais mortal da guerra e, no fim, ganhou muitos elogios. O mais significativo não veio, porém, em nenhum dos ofícios enviados pelos principais comandantes Aliados – até porque todas as tropas de todos os países receberam o mesmo tipo de elogio, exaltando a bravura, a determinação etc.

Pracinhas: “violentos e agressivos”

 O correspondente de guerra Joel Silveira, dos Diários Associados (C), testemunha a rendição do general alemão Fretter (E) ao general brasileiro Falconeri (D)
A prova de que o pracinha brasileiro se tornara, realmente, um bom soldado, veio da boca de um cabo do Exército alemão, considerado na época o melhor do mundo, pelo bom adestramento e pelo armamento moderno. O testemunho pró-pracinha foi dado ao correspondente de guerra Joel Silveira, dos Diários Associados, numa crônica republicada 20 anos depois do fim da II Guerra,  no livro As Duas Guerras da FEB). Perguntado sobre o que achava do soldado brasileiro,  mão esquerda ferida por um tiro, o Cabo Fritz, combatente de um Exército reconhecidamente violento e agressivo,  foi claro e definitivo:
      “(Os soldados brasileiros) são muito violentos e agressivos. Lá na nossa frente, os tenentes e sargentos nos avisavam diariamente para termos cuidado com os brasileiros”.
Até que veio a paz, assinada formalmente no dia 8 de maio de 1945, registrada por Carlos Drummond de Andrade em seu diário:

“Maio, 7 – Segunda-feira – Cerca de 10:00, o rádio começa a noticiar a capitulação total da Alemanha. Nos últimos dias, as rendições parciais de tropas se vinham sucedendo com tal frequência que pouco faltava para o ato final, e assim ficou de certo modo comprometido o caráter espetacular do desfecho. A mesma notícia já fora espalhada há oito dias e logo se desmentiu, como a queda de Berlim, celebrada com uma semana de antecedência.
“De resto, as inquietações e abalos de quase seis anos de guerra, com as piores derrotas dos aliados até 1941, reduziram a capacidade de sentir, afetando a alegria desta hora. Para me capacitar de que esta é uma grande data, um momento feliz para o mudo, tenho de recorrer à reflexão. Meu contentamento tem origem intelectual. A capacidade de vibração está gasta.”
 Exatamente uma semana após o fim da ocupação, pelas tropas brasileiras, da região de Francolise, o Ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, em 6 de julho, extingue a FEB. O general Mascarenhas não faz um comentário sequer sobre esse gesto, no mínimo, indelicado. Escreveu em seu livro-relatório que:
“Extinta a FEB seus feitos e vitórias, nos campos de batalha de ultramar, sobreviverão eternos no coração da nacionalidade, como síntese do valor de nossa gente e símbolo da vocação democrática do povo brasileiro.”
O general errou num ponto: quando disse que a FEB ficaria eternamente nos corações brasileiros. No Exército, por incrível que pareça, ter sido da Força Expedicionária Brasileira passou a ser uma maldição. 
O fim da FEB
O Ministro da Guerra, general Eurico Dutra, no front com a FEB, que ele dissolveu quando os pracinhas ainda estavam na Itália
A Guerra do Brasil – 11  
Desfile foi
o canto-de-cisne
dos pracinhas
A FEB nas ruas do Rio de Janeiro: depois, o esquecimento
Arigor, o último dia de glória para os pracinhas foi 18 de julho de 1945, quando a tropa desfilou na Parada da Vitória, por ruas do centro do Rio de Janeiro. Como convidados especiais, vários generais aliados, entre eles o americano Mark Clark. A reação da multidão – diferente da registrada por Drummond quando a guerra terminou – foi calorosa (“jamais a metrópole brasileira viveu momentos de maior exaltação patriótica”- escreveu, também patrioticamente, o general Mascarenhas). Depois, de volta ao dia a dia a que não estavam acostumados, a maioria dos pracinhas – soldados e oficiais – conheceu o que é o inferno na terra. Muitas promessas foram feitas, todas descumpridas. A maioria dos civis não recuperou o emprego que tinha antes da convocação, apesar de haver uma lei garantindo isso. E quem recuperava, era demitido logo depois. Muitos não tinham um ofício quando embarcaram, e na volta foram jogados, despreparados, na vida civil. Aos poucos, só governo e a sociedade foram perdendo o interesse pelos pracinhas e suas histórias e neuroses de guerra.
Até os militares de carreira tiveram problemas. Por motivos de política e de ciumeiras por parte dos que não foram à guerra, muitos oficiais foram mandados para lugares afastados, em geral nas fronteiras. Ter sido um pracinha virou uma espécie de maldição nos quartéis.
E onde o general Mascarenhas acertou, foi quando falou que a FEB era o símbolo democrático do povo brasileiro – porque a queda do ditador Getúlio foi um dos efeitos da participação de uma divisão expedicionária brasileira na guerra contra o nazismo e o fascismo. A própria extinção da FEB – antes mesmo da sua chegada ao Brasil – já era uma indicação de que o governo temia os efeitos da vitória contra Hitler e Mussolini. Afinal, se ditadura não servia para Alemanha e Itália, por que serviria para o Brasil? A queda de Getúlio, portanto, pode ser vista como a última boa ação da FEB.
A Guerra do Brasil – 12  
FEB: três
derrotas antes
de tomar o poder
O Poeta e o Ditador: “Fim da era getuliana. O vento a levou.”
Quando a FEB volta da Itália, o governo Vargas já está balançando. O primeiro golpe fora dado pelo Manifesto dos Mineiros, assinado por políticos e intelectuais, e divulgado em 24 de outubro de 1943, quando as tropas brasileiras ainda nem tinham embarcado para a Itália. Um dos trechos do Manifesto diz:
”Se lutamos contra o fascismo, ao lado de nações unidas, para que a liberdade e a democracia sejam restituídas a todos os povos, certamente não pedimos demais reclamando para nós mesmos os direitos e garantias que as caracterizam”.
Getúlio reage: demite os signatários que têm cargo no governo – mas tarde demais: o Manifesto dos Mineiros já havia entrado para a História do Brasil.
O segundo golpe foi uma entrevista do ex-candidato a presidente na eleição que não houve, atropelada pelo Estado Novo, em novembro de 1937, o paraibano José Américo de Almeida, publicada no extinto jornal carioca Correio da Manhã, criticando o Estado Novo. Getúlio aceita marcar eleição para 2 de dezembro, mas não mostra disposição de largar o emprego no Palácio do Catete, incentivando o Movimento Queremista (“Queremos Getúlio!”). Carlos Drummond de Andrade registra essa posição do ditador em seu diário:
Março, 2 (1945) - “Entrevista coletiva de Getúlio à imprensa. Finda a parte preparada, a parte de improviso consiste num jogo de deslizamento diante de perguntas bobas ou embaraçosas. À indagação: “O senhor é candidato?”- responde que o Governo não tem candidato, pois estes devem ser indicados pelos partidos políticos que se reorganizarem, e talvez saia daí um grande nome nacional, amortecedor de paixões. Impressão deste leitor de jornais: ele é candidatíssimo à sucessão de si mesmo, no futuro período constitucional, depois de 14 anos e pouco de Governo, e conta com a indicação de seu nome pelo partido governista a ser fabricado.”

           ...e o ventou levou a Ditadura


Bustos de Getúlio depredados (acima); o Ditador  foi deposto pelo GeneralGóis Monteiro (D), num golpe pregado pela UDNe profetizado por Prestes
Os generais também pensaram como Drummond, e deram um fim ao Estado Novo, fato também comentado pelo poeta:
Outubro, 30 – Ontem, os generais trouxeram para a rua suas metralhadoras e seus carros de combate e mandaram dizer a Getúlio que desse o fora. Ele tentou negociar, mas os homens foram inflexíveis. Getúlio cedeu “para evitar derramamento de sangue”, substância que raramente se derrama em nossos golpes e revoluções, pois tanto uns quanto outros adversários preferem conservá-los nas veias.
“De resto, Getúlio já não contava com ninguém. O pretexto para a deposição foi a nomeação do seu mano Benjamim para chefe de polícia, escolha doméstica que fazia prever solução muito especial na política, da parte do Catete. Bejo tomou posse às 15:00 e saiu para comunicar ao general Góis Monteiro no Palácio da Guerra, que era o novo chefe de polícia e que Getúlio iria modificar novamente a leieleitoral. Enquanto isso (é o que se diz), o General Plaquet, único elemento ainda fiel à Getúlio, desceria com suas tropas da Vila Militar para tomar o Ministério da Guerra e garantir as novas medidas getulianas.
“Góis imediatamente se demitiu da pasta e se declarou investido no posto de (?) chefe supremo das Forças Armadas, com o apoio da Marinha e da Aeronáutica. Era o golpe, denunciado e profetizado desde março por (Luiz Carlos)Prestes e longamente pregado pela UDN como única saída para a crise política. Getúlio, esgotada sua capacidade de manobra (do que é prova a nomeação do mano para chefe de polícia), rendeu-se sem um tiro. Foi logo escolhido para substitui-lo o Ministro (José) Linhares, Presidente do Supremo Tribunal Federal, que tomou posse de madrugada... no Ministério da Guerra, enquanto Getúlio, filosoficamente, ia dormir, já que não podia fazer outra coisa, apagada a sua estrela de 15 anos. Tudo isto veio pelo rádio e pelo telefone, a começar das 20:00 e custou-me uma noite de sono. Notícias às vezes contraditórias, mas em conjunto definidoras: fim da era getuliana. O vento a levou.”
Se o vento levou uma ditadura, acabou trazendo outra, 19 anos depois, liderada por um febiano, o já general Castelo Branco, e com a participação de vários ex-combatentes. Mas não foi fácil conquistar o poder: foram três derrotas, até que uma nova ditadura fosse implantada no Brasil, como analisa o repórter Joel Silveira, correspondente de guerra junta à FEB:
“A primeira, quando da queda da ditadura de filiação nazifascista,em outubro de 1945, e a inesperada eleição do general Eurico Dutra, tido pela maioria como contrário à ida da FEB para a Itália. Nas eleições de 2 de dezembro de 1945, o candidato da FEB era o brigadeiro Eduardo Gomes.
“A segunda derrota da FEB, no após guerra, foi o 11 de novembro de 1955,quando da dupla deposição (pelo então Ministro da Guerra, marechal Henrique Lott) dos presidentes Café Filho e Carlos Luz permitiu a posse de Juscelino Kubitschek, eleito nas eleições de outubro, nas quais foi derrotado o hoje marechal Juarez Távora (...) e, finalmente, a terceira derrota, a de agosto de 1961, quando não foi possível à FEB (então representada pelo artilheiro general Cordeiro de Faria) impedir a posse do sr. João Goulart, que assumiu o poder com a renúncia do sr. Jânio Quadros, que fora o candidato da FEB nas eleições de outubro de 1960. (Joel Silveira - A FEB no Poder).
O que impediu uma ditadura já em 1961 foi a Cadeia da Legalidade, uma rede de rádio criada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.
Militares versus civis

Joel Silveira
      Um repórter brasileiro na guerra contra Hitler
Atrilha para o poder foi aberta com a criação, no governo Dutra, com a criação da Escola Superior de Guerra. Foi onde os militarescomeçaram a olhar com maus olhos os civis, como analisa Joel Silveira:
         “Quando a Escola Superior de Guerra, fruto da FEB, deu às forças armadas uma inteligentzia privada, exclusivamente sua, a “inteligência” civil passou a ser olhada com desconfiança e, em alguns casos, como inimiga. E aos poucos a ESG restabelecia no País a realidade de uma casta militar, cuja abolição fora sem dúvida a maior vitória da FEB, e para a qual contribuíra inapelavelmente a fusão, no campo de batalha, do soldado cidadão convocado e do soldado profissional, ambos enfrentando os mesmos perigos.
“Da mesma forma que foi marginalizada durante 19 anos, a FEB marginaliza agora a inteligência civil”.“E num Estado de fato, que tem seu comando, permite que suas tropas invadam universidades, prendam professores, intelectuais, substituindo a Polícia Política nas suas quase sem torpes tarefas repressivas.”(Joel Silveira – As Duas Guerras da FEB)
Integrarama FEB, além do então tenente-coronel Castelo Branco, os depois generais Amaury Kruel, Ernane Ayrosa, Syzeno Sarmento, Cordeiro de Farias (governador de Pernambuco de 1955 a 1958), Afonso Albuquerque Lima (depois Ministro do Interior), Dale Coutinho (aquele para quem o então presidente Ernesto Geisel disse que a tortura era “necessária”), Adalberto Pereira dos Santos (vice-presidente de Ernesto Geisel), e Fernando Belfort Bethlem. Sintomaticamente, o intérprete que serviu junto às tropas brasileiras na Itália foi o então tenente-coronel Vernon Walters, que mais tarde, como agente da CIA no Brasil, ajudaria os militares a implantar uma ditadura que durou 20 anos.
A Guerra do Brasil – 13   

22 de agosto, 1942

Declaração de guerra           do
Brasil à Alemanha e à Itália

1 — "A orientação pacifista da política internacional do Brasil manteve-o até agora afastado do conflito em que se debatem quase todas as nações, inclusive deste hemisfério.

2 — Apesar das declarações de solidariedade americana, votadas na 8ª Conferência Internacional de Lima e na 1ª, 2ª e 3ª Reuniões de Ministros das Relações Exteriores da República Americanas, efetuadas, respectivamente, no Panamá, em 1939, em Havana em 1940 e no Rio de Janeiro em 1942, não variou o governo brasileiro de atitude, embora houvesse sido insolitamente agredido o território dos Estados Unidos da América, por forças do Japão, seguindo-se estado de guerra entre aquela república irmã e o império agressor, Alemanha e Itália.

3 — Entretanto, a declaração XV da 2ª daquelas reuniões, consagrada pelos votos de todos os Estados da América estabeleceu: "Que todo atentado a um estado não americano contra a integridade ou a inviolabilidade do território e contra a soberania ou independência política de um estado americano será considerada como um ato de agressão contra os estados que assinaram essa declaração.

4 — Consequentemente, o atentado contra a integridade do território e a soberania dos Estados Unidos deveria ser considerado como ato de agressão ao Brasil, determinando a nossa participação no conflito e a simples declaração de solidariedade com o agredido, seguida algum tempo depois da interrupção das relações diplomáticas com os Estados agressores.

5 — Sem consideração para com essa atitude pacífica, do Brasil, e sob o pretexto de que precisava fazer guerra total à grande nação americana, a Alemanha atacou e afundou, sem prévio aviso, diversas unidades navais mercantes brasileiras, que faziam o comércio navegando dentro dos limites do "Mar Continental", fixados na declaração XV do Panamá.

6 — A esses atos de hostilidade, limitamo-nos a opor protestos diplomáticos tendentes a obter satisfações e justa indenização reafirmando, porem, com esses documentos, nossos propósitos de manter o estado de paz.

7 — Maior prova não era possível da tolerância do Brasil e de suas intenções pacíficas.

8 — Ocorre, porem, que agora, com flagrante infração das normas de direito internacional e dos mais comezinhos princípios da humanidade, foram atacados na costa brasileira, viajando em cabotagem, os vapores "Baependi" e "Aníbal Benévolo", do "Lóide Brasileiro", Patrimônio Nacional, o "Araras" e o "Araraquara", do Lóide Nacional, S. A. e o "Itagiba", da Companhia Nacional de Navegação Costeira, os quais transportavam passageiros, militares e civis, e mercadorias para portos do norte do país.

9 — Não há como negar que a Alemanha e a Itália praticaram, contra o Brasil, atos de guerra, criando uma situação de beligerância, que somos forçados a reconhecer na defesa da nossa dignidade, da nossa soberania, da nossa segurança e na da América, e a repeli-la na medida das nossas forças".


Circular do Governo às embaixadas brasileiras na América

"Queira passar nota a esse governo dizendo que, de acordo com as normas adotadas e os compromissos assumidos nas conferências panamericanas de Buenos Aires e de Lima, assim como nas reuniões de consulta dos ministros das Relações Exteriores, o governo brasileiro leva ao seu conhecimento que, na noite de 15 para 16 do corrente, foram torpedeados, a 20 milhas da costa de Sergipe, cinco vapores brasileiros de passageiros, que navegavam de porto para porto nacional conduzindo inclusive romeiros que se destinavam ao Congresso Eucarístico de São Paulo. Um dos navios, o "Baependi" conduzia um contingente de tropas de 120 homens que não se dirigiam para nenhum setor de guerra, havendo apenas sido transferidos de uma região militar para outra do país. Antes desse atentado, com perda de muitas vidas, já haviam sido torpedeados em viagem intercontinental, por submarinos do "eixo", 23 navios brasileiros. A nossa atitude foi então de simples protesto contra a violação, nesses atos desnecessários e brutais, das normas do Direito e dos princípios de Humanidade, que regem a guerra no mar. Desta vez, em que o número das vítimas foi de várias centenas, compreendendo mulheres e crianças, a agressão foi dirigida contra a nossa navegação, essencialmente pacífica e, por sua própria natureza, sem objetivos susceptíveis de favorecer qualquer país beligerante, mesmo americano, sem ferir interesses de terceiros. Eram navios de passageiros e nenhum navegava em zona de guerra ou de bloqueio, nem podia ser suspeito de levar carregamento para qualquer adversário das potências do "eixo", uma vez que seus portos de destino eram unicamente brasileiros. O seu afundamento nas costas brasileiras é indiscutivelmente um ato de agressão direta ao Brasil e à extensão da guerra à América do Sul. À vista disso, o governo brasileiro, por intermédio da embaixada da Espanha e da legação da Suíça, fez saber aos governos da Alemanha e da Itália que, a despeito de sua atitude sempre pacífica, não há como negar que esses países praticaram contra o Brasil atos de guerra, criando uma situação de beligerância que somos forçados a reconhecer na defesa da nossa dignidade, da nossa soberania, da nossas segurança e a da América e a repelir na medida de nossas forças".